Mário de Andrade (1893-1945)
Camafeu
Já de púrpura e zarcão
Tonalizando-se vão
Moitas, bosquetes e grama,
Uma dríada outras chama
E passam em tropelias
As nudezas alvadias
De loiras ninfas em bando
Galopando.
Pelos relvados oblongos,
De mãos unidas em longos
Cordões, hílares, ovantes,
Elas bailam palpitantes
Os calínicos sensuais.
Animam-se mais e mais,
Helecimente incautas,
Ao ziar das flautas.
ANDRADE, Mário de. “Camafeu”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 81.
Tu
Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte!
Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!
Costureirinha de São Paulo,
ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
crepusculares e por isso mais ardentes,
bandeirantemente!
Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã!
Trituração ascencional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Moji e Paris!
Pura neblina da manhã!
Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como roubos!
Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaã do meu Poe!
Never more!
Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe...
Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros!
tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho!...
E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregã,
as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!
ANDRADE, Mário de. “Tu”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 102-103.
II
Máquina-de-escrever
B D G Z, Remington.
Pra todas as cartas da gente.
Eco mecânico
De sentimentos rápidos batidos.
Pressa, muita pressa.
Duma feita surripiaram a máquina-de-escrever de meu mano.
Isso também entra na poesia
Porque ele não tinha dinheiro pra comprar outra.
Igualdade maquinal,
Amor ódio tristeza...
E os sorrisos da ironia
Pra todas as cartas da gente...
Os malévolos e os presidentes da República
Escrevendo com a mesma letra...
Igualdade
Liberdade
Fraternité, point.
Unificação de todas as mãos…
Todos os amores
Começando por uns AA que se parecem...
O marido que engana a mulher,
A mulher que engana o marido,
Os amantes os filhos os namorados…
“Pêsames”.
“Situação difícil.
Querido amigo... (E os 50 milréis.)
Subscrevo-me
admor
bgo.”
E a assinatura manuscrita.
Trique... Estrago!
É na letra O.
Privação de espantos
Pras almas especulas diante da vida!
Todas as ânsias perturbadas!
Não poder contar meu êxtase
Diante dos teus cabelos fogaréu!
A interjeição saiu com o ponto fora de lugar!
Minha comoção
Se esqueceu de bater o retrocesso.
Ficou um fio
Tal e qual uma lágrima que cai
E o ponto final depois da lágrima.
Porém não tive lágrimas, fiz “Oh!”
Diante dos teus cabelos fogaréu.
A máquina mentiu!
Sabes que sou muito alegre
E gosto de beijar teus olhos matinais.
Até quarta, heim, ll.
Bato dois LL minúsculos.
E a assinatura manuscrita.
ANDRADE, Mário de. “II”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 137-138.
XLIV
Rondó Do Tempo Presente
Noite de music-hall…
Não, faz sol. É meio-dia.
Hora das fábricas estufadas digerindo.
A rua elástica estica-se tal qual clown desengonçado
Farfalhando neblinas irônicas paulistas.
O Sol nem se reconhece mais de empoado
Ver padeiro que a gente encontra manhãzinha
Quando das farras vai na padaria comer pão.
Noite de music-hall…
Cantoras bem pernudas.
O olhar piscapisca dos homens aplaudindo.
Como se canta bem nas ruas de S. Paulo!
O passadista se enganou.
Não era desafinação
Era pluritonalidade moderníssima.
Em seguida o imitador,
Tenores bolchevistas,
Tarantelas do Fascio…
Ibsen! Ibsen!
Peer Gynt vai pro escritório
Com o rubim falso na unha legítima.
Empregados públicos virginais
Deslumbrados com o jazz dos automóveis.
Os cadetes mexicanos marcham que nem cavalos ensinados,
Está repleto o music-hall!
Mulheres-da-vida perfiladas nas frisas.
– Olhar à direita!
– Olhar à esquerda!
Taratá!
Olhar especula pra todos os lados!
Mas as continências livres do meu chapéu
Não se esperdiçarão mais com galões desconhecidos!
Prefiro mil vezes saudar os curumins!
Sem esbarrão na confusão da multidão.
Bravíssimo!
Taratá!
Século Broadway de gigolôs, boxistas e pansexualidade!
Que palcos imprevistos!
Programas originais!
Permitido fumar.
Esteja a gosto.
Faz sol.
É meio-dia…
Noite de music-hall…
ANDRADE, Mário de. “XLIV”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 200-201.
Rondó pra você
De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo
Tão molhado que você me dá...
Eu não queria só porque
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você.
Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza, a faceirice,
A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.
ANDRADE, Mário de. “Rondó pra você”. In: Clã do jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 229-230.
