Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Murilo Mendes (1901-1975)

 


Marca d'água

Família Russa no Brasil

 


O Soviete deu nisto,
seu Naum largou de Odessa numa chispada,
abriu vendinha em Botafogo,
logo no bairro chique.

Veio com a mulher e duas filhas,
uma delas é boa posta de carne,
a outra é garotinha mas já promete.

No fim de um ano seu Naum progrediu,
já sabe que tem Rui Barbosa, Mangue, Lampião.
Joga no bicho todo o dia, está ajuntando pro carnaval,
depois do almoço anda às turras com a mulher.

As filhas dele instalaram-se na vida nacional.
Sabem dançar o maxixe
conversam com os sargentos em tom brasileiro.

Chega de tarde a aguardente acabou,
os fregueses somem, seu Naum cai na moleza.
Nos sábados todo janota ele vai pro criouléu.
Seu Naum inda é capaz de chegar a senador.


MENDES, Murilo. “Família Russa no Brasil”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 91-92.

 


Marca d'água

Perspectiva da sala de jantar

 


A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.

O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada,
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.

A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.


MENDES, Murilo. “Perspectiva da sala de jantar”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 92-93.

 


Marca d'água

Aquarela

 


Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado da chuva,
o mundo parece que nasceu agora,
mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,
talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas
pra namorar o sol, garotos jogam bola.
A baía arfa, esperando repórteres...
Homens distraídos atropelam automóveis,

acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,
meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,
estão vestidas só com uma blusa, cabelos lustrosos
saídos do banho e pensam longamente na forma
do vestido de noiva: que pena não ter decote!
Arrastarāo solenemente a cauda do vestido
até a alcova toda azul, que finura!
A noite grande encherá o espaço
e os corpos decotados se multiplicarão em outros.


MENDES, Murilo. “Aquarela”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 101-102.

 


Marca d'água

Imparcialidade

 


À beira do meu corpо
a noite mostra as meninas de ancas firmes
que uma estrela acende.
O mundo se pendura no seio das lâmpadas,
acorda os personagens do ar,
estremece de agonias distantes ao som de sanfonas.
Reino das/noites claras,
céu de alumínio, formas penteando os cabelos
no espelho da lua.
Os espíritos da noite fogem pelos olhos das mulheres
pra outro mundo de estrelas verdes
onde o pensamento acaba, e a sombra é vasta.

A lua depende da inocência de teus sonhos.
Dos caminhos do ar se debruçam olhares sobre teu corpo
e o mundo é bom pra quem não quer destruir a ordem.


MENDES, Murilo. “Imparcialidade”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 102.

 


Marca d'água

Vida dos demônios

 


Demônios grandes
trabalham na planície, nas montanhas,
nos arranha-céus,
constroem o trabalho dos homens,
agitam o mar,
armam a mão dos padres e operários,
ajuntam imagens e reflexos na cabeça dos poetas,
despem as mulheres no mundo.
Os demônios vêm e vão
na terra, na água, no fogo, no ar.
Demônios de todas as cores, de outras cores que a gente não vê
movem os astros, balançam na consciência da terra.

Eles vão e vêm, sobem, descem,
debruçam-se nos olhos da gente,
no bico da minha pena.
Mundo, campo de experiência dos demônios.
Os demônios sitiam o plano inefável
onde Deus pensa a harmonia do mundo.

A Virgem Maria toda branca e fria
atravessa no caminho,
eles caem no tempo.


MENDES, Murilo. “Vida dos demônios”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 104.

 


Marca d'água

A Reveladora

 


Eu nunca vi tua mãe.
Como será tua mãe?
Nem ao menos vi seu retrato.
Para te conhecer melhor
Preciso aprender tua mãe.

A mãe dela finalmente
Apareceu hoje de tarde na varanda.
Tem os cabelos ruivos que nem a filha,
O mesmo jeito de andar.

Olhei para Maria,
Reconstitui sua mãe
No tempo em que a conheci.
Olhei para a mãe dela,
Pude avaliar direito
O que será Maria no futuro.

Louvada seja a mãe da minha namorada
Que levou nove meses para fazer
Todo aquele mundo de ternura
E não descansou até agora
Nem ao menos um dia;
Que a tirou do seu ventre
Enquanto seu marido não estava dormindo.
Que lhe emprestou
Seus cabelos, olhos e quadris;
Que a deixou no jardim de noite
A fim de eu aprender com ela
A ciência do amor e do mal.


MENDES, Murilo. “A Reveladora”. In: O visionário. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 201-202.

 


Marca d'água

Jandira

 


O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados,
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira…

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
De cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçaram nas conversações
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal da cruz por causa de Jandira.

E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
Apareceram ritmos que estavam de reserva,
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vem.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.


MENDES, Murilo. “Jandira”. In: O Visionário. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 202-204.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)