Gilka Machado (1893-1980)
Sândalo
A Antônio Egos Moniz Barreto de Aragão
Quente, esdrúxulo, activo, emocional, intenso,
o sandalo espirala, o espaço ganha, berra...
e eu, que soffrêga o sorvo em longos haustos, penso
sêr elle a emanação da volúpia da Terra.
Odor que o sangue inflamma e que ujm desejo immenso
de prazeres sensuaes em nossas almas ferra,
quer perfume o brancor de um rendilhado lenço,
quer percorra, a cantar, as brenhas, o ermo, a serra.
Quando o aspiro a embriaguez em mim se manifesta,
e ébria do amor transponho a virential floresta,
onde a Luxúria, como uma serpente, assoma…
Ha rumores marciaes, sangrentos, aggressores,
de trompas, de clarins, cornêtas e tambores,
na forte éxhalação deste infernal aroma.
MACHADO, Gilka. “Sândalo”. In: Crystaes Partidos. Rio de Janeiro, 1915, p. 25.
Rosas
A Luiz Murat
I
Cabe a supremacia à rosa, entre o complexo
das flores, pelo viço e pela pompa sua,
e o aroma que ella traz sempre à corolla annexo
o coração humano excita, enleva, estua.
Quando essa flor se ostenta à luz tíbia da Lua,
o luar busca enlaçá-la, amoroso, perplexo,
e ella sonha, estremece, oscilla, ri, fluctua
e desmaia, ao sentir esse etheral amplexo.
Si é rosea lembra carne ardente, palpitjante...
nivea — lembra pureza e nada ha que a supplante*
rubra — de certa bocca os lábios nella vejo.
Seja qualquer a côr, por sobre o hastil de cada
rosa, vive a Mulher, nos jardins flor tornada,:
— symbolo da Volúpia a exci/tar o Desejo.
II
Rosas cujo perfume, em noutes enluaradas,
é um sortilegio ethereo a transpor as rechans;
rosas que á noute sois risonhas, floreas fadas,
de cutis de velludo e tenras carnes sans.
Sejaes da côr do luar ou côr das alvoradas,
rosas, sois no perfume e na alegria irmans,
e todas pareceis, á luz desabotoadas,
a concretisaçáo dos risos das Manhans!
O' rosas de carmim! O' rosas roseas e alvas!
ha nesse vosso odor toda a maciez das malvas,
a púbere maciez do pêcego em sazão.
Dae que eu possa gosar, ao vosso cojlo rente,
esse perfume, a um tempo excitante e emolliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!
MACHADO, Gilka. “Rosas”. In: Crystaes Partidos. Rio de Janeiro, 1915, p. 28.
Beijo
Beijo, beijo de amor — ave em cuja aza crespai
o espirito se eleva a paragens ethereas,
ignivorría, nervosa e zumbídora vespa,
que infiltra nas artérias ,
da volúpia o fervente e orgiaco veneno;
som que ao festivo som de um guiso se assemelha,
que, a um só tempo é gemido, é gargalhada e é tjhreno;
semente, que a vermelha
flor da luxuria vem plantar sobre o maninho
solo da alma; licor que se contem da bocca
na amphora coralina; espiritual carinho;
bala rubra que espôca
no lábio; arredondada e rútila e sonora
phrase que vem narrar do amor todo o áureo poema,
e que entender só pôde o ente que ama, que adora.
Beijo de amor — suprema
delicia, original pomo da arvore da alma,
cujo galho, a subir, vae pender sobre a ameia
do lábio, pomo que ora excita e que ora acalma.
Dentro, em nós, mais se ateia,
ao contacto febril do lábio amado e amante,
das ancias a fogueira), e dos beijos o ruido
sêr julgo o crepitaí dessa fogueira estuante.
Beijo de amor — olvido
para os males da ausência; astro canoro e rubro
que no horizonte arcoal do lábio humano aponta;
flor que adorna do affecto o sumptuoso delubro;
aurifulgente conta
que, ó Alma! vaes enfiar no oollar dos prazeres
rumor que, em si, contem scintillas polycores,
sonora confusão das boccas e dos seres;
mixto de sons e odores,
beijo, beijo de amor — escandalosa lôa,
que, na festa pagan do luxuriante gôso,
em louvor á Cupido a humana bfocca entoa;
elixir delicioso,
que ao paladar nos traz dia saudade os resabios;
remédio com que, ó Anciã! esse teu mal ensalmasij
beijo, beijo de amor — matrimônio dos lábios
— concubito das almas.
MACHADO, Gilka. “Beijo”. In: Crystaes Partidos. Rio de Janeiro, 1915, p. 40.
Sensual
«Quando, longe de ti, solitária, medito
.«.este, affecto pagão que envergonhada occulto,
vem-me ás narinas, logo, o perfume exquisito
que o teu corpo desprende e ha no teu próprio vulto.
A febril confissão deste affecto infinito
ha muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,
pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,
-á minha castidade é como que um insulto.
Si acaso te achas longe, a collossal barreira
-dos protestos que, outr'ora, eu fizera a mim mesmas
de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.
Mas, si estás ao meu lado, a barreira desaba,
e sinto da volúpia a ascosa e fria lêsma
aninha, carne polluir com repugnante baba...
MACHADO, Gilka. “Sensual”. In: Crystaes Partidos. Rio de Janeiro, 1915, p. 41.
Fecundação
Teus olhos me olham
longamente,
profundamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser creatura.
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
uma ave afflicta
meu pensamento
na lua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos cream raízes
nu minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu morbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por sentil-o, tal prazer,
ha nos meus poros tal palpitação,
que me vem a illusão
de que se vae abrir
todo meu corpo
em poemas.
MACHADO, Gilka. “Fecundação”. In: Sublimação. Rio de Janeiro, 1938, p. 71.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)