Viuvita
Ela era mesmo bonita, muito moça
Esperando autobonde sozinha na esquina.
Todos os homens a encaravam sem respeito, desejando.
Vai, pra se livrar de tanta amolação
Ela fez esse gesto de moça que arranja chapéu,
Só pra mostrar a defesa que tinha no dedo, uma aliança.
A moça esqueceu que tinha duas alianças no dedo...
Por causa disso, os homens se aproximaram mais.
ANDRADE, Mário de. “Viuvita”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 231.
Canto do mal-de-amor
(1924)
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha… Seus braços
Era fatal me chamavam,
Parti… Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal-de-amor…
É tarde já… Zero grau.
Hesito mais, indeciso…
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
Até rio… Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo. A frase não para
No meio: com mal-de-amor.
Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria… vida fria…
Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero… Seus braços
Teus abraços boca pele
seios olhos seios dentes
Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora… Ela me abre os braços
Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços,
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!…
Os lampiões bem regulares
Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampião pisca,
Não tem mais nada ninguém…
O sino cai sobre mim.
São três horas já… Percorro
A noite com mal-de-amor…
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
Sigo… amor… Sei que não morro,
Vou sigo caminho… é tarde…
É mais adiante! Na esquina!…
Já sei que não é… Aquela
Janela sempre acordada,
É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano Atlântico, grande
Mar monótono monótono,
As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres dos naufrágios
Serão jogados na areia…
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis…
As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!…
E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua…
Minha rua das Palmeiras…
Vou sigo caminho… Longe
Meu quarto… quarto vazio…
Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos… O eco
Morreu. Um marulhar de ondas…
A miragem se dispersa.
Os braços nem chamam mais…
Sangue da aurora… O padeiro
Passou.
Última esquina.
Perto
O olho frio do meu quarto…
Nem não tenho carne mais…
Carne mais… Sigo. Caminho…
Destroços de ossos batendo…
Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis…
ANDRADE, Mário de. “Canto do mal-de-amor”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 403-406.
As cantadas
(Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1938)
Terras bruscas, céus maduros,
Apalpam curvas os autos,
Ai, Guanabara,
Serão desejos incautos,
Ancas pandas, seios duros…
Senti as curvas dos autos
Nas praias de Guanabara.
Penetro as fendas dos morros,
Desafogos de amor, jorros
De sensualidades quentes,
Ai, ares de Guanabara,
Sou jogado em praias largas,
Coxas satisfeitas feitas
De ondas amargas.
Não posso mais… Nunca ousara
Pensar cajás, explosões
De melões,
Mulatas, uvas pisadas,
Ai, Guanabara,
Tuas noites fatigadas…
Me derramo todo em sucos
Malucos de ilhas Molucas.
Manhã. Brisas intranquilas
De volúpias mal ousadas
Passam por ti,
Num gosto naval de adeuses…
Há deusas…
Há Vênus, há Domitilas
Fazendo guanabaradas
Por aí…
Mas as palmeiras resistem.
Na deformação dos raios,
Templos, gentes, esperanças
Em desmaios
E transposições de níveis…
Só as palmeiras resistem
Como consciências incríveis!
As noites não são bem noites,
As músicas são cansaços,
Açoites
De convites, bocas, mar,
Ai, ares de Guanabara,
Vou suspirar…
Meus olhos, minhas sevícias,
Minha alma sem resistências,
A Guanabara te entregas
Sem Deus, sem teorias poéticas…
Os aviões saltam dos trilhos,
Perfuram morros, ardências,
Delícias, vícios, notícias…
Aiai, Guanabara!
Que todo me desfaleço
Por cento e dez avenidas,
Pela mulher de em seguida,
Por teus cheiros, por teus sais,
Pelos aquedutos, pelos
Morros de crespos camelos
E elefantes triunfais!
Eu não sei se mais gozara,
Iaiá, Sereia do Mar,
Se achara n’alma outra clara
Glória rara sol luar
Aurora uiara
Niágara realeza
Suprema, eterna surpresa,
Guanabara!…
ANDRADE, Mário de. “As cantadas”. In: A costela do Grão Cão. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 444-450.
Beijos mais beijos
Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.
Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.
Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.
Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.
Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
– Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!
Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
– Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis…
ANDRADE, Mário de. “Beijos mais beijos”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 506.
Soneto
Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há-de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
ANDRADE, Mário de. “Soneto”. In: Poesia inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 82.
Burradas
~(Tempos da Maria)~
(1926)
Porém nunca eu aceitaria
Arranjos como o de Musset…
Eu pisaria sobre minha mãe e minha irmã desonradas,
Como ela passaria junto dos filhos
Sem mesmo se rir pra esses desconhecidos chorando…
Olharíamos conscientes a raiva dos homens,
O desespero invejoso dos homens não nos atingiria mais,
E vivendo junto de tudo, na solidão mais formidável,
Com cinismo guaçu, com cinismo de heroísmo,
Nós realizaríamos o amor.
