A namoradeira
Era travessa e bella a louca trigueirinha,
Trajava no rigor, seu gesto é pueril;
Em frente a um espelho aí que de riso estuda,
Nas faces peregrinas põe carmim subtil.
Um riso de ahesão, que da vaidade insufla,
Faz crer que bem está... que efeito vai fazer;
Os dedos pequeninos pelos frisos passa,
Fulgura-lhe o olhar num laivo de prazer.
Aérea no pisar, a saia meio curta,
Deixava ver um pé de nova Cendrillon,
Que o salto a Luiz Quinze mais pequeno torna,
Seguindo assim o aviso do rigor do tom.
E vai para a varanda... o namorado passa:
E” um petit crevet da sala, é um leão;
As calças são estreitas, os botins, de ponta;
No peito traz, mimoso, um carmino botão.
Saúda, e mostra a carta, que do bolso tira,
Repleta de mil nadas de triviais ficções,
Que a mesma, toda ufana, abrindo, a rir, estoura,
E a lê, como lê outra, assim... sem emoções.
Responde: oh quanta jura, que de amor mentido!
Não volatiza á pressa a essência de uma flor:
Não prostra em asco immenso as rosas dentre as cinzas
De um peito que se gela em tumular pallór!...
O amor que mercadeja a essência purpurina
Desse florido ramo de um celeste alvor,
Destroe em pressa o peito, o asco o envolve infrene
Matando afoito o germen que produz:—amor!
SABINO, Inês. “A namoradeira”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 100.