Cantos Populares do Brasil (1883)
A mulatinha
-Estava de noite
Na porta da rua,
'Proveitando a fresca
Da noite de lua,
Quando vi passar
Certa mulatinha
Camisa gommada ,
Cabello entrançadinho.
Peguei o capote,
Sahi atraz d'ella,
No virar do becco
Encontrei com ella.
Ella foi dizendo :
«Senhor, o que quer?
Eu já não posso
Estar mais em pé.
Olhei-lhe p'r'as orelhas,
Vi-lhe uns brincos finos,
Na restea da lua
Estavam reluzindo.
Olhei p'r'o pescoço,
Vi um bello collar;
Estava a mulatinha
Doa de se amar.
Olhei-lhe p'r'os olhos,
Vi bem foi ramela ;
De cada um torno
Bem dava uma vela.
Olhei-lhe p'r'a cara,
Não lhe vi nariz;
No meio do rosto
Tinha um chalariz.
Olhei-lhe p'r'a bocca
Não vi-lhe um só dente;
Parecia o diabo
Em figura de gente.
Olhei-lhe p'r'os peitos,
Eram de marmota;
Pareciam bem
Peitos de uma porca.
Olhei-lhe p'r'as pernas,
Eram de vaqueta;
Comidas de lepra,
E cheias de greta.
Olhei-lhe p'r'os pés,
Benzi-me de medo;
Tinnha cem bichos
Em cada um dedo.
ROMERO, Sylvio (org.) “A mulatinha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 62-63.
A ribeira velha
Ribeira Velha,
Porto de mar,
Aonde as barquinhas
Vão calafetar…
Peguem na ferragem,
Lancem lá no mar
P'ra fazer uma nau.
Uma nau bem galante,
Para navegar
Pelas partes ela India …
Aquelle menino
É da banda miuda.
Cambrainhas finas
Não são p'ra vossê;
P'ra gente, sinhá,
Que me faz a mercê,
Que deita na cama,
Não tem que dizer.
Felix do Retiro
Mandou-me chamar,
Eu mandei dizer
Que não ia lá…
Arengas com frade
Não quero tomar.
Conversas de dia
Acabam de noite
Em prantos ele choros
De Manoel João,
Que anda na rua
Com seu pé no chão,
Balindo com mulatinhas,
Balindo com crioulinhas.
Lá no Mundo Novo
Tem uma casinha·
Dentro d'ella mora
Certa mulatinha.
ROMERO, Sylvio (org.) “A ribeira velha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 50-61.
Chula matuta, a duas vozes
Cravo branco se conhece (bis)
Pelo bom cheiro que tem ; (bis)
- Quem me dera saber lêr …
Eu conheço a rapariga
Ja de longe quando vem .
- Quem me dera saber lêr ...
Quem nunca provou não sabe
Dos quindins das mulatinhas;
- Quem me dera saber lêr…
São papudas, são gostosas,
São melhores que as branquinhas.
- Quem me dera saber lêr …
ROMERO, Sylvio (org.). “Chula, a duas vozes”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 258.
Cupido
Cupido, rei dos amantes,
Só Cupido soube amar;
Ainda depois ele morto
Do amor se quiz lembrar.
Topei Cupido chorando,
Perguntei si era dôr;
Cupido me respondeu
Que era paixão de amor.
Topei Cupido em desprezo,
Cousa que nunca pensei!
Deitadinbo pelo chão …
Até com os péa lhe pisei!
Cupido subiu ao monte
Fazendo grilhões de prata,
Para prender todo aquelle
Que tem paixão por mulata.
Aquieta, Cupido, aquieta,
Não esperdices tua prata,
Qu'é de bem que não se prenda
Quem tem paixão por mulata.
Na escóla de Cupido
Eu fui o decurião;
Aprendi mais que Cupido,
Vejam si sei ou não.
ROMERO, Sylvio (org.) “Mulata”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 207-208.
D. Carlos de Montealbar
«Linda cara tem o conde
Para commigo brincar.
-Mais linda tendes, senhora,
Para commigo casar.
Veiu o caçador e disse:
-« A el-rei irei contar
Que apanhei a Claralinda
Com Dom Carlos a brincar
«Vem cá, meu caçador,
Caçadorzinho real,
Da:rei-te villas de França
Que não possas governar,
Darei-te prima carnal
Para contigo casar.
-« Não quero villas de França,
Nem sua prima carnal;
Com ella hei-de casar;
A el-rei irei contar,
Mais tem elle que me dar:
Apanhei a Claralinda
Com Dom Carlos a brincar.