Nos insultariam com todos os aviltamentos menos um,
Ninguém nos chamaria de covardes,
Porque seríamos os seres mais desinfelizes que vida criou,
Porém nós realizaríamos o amor!
Não teríamos um risinho sequer na boca ardendo,
Em nosso êxtase não avoaria um passarinho de alegria,
Uma aragem de prazer não brisaria em nosso encantoinconcebível,
Nem uma gota de gozo orvalharia nossa vertigem sublime,
Porque nós somos como o verão do Brasil...
Seríamos a magrém, uma ensolarada magrém incomparável,
Seríamos amantes e serenos, e seríamos severamente castos,
Porém nós realizaríamos o amor!...
Libertos da Terra, dos homens e das virtudes dos homens,
Libertos da felicidade e das infelicidades conhecidas,
Livres! livres de tudo e esquecidos de Deus, Senhor nosso,
Nós não seríamos mais livres!
Não teríamos a liberdade de aceitar um sacrifício,
Não teríamos a liberdade de nos agasalharmos na dor,
Diabos fatalizados pelo sol de verão que alumia edecreta a verdade das coisas,
Nós não seríamos mais livres!...
Porém nós realizaríamos o nosso amor!
ANDRADE, Mário de. “Burradas”. In: Poesia inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 111-112.
XXXIII (bis)
PLATÃO
Platão! por te seguir como eu quisera
Da alegria e da dor me libertando
Ser puro, igual aos deuses que a Quimera
Andou além da vida arquitetando!
Mas como não gozar alegre quando
Brilha esta alva manhã de primavera
– Mulher sensual que junto a mim passando
Meu desejo de gozos exaspera!
A vida é bela!Inúteis as teorias!
Mil vezes a nudeza em que resplendo
À clâmide da ciência, austera e calma!
E caminho entre aromas e harmonias
Amaldiçoando os sábios, bendizendo
A divina impureza de minha alma.
ANDRADE, Mário de. “XXVIII”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 182.
Coco do major
A Antônio Bento de Araújo Lima
O major Venâncio da Silva
Guarda as filhas com olho e ferrolho,
Que vidinha mais caningada
– seu mano –
Elas levam no engenho do velho!
Nem bem a arraiada sonora
Vem tangendo as juremas da estrada
Já as três se botam na renda
– seu mano –
Trequetreque de bilros, mais nada.
Vai, um mocetão paroara
Destorcido porém sem cabeça
Apostou num coco da praia
– seu mano –
Que daria uma espiada nas moças.
Pois a fala do lambanceiro
Foi parar direitinho no ouvido
Do major Venâncio da Silva
– seu mano –
Que afinal nem se deu por achado.
Bate alguém na sede do engenho.
– Seu major, ando morto de sede,
Por favor me dê um copo de água...
– seu mano –
– Pois não, moço! Se apeie da égua.
Dois negrões agarram o afoito,
O major assobia pra dentro.
Vêm três moças lindas chorando
– seu mano –
Com quartinhas de barro cinzento.
– Esta é minha filha mais velha,
Beba, moço, que essa água é de sanga.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a primeira moringa.
– Esta é minha filha do meio,
Beba, moço, que essa água é de corgo.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a moringa, já vesgo.
– Esta é minha filha mais nova,
Beba, moço, que essa água é de fonte.
E os negrões afogam o pobre
– seu mano –
Que adubou os facheiros do monte.
O major Venâncio da Silva
Tem as filhas mais lindas do norte,
Mas ninguém não viu as meninas
– seu mano –
Que ele as guarda com água de pote
ANDRADE, Mário de. “Coco do major”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 274-276.
Louvação matinal
(dezembro de 1925)
É de-manhã. Se sente a fadiga boa do sono.
Porém o corpo estica, chupando com os poros abertos,
Toda a luz, todo o frescor, todo o ímpeto da manhã.
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo matinal…
Enquanto a água rija do banho me bate no corpo
Sinto a manhã se levantando viva no país…
Sinto movendo as coxas das coxilhas lá no sul;
Adiante os colonos monótonos erguem o mate,
E na sombra fraca do carijo a brisa trabalha,
Deitando sobre a congonha o bafo sedento dela;
Nos sítios de serra-acima o solzão dependurado,
Polido e carnudo que nem fruta de jerimum,
Despenca dos itaquás sangrentos e se esbandalha
Nas roças de milho, nas roças de arroz e nos corgos,
Afugentando a sombra escusa das canhadas;
Nas terras de milagre as águas prenhes dos garimpos
Choram em cada bateia a lágrima dum diamante;
Mais pra arriba o grito pontudo do Cabuji
Achata o murmurejo religioso das juremas;
E quando lá no Amazonas as águas vadias se listram
Com os círculos dos jacarés que afundam pra descansar,
Vida de trabalho brabo, vida de todo dia.
