João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Escritos com o corpo
Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto: nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.
E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.
Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a quem, sem desfalque,
queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
§
De longe como Mondrians
em reproduções de revista,
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.
Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmera da distância
e suas lentes interfiram,
porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,
se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
E que porém de um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,
pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.
§
Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.
Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.
É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.
Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.
Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto vestia:
com pouco, ela toda, também,
já se esgarça, se desespessa,
até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.
§
Está, hoje que não está,
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.
Numa memória para o corpo,
externa ao corpo, como bolsa:
que, como bolsa, a certos gestos
o corpo que a leva abalroa.
Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
e que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.
Pois nessa memória é que ela,
inesperada, se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,
e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:
como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
MELO NETO, João Cabral de. “Escritos com o corpo”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 362.
A cana-de-açúcar menina
A cana-de-açúcar, tão pura,
se recusa, viva, a estar nua:
desde cedo, saias folhudas
milvestem-lhe a perna andaluza.
É tão andaluza em si mesma
que cresce promíscua e honesta;
cresce em noviça, sem carinhos,
sem flores, cantos, passarinhos.
MELO NETO, João Cabral de. “A cana-de-açúcar menina”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 594.
As infundiosas
1.
Eram três irmãs andaluzas,
da imensa maioria viúva.
Duas delas eram mães de artistas
(a filha sem dons também vinha).
É Utrera, e andaluza é a tarde
quando a literal irmandade
na casa de uma se reunia
a celebrar a mesma missa.
2.
O introito da missa o inicia
a que não possui filha artista:
“Loucura, soltar por Sevilha
as meninas” (Iam nos trinta).
“Quem sabe, depois de Sevilha,
dá-lhes por Madrid, pelas Índias?
Eu cá não deixo filha minha,
fosse artista, seguir as primas.”
3.
As duas outras, mães de artistas,
com paciência seguem a missa:
“Deixar filhas soltas no mundo!”.
Pensam: mãe de artista, no fundo,
coisa de bem — ou maldição,
coisa ambígua de sim e não,
há que aceitar: é uma em cem mil
essa paralisia infantil.
4.
(Conheci bem as três artistas;
eram todas minhas amigas.
Cantoras geniais todas três,
quando por cantes de Jerez.
Duas eram de ir para o frade
para quem é dura a castidade;
e as más línguas, a que era bela,
faziam correr que era lésbica.)
5.
Após pesar os riscos mis
das meninas pelos Madrids,
a missa das viúvas de Utrera
muda o sermão que se boceja.
“Agora, falar com infúndios;
a verdade é para os defuntos.”
E põem-se a falar faz de conta,
que é a verdade que não tem contras.
6.
não se lembram, nem das am“Agora só vai de Rolls-Royce
meu marido” (do eito da foice).
“Pois o meu chegou de avião,
não sei se da França ou Japão.”
“No almoço, Manolo me disse
que vai de férias ao Recife.”
(Então das filhas ameaçadas,
eaças.)
7.
A inspiração é sempre curta
e tanto mais quando é gratuita.
Esgotam-se os infúndios ricos
que ocorreriam aos maridos;
nem querem infúndios de pobre,
já lhes basta a vida de cobre;
nem maridos têm elas mais,
não mortos de touro, de olivais.
8.
Às vezes, infúndios volviam:
agora a grandeza é das filhas.
“Rocío me escreveu que ela ia
bailar na Arábia dos Sauditas.”
“Isso está afastado da Espanha;
lá não chega a Virgem de Triana.”
“Mas Rocío sabe de golpes
que nenhum mouro desses pode.”
9.
“O contrato da Antônia minha
parece que a leva até Olinda,
depois Rio, Peru, e enfim
Cachoeiro de Itapemirim.”
“E o que querem que assine Regla
leva-a de avião à Inglaterra;
depois, a duas Alemanhas,
quatro Suíças, três Irlandas.”
10.
Ficavam nisso horas sem conta,
na conversa ou missa de pompas.
Visitá-las era ir a um teatro
que o espectador vive do palco.
Tinha a visita de ir à mesa
e tomar parte na conversa,
e quase sempre alimentá-la
com infúndios da própria lavra.
MELO NETO, João Cabral de. “As infundiosas”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 816.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista:Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)