Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Augusto dos Anjos (1884-1914)


Marca d'água

Idealismo

 


Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor na Humanidade é uma mentira.
E’. E é por isto que na minha lyra
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
E’ o amor do sybarita e da hetaira,
De Messalina e de Sardanapálo ? !

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique immaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulchro para o teu sepulchro ? !


ANJOS, Augusto dos. “Idealismo”. In: Eu e outras poesias (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920, p. 91.

 


Marca d'água

Meretriz

 


A rua dos destinos desgraçados
Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados
Da dominação carnal... Lúbrica, á lua,
Na sodomia das mais negras bôdas
Desarticula-se, em choreas doudas,
Uma mulher completamente nua !

I

E a meretriz que, de cabelos ruivos.
Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos
Na mesma esteira pública, recebe,
Entre farraparias e esplendores,
O erethismo das classes superiores
E o orgasmo bastardissimo da plebe!

E’ ella que, aliando, à luz do olhar protervo,
O indumento vilíssimo do servo
Ao brilho da augustal toga pretexta,
Sente, alta noite, em contorções sombrias,
Na vacuidade das entranhas frias
O esgotamento intrínseco da besta!

E ella que, hirta, a arquivar credos desfeitos,
Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,
Reduzidos, por fim, a ambulas molles,
Soffre em cada molécula a angústia alta
De haver secado, como o steppe, à falta
Da água creadora que alimenta as proles!

E ella que, arremessada sobre o rude
Despenhadeiro da decrepitude,
Na vizinhança aziaga dos ossuários
Representa, através os meus sentidos,
A escuridão dos gineceus fallidos
E a desgraça de todos os ovários!

Irrita-se-lhe a carne à meia noite.
Espicaça-a a ignomínia, excita-a o açoite
Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.
E a mulher, funcionária dos instintos,

Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos.
Gane instintivamente de luxúria!
Navio para o qual todos os portos
Estão fechados, urna de ovos mortos,
Chão de onde uma só planta não rebenta,
Eil-a, de bruços, bebida de gozo
Saciando o geotropismo pavoroso
De unir o corpo à terra famulenta !

Nesse espoliamento repugnante
O esqueleto irritado da bacchante
Estrala… Lembra o ruído harto azorrague
A vergastar ásperos dorsos grossos.
E é aterradora essa alegria de ossos
Pedindo ao sensualismo que os esmague!

E o pseudo regozijo dos eunucos
Por natureza, dos que são cardíacos
Desde que a Mãe-comum lhes deu início
E a dor profunda da incapacidade
Que, pela própria hereditariedade
A lei da seleção disfarça em Vício!

E o júbilo apparente da alma quasi
A eclipsar-se, no horror da orquídea fase
Esterilizadora de órgãos... E o hymno
Da matéria incapaz, filha do inferno.
Pagando com volúpia o crime eterno
De não ter sido fiel ao seu destino !

E o Desespero que se faz bramido
De anhelo animalíssimo incontido,
Mais que a vaga incoercível na água oceania
E a Carne que, já morta essencialmente,
Para a Finalidade Transcendente
Gera o prodígio anímico da Insania!

Nas frias antecâmaras do Nada
O fantasma da fêmea castigada,
Passa agora ao clarão da lua accesa
E é stu corpo expiatório, alvo e desnudo
A Synthese eucharisticade tudo
Que não se realizou na Natureza !

Antigamente, aos tácitos apelos
Das suas carnes e dos seus cabellos,
Na óptica abreviatura de um reflexo,
Fulgia, em cada humana nebulosa,
Toda a sensualidade tempestuosa
Dos appetites barbaros do Sexo!
O atavismo das raças sibaritas,
Creando concupiscências infinitas
Como eviterno lobo insatisfeito;
Na homofagia hedionda que o consome,
Vinha saciar a millenaria fome
Dentro das abundâncias do seu leito!

Toda a libidinagem dos mormaços
Americanos fluía-lhe dos braços,
Irradiava-se-lhe, hídrica, das veias
E em torrencialidades quentes e húmidas.
Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas
Lembrava um transbordar de aniphoras cheias

A hora da morte acende-lhe o intelecto
E á húmida habitação do vício abjecto
Afluem milhões de sois, rubros, radiando
Resíduos memoriais tornam-se luzes
Fazem-se ideias e ela vê as cruzes
Do seu martirológio miserando !

Inícios atrofiados de ethica, ancia
De perfeição, sonhos de culminância.
Libertos da ancestral modorra calma,
Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,
Lançando a sombra horrível dos seus vultos
Sobre a noite fechada daquela alma!

E o sub levantamento collectivo
De um mundo inteiro que aparece vivo,
Numa scenographia de diorama,
Que, momentaneamente luz fecunda,
Brilha na prostituta moribunda
Como a phosphorescence sobre a lama !

E a visita alarmante do que outrora
Na abundância prosperina da aurora,
Poderá progredir, talvez, de certo.
Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,
Ficou rolando, como aborto inutil,
Como o.... do deserto !

Vede! A prostituiçâo'ophidia aziaga -
Cujo tóxico instilla a infâmia, e a estraga
Na delinquência . . . impune,
Agafrou-se-lhe aos seios impudicos
Como o abraço mortífero do Ficus
Sugando a seiva da árvore a que se une !

Enroscou-lhe aos abraços com tal gosto,
Mordeu-lhe a bocca e o rosto

Ser meretriz depois do túmulo ! A alma
Roubada a hirta quietude da urbe calma
Onde se extinguem todos os escolhos :
E, condenada, ao trágico dictame,
Oferecer-se á bicharia infame
Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!

Sentir a lingna aluir-se-lhe na bocca
E com a cabeça sem cabelos, ôca .
Na horrorosa avulsão da forma nivea
Dizer ainda palavras de lascívia


ANJOS, Augusto dos. “Meretriz”. In: Outras Poesias. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920,p. 215.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)