Os gaiolas sobem lentamente o rio,
E os passarões, de pernas esticadas,
Mergulham em reta nas nuvens morenas do céu…
Tudo o que acorda na manhã do dia natural
Segue uma linha bem traçada, linha já sabida,
Aonde assusta de supetão o prisco do imprevisto,
Ver codorna que sem querer o camarada levantou.
Possuir consciência de si mesmo isso é a felicidade,
Isso é a glória de ser, fazendo o que será.
Que a vida de cada qual seja um projeto de casa!
Seco, o projeto agride o olho da gente no papel,
Porém quando a casa se agarra no lombo da terra,
Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta,
Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto,
Se relaciona com a existência, um homem vive nela,
E ela brilha da força do indivíduo e o glorifica.
Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!…
Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias,
Não posso contar como é a sala das cartomantes,
E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas,
Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro,
E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia,
Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades.
O meu passado… Não sei. Nem nunca matuto nele.
Quem vê na noite? o que enxerga na escureza assombrada?
O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante,
Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis
Que o passado da gente não é mais
Que um sono bem comprido aonde um poder de sombras lentas
Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou.
Não recapitular! Nunca rememorar!
Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua
Ir continuando o que um dia a gente determinou!
Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso!
Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas,
Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria,
Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais!
Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto,
Guardo na sensação o medo ágil da infância,
Eu sei me rir! eu sei me lastimar com ingenuidade!
Nombrada da terra em força nova na manhã!
Ao pé de mim São Paulo em rosa vibra cheirando vida!
O sol abrindo o paraquedas de ouro na amplidão
E peneirando o pólen do calor sobre esse mundo…
Rangem os caminhões. Padeiro entrega o pão. O leite
Ferve no fogo. A feira grita de cor. As notícias
Correm povo no galopão folgado dos jornais.
Auto-ônibus bufando. Tudo bufando, abrindo asa…
A cidade mexe de vida fresca, temporã.
É a manhã! é a manhã! a glória formidável da manhã!…
Eu fiz da minha vida sempre um rasgo, uma nombrada matinal…
Isso é a felicidade.
É a minha glória.
ANDRADE, Mário de. “Louvação matinal”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 359-361.
As cantadas
(Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1938)
Terras bruscas, céus maduros,
Apalpam curvas os autos,
Ai, Guanabara,
Serão desejos incautos,
Ancas pandas, seios duros…
Senti as curvas dos autos
Nas praias de Guanabara.
Penetro as fendas dos morros,
Desafogos de amor, jorros
De sensualidades quentes,
Ai, ares de Guanabara,
Sou jogado em praias largas,
Coxas satisfeitas feitas
De ondas amargas.
Não posso mais… Nunca ousara
Pensar cajás, explosões
De melões,
Mulatas, uvas pisadas,
Ai, Guanabara,
Tuas noites fatigadas…
Me derramo todo em sucos
Malucos de ilhas Molucas.
Manhã. Brisas intranquilas
De volúpias mal ousadas
Passam por ti,
Num gosto naval de adeuses…
Há deusas…
Há Vênus, há Domitilas
Fazendo guanabaradas
Por aí…
Mas as palmeiras resistem.
Na deformação dos raios,
Templos, gentes, esperanças
Em desmaios
E transposições de níveis…
Só as palmeiras resistem
Como consciências incríveis!
As noites não são bem noites,
As músicas são cansaços,
Açoites
De convites, bocas, mar,
Ai, ares de Guanabara,
Vou suspirar…
Meus olhos, minhas sevícias,
Minha alma sem resistências,
A Guanabara te entregas
Sem Deus, sem teorias poéticas…
Os aviões saltam dos trilhos,
Perfuram morros, ardências,
Delícias, vícios, notícias…
Aiai, Guanabara!
Que todo me desfaleço
Por cento e dez avenidas,
Pela mulher de em seguida,
Por teus cheiros, por teus sais,
Pelos aquedutos, pelos
Morros de crespos camelos
E elefantes triunfais!
Eu não sei se mais gozara,
Iaiá, Sereia do Mar,
Se achara n’alma outra clara
Glória rara sol luar
Aurora uiara
Niágara realeza
Suprema, eterna surpresa,
Guanabara!…
ANDRADE, Mário de. “As cantadas”. In: A costela do Grão Cão. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 444-450.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)