De abraços e boquinhas '
Não podiam desgarrar,
Da cintura para baixo
Não tenho que lhe contar.
=Si me dissesses occulto,
Posto te havia de dar,
Como dissestes ao público,
Vai-te já a degolar.
Ide guardas já prender
Dom Carlos de Montealbar,
De mulas acavalgadas
Qne lhe pesem um quintal ;
Dizei a seu tio bispo
Que o venha confessar.
« Deus vos salve, Clarasinha,
Rainha de Portugal,
Dom Carlos manda dizer
Que o saias a mirar.
Inda que a alma cl'elle pene
A sua não penará.
- Levanta-te, Claralinda,
Rainha de Portugal,
Ide defender Dom Carlos
Para não ir a enforcar.
« Que ganhaste, mexeriqueiro,
A meu pai em ir contar?
-« Ganhei a forca, senhora,
D'ella me queira livrar.
ROMERO, Sylvio (org.). “D. Carlos de Montealbar”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.13-16.
Fui eu que plantei a palma
Fui eu que plantei a palma
No caminho pelo sertão ;
Nasceu-me a palma na mão
E a raiz no coração.
Abaixai-vos, limoeiro,
Quero tirar um limão,
Para tirar uma nodoa
Que trago no coração.
A malvada cozinheira,
Com sua fita amarella,
Com sentido nos amantes,
Deixou queimar a panella.
Você diz que não ha cravo
Na Villa de Paraty,
Inda hontem vi um cravo
No peito de Joaquim.
Fui eu que errei o verso,
Minha cabeça virou ;
Virei p'r'a banda das moças
E o tiro me acompanhou.
Eu já fui mestre de campo
E campeiro na campina;
Quem é mestre tambem erra,
Quem erra tambem se ensina.
Ja fui pasto, ja pastei
Pasto de muitas ovelhas,
D'aquellas que vestem saias,
Botam brinco nas orelhas:
O meu peito está fechado,
A chave está em Lisboa;
O meu peito não se abre
Se não a vossa pessoa.
Abaixai-vos, serras altas,
Quero vêr Guaretinguetá,
Quero vêr o meu bemzínho
Nos braços de quem está.
Appareça, não se esconda,
Sua cara bexigosa ;
Cada bexiga seu cravo,
Cada cravo sua rosa.
A laranja tem dez gomos
Todos debaixo da casca ;
Amor, não me deis mais penas,
Que as que tenho já me basta.
Me pediste uma laranja,
Meu pai ·não tem laranjal;
Si queres um limão doce,
Abre a bocca, toma lá.
O annel que vós me déstes
Era de vidro, quebrou-se;
O amor que tu me tinhas
Era pouco, já acabou-se.
Minha mãe, case-me logo,
Casadinba quero ser,
Eu não sou sóca de cana,
Que morre e torna a nascer.
Minha mãe, caze me logo
Em quanto sou rapariga;
Depois não venha dizendo
Que estou com o peito cabido.
Encontrei com meu benzinho
Encostado n'uma pedra.
Uma mão chega não chega,
E a outra péga não péga
Os meus olhos ele chorar
Já perdeu claridade,
De chorar continuamente,
Bemzinho, a tua saudade.
Eu fui que nasci no ermo
Entre dois cravos mirantes,
Dai-me uma gota ele leite
D'esse vosso peito amante.
Eu nasci sem coração,
Não sei como hei-de viver;
Menina, me dai o vosso
P'ra no meu peito trazer.
Os gallos estão cantando,
Os passarinhos também;
Já ahi vem o claro dia
E aquella ingrata não vem.
ROMERO, Sylvio (org.). “Fui eu que plantei a palma”. In: _Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 263.
Não tenho inveja de nada
Não tenho inveja de nada,
Nem dos brazões da rainha,
Só por ter a gravidade
De me chamar mulatinha.
A côr branca é muito fina;
A parda é mais excellente ;
A maior parte da gente
A côr morêna se inclina ...
Para ser bonita e bella,
Não preciso andar ornada;
Basta-me a côr de canella ;
Não tenho inveja de nada.
ROMERO, Sylvio (org.). “Não tenho inveja de nada”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 239.
O boi espacio
Foi garrote, foi capado
No curral da Piedade;
Nunca temeu a vaqueiro,
Nem a vara de ferrão,
Nem o mesmo José de Castro
No cavallo Riachão.
Do chifre do Boi-Espacio
D'elle fez-se uma canôa,
Para embarcar a gente
Do Recife p'ra Lisboa.
Dos olhos do Boi-Espacio
D'elles fez-se uma vidraça
Para espiar as moças
Quando passeiam na praça.
Da cabeça do Boi-Espacio
D'ella se fez um banqueiro
Para retalhar a carne
Da gente do Saboeiro.
O couro do Boi-Espacio,
Tirado por minha mão,
Deu trinta jogos de malas,
Nove pares de surrão.
A rabada do Boi-Espacio,
Tirada por minha mão,
Deu trinta laços de corda,
Nove pares de surrão.
A carne do Boi-Espacio
Botada no estaleiro,
Comeram vinte famílias
De janeiro a janeiro.
O corredor do Boi-Espacio
Deu tamanha corredeira,
Que todo o povo do Crato
Ficou-se de caganeira.
As tripasdo Boi-Espacio
Tiradas por minha mão,
Deu dez cargas de linguiça,
Onze arrobas de sabão.
Do debulho do Boi-Espacio
D'elle se fez barrella,
Para se lavar a roupa
Da gente da Manoela.
Da unha do Boi-Espacio
Quatro obras se formou,
Uma jangada, uma lancha,
Um palacio e um vapor.
Das orelhas do Boi-Espacio
Quatro obras se formou,
Um abano, uma esteira,
Uma maca, um tambor.
Este meu Boi-Espacio
Morava em dois sertãos,
Comia nos Cipoaes,
Bebia nos Caldeirão.
Matei o meu Boi- Espacio
Em uma tarde serena,
Toda a gente da ribeira,
Que não chorou, teve pena:
ROMERO, Sylvio (org.) “O boi espacio”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.84-85.
O calango
Calango fez um sobrado
De vinte e cinco janellas
Para botar moças brancas,
Mulatas côr de canella.
Calango matou um boi,
D' elle não deu a ninguem;
Lagartixa respondeu :
- Calango fez muito bem.
O calango foi á feira
Em traje de gente rica;
Lagartixa respondeu :
- Calango, vossê lá fica
O calango foi á festa
Montado n'uma leitôa ,
Lagartixa respondeu :
- Calango não é pessoa
Calango estava deitado
Na prôa do seu navio,
Lagartixa respondeu:
- Calango, tu és vadio.
Calango sahiu á rua
Montado n'uma perúa;
Lagartixa respondeu:
-Vejo que a tola está núa.
Calango foi convidado
Para ser juiz de paz ;
Lagartixa respondeu :
- Calango, veja o que faz.
Calango foi á Bahia
Com seu barco de feijão ;
Lagartixa respondeu:
- Cada bage é um tostão.
O calango é bicho porco,
N'um folguedo q uiz entrar;
Lagartixa respondeu :
- Calango, vai-.e lavar.
Calango foi convidado
Para ser um presidente;
Lagartixa respondeu :
- Calango, me traz um pente.
Minha gente, venha vêr
Cousa de fazer horror :
Lagartixa de chinelas,
Calango de paletô.
ROMERO, Sylvio (org.) “O calango”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 114.
O ladrão do padresinho
«O ladrao do padresinho
Deu agora em namorador;
Padre, vossê vá-se embora,
Que eu não quero o seu amor.
-O amor não é seu
É de Raphael ;
Rapbael quando fôr
É de quem quizer ...
Vou criar as minhas raivas
Com meus calundús,
P'ra fazer as cousinhas
Que eu bem quizer…
Ai! me largue o babado!
Ai ! me largue, diacho!
Que diacho de padre,
Ai, meu Deus!
Que diacho de padre,
Meu Santo Antonio! …
O padre já estava orando,
Quando a mulata chegou;
Veiu dizer lá de dentro :
-Eu sou seu venerador:
O amor não é seu,
É de Raphael;
Raphael quando fôr, etc.
O padre foi dizer missa
Lá na torre de Belém;
Em vez de dizer Oremus,
Chamou Maricas- Meu bem! . ..
O amor não é seu,
É de Rapbael,
Raphael quando fôr, etc.
Eu perguntei ao padre:
Porque deu em meu irmão ?
-Com saudades das morenas
Não quero ser padre, não.
O amor não é seu,
É de Rapbael,
Raphael quando fôr, etc.
ROMERO, Sylvio (org.) “O ladrão do padresinho”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 67-68.
Oh ciranda, oh ciranda
Oh ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavalleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéo na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho
de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa bocca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é ;
Caranguejo só é peixe
Na vasa o te da mar é.
Dá-ri -rá-Já-lálá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé. ..
Caranguejo só é peixe
Na vasante da maré.
Atirei com o limãosinho
Na mocinha da janella;
Deu no cravo, deu na rosa,
Bateu nos peitnbos d'ella.
Craveiro, dá-me um cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá meu beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãi bem que me disse
Que eu não fosse á fonçào,
Qu'eu tinha meu nariz tórto,
Servia de mangação.
ROMERO, Sylvio (org.). “Oh ciranda, oh cirandinha”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 248-249.
Plantei manjaricão na baixa
Plantei manjaricão na baixa,
Alegrim pelos outeiros;
Juntou-se cheiro com cheiro ...
Boa vida é dos solteiros.
Alecrim verde é cheiroso,
O sêcco inda cheira mais;
Mulher que se fia em homens
Toda fica dando ais.
O amor da mulher solteira
É como o vento da tarde;
Deu o vento na roseira,
Acabou-se a lealdade.
O amor de dois solteiros
É como a flôr do feijão;
Quando olham um p'ra outro
Logo mudam de feição.
O amor quando se encontra
Causa susto e mette gosto;
Sobresalta um coração,
Muda o semblante do rosto.
ROMERO, Sylvio (org.) “Plantei manjaricão na baixa”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 217.
Quero bem à mulatinha
Quero bem á mulatinha
Por ser muito de meu gosto;
Si os parentes se anojarem,
Um valente topa outro.
Pelo feixe da espingarda,
Pelo cano que ella tem,
Pelo fio de minha espada
Que não engeito a ninguem.
Si puxar por minha espada
Na beirinha ela lagôa,
Si acaso fico perdido,
Seja por cousinha boa.
Rompo chuvas e trovões,
Coriscos, e criminoso
Ando no mundo, queixoso
Sem de mim se fallar nada! …
Hei-de amar a mulatinha
Pelo feixe da espingarda.
Viva Sant' Anna e Maria,
E Sam Joaquim n'este dia;
Deus quando subiu p'ra guia
Deixou por valimento
O testemunho da gente.
Para amparo dos cbristãos
Viva Sant' Anna e Maria.
ROMERO, Sylvio (org.) “Quero bem à mulatinha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 69.
Senhor Pereira de Moraes
Onde vai, senhor Pereira de Moraes?
Vossê vai, não vem cá mais;
As mulatinhas ficam dando ais,
Fallando baixo,
Para metter palavriados ...
Qu'é d'êl-o pente .
Para abrir liberdade?
Qu'é d'êl-o perú azul?
Qu'é d'êl-a banha do teyú?
Dois amantes vão dizendo
«Venda a roupa e fique nú ... »
Mulatinhas renegadas,
Mais as suas camaradas,
Me comeram o dinheiro,
Me deixaram esmolambado;
Ajuntaram-se ellas todas
.Me fizeram galho fadas ...
Ora, meu Deus,
Ora, meu Deus,
Estas mulatinhas
São peccados meus...
ROMERO, Sylvio (org.). “Senhor Pereira de Moraes”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 46.
Variante do Rio Grande
-Meu bemzinho, diga, diga,
Por tua boca confessa
Si algum dia tu tiveste
Amor que mais eu quizesse .
Mas confesso que não tive
Quem mais trabalho me desse.
«Si mais trabalho lhe dei,
Por tua mão procuraste,
Que de casa de meus paes
Bem raivosa me tiraste.
Si raivosa te tirei,
Por me vêr perseguido,
Quantas e quantas vezes
Bem me tenho arrependido !
- ·Porque te arrependes, ingrata,
Tendo eu um genio doce?
Prouvéra que eu fosse amoroso,
Não andavas tão desgostosa.
Que desgostosa vossé vive,
Vivendo d'esta sorte;
Te prometto lealdade,
Lealdade até á morte.
« Pois eu sinto e sentirei,
Sinto mil ingratidões ;
Sinto ser uma dôna
E roubada dos ladrões.
Eu dos ladrões nunca fui,
E de juro de não ser,
Emquanto viver sujeita
Debaixo de seu poder.
- Debaixo de meu poder
Foi que tiveste valia;
Que sahindo para fóra
Acabaes a fidalguia.
«Fidalguia sempre tive,
Que d'isto me hei de gabar,
Que com gente d'outra esphera
Não me hei-de misturar.
-Misturar hei-de por força,
Que isto vem de geração;
Que as meninas d’estes tempos
Não se dão à estimação.
«Estimação não se dão
Aquellas que são pobres ;
Que uma rica como eu
Só procura gente nobre.
-Gente nobre hei de por força,
Que isto vem por festejar ;
Que o peor é dar-lhe um couce,
E o melhor vem a ficar.
Já sei que queres dizer...
Queres dominar o meu corpo,
Isto me daes a entender.
ROMERO, Sylvio (org.). “Variante do Rio Grande”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.130-131.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)