Raimundo Correa (1859-1911)
Beijo Póstumo
Do meu primeiro amor és o templo em ruína.
No estômago da morte atro e voraginoso
Essa carne ideal, deliciosa e fina
Cahio como um manjar fino e delicioso!
Teu corpo decompõe-se; e, assoprarem flores,
Com funéreo pudor, os seus membros inermes
Hoje são a vivenda e o pabulo dos vimes
Asquerosos, crueis, frios e roedores…
E o beijo que eu pedi-te e que nunca me deste,
Que em vida quis colher-te e nunca foi colhido,
Cai de teu lábio como um fruto apodrecido…
O beijo virginal! Fruto que apodreceste!
CORREIA, Raimundo. “Beijo Póstumo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 83
Beijos do Céu
CONHECI-TE assim, ó minha amante, um dia:
—Vi-te no céu; e, enamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te...Eu bem via,
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme — fera que eu não domo —
Despertou-me do sonho, repentino
Vi-te a dormir tão plácida ao meu lado...
E beijei-te também, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino.
Tantas vezes assim no céu beijado!
CORREIA, Raimundo. “Beijos do Céu”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 44.
Coerulei Oculi
CERTA mulher misteriosa,
Que me alucina, costuma
Alanter-se em pé, silenciosa,
Junto ao mar, que ferve e espuma…
No olhar onde o céu se pinta,
Que palheta singular,
Ao amargo azul, a tinta
Glauca mistura do mar?!
Na langorosa pupila
Boia uma tristeza vaga,
E a lágrima que vacila
E rola, o seu lume apaga.
Lembram-me os cílios suaves,
A palpitar, branca e exul
Tribo de aquáticas aves
Sobre o indefinido azul...
Qual d'água no transparente
Prisma, do olhar se devassa
No fundo, nitidamente,
Do rei de Thule a áurea taça;
E, entre a alga e o sargaço., a gemma
Mais rara deslumbra, e estão
De Cleópatra o diadema
E o anel do rei Salomão;
E a irradiação irisada
Das pedrarias se accende;
E a coroa da bailada
De Schiller fulge e resplende.
Mago prestigio me enleia
E ao fundo abismo de luz
Me arrasta, como a sereia,
Que a Harald Harfagar seduz;
Me arrasta à ignota voragem,
Até que eu nela me arroje
Traz da impalpável imagem,
Que, aerea e fatua, me foge...
N'água esconde a ninfa bela
A cauda argentea; e o brancor
Da espáuda lisa revela.
Gorando, da espuma à flôr...
Incha e, como um seio, arqueja
A vaga; em mórbido acento,
Na cava concha solfeja.
Soluça, resona o vento...
Vem, reclinar-te em meu leito
De âmbar, e o saibo de fel
Das ondas verás, desfeito,
Manar-te da boca, era mel;
O pélago estoira e zune
Por cima; e a paz aqui mora,
Sem que o rumor a importune
Das tempestades de fora...
Vem Sem tédio, nem bocejos,
O esquecimento imortal
Bebamos juntos, dos beijos
Pelo copo de coral!
Assim é que a voz me falia,
Desse olhar, que me extasia;
E ao fundo d'água, a escutá-la,
Desço... E o himeneu principia...
CORREIA, Raimundo. “Coerulei Oculi”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 99.
Conchita
A DEUS aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto hespanhol, pulchro e moreno;
Ao pé, que no bolero... ao pé pequeno,
Pé que, alígero e célere, saltita...
Lyra do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último threno.
Soluça às graças da gentil Conchita:
A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionaes de ardência cheios;
A esses lábios, enfim, de nácar vivo.
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.
CORREIA, Raimundo. “Conchita”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 62.
Desdéns
REALÇAM no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral — felinas
Garras, com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz. O sândalo se evola,
O ar cheiroso em redor se desenrola;
Batem-te os seios, arfam-te as narinas...
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
N' uma indolência mórbida, espanhola.
Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa, que me arranca
A vida aos poucos, n'esta morte lenta!
Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!
Maio, 83.
CORREIA, Raimundo. “Desdéns”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 13.
Julieta
A loura Julieta enamorada,
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.
Engolfa o olhar na sombra condensada.
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida…
Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... O ’ indiscreta
Da cotovia matinal garganta!
O perigo do amor, que o amor quebranta!
O ’ noites de Verona! O ’ Julieta!
CORREIA, Raimundo. “Julieta”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 109.
Na primavera
DESPERTOU ; e ei-la já, fresca e rosada,
No campo em flor, que se atavia e touca
Da primavera ao bafo, e onde é já pouca
A neve, ao sol fundida e descoalhada;
E em sua trêmula, infantil risada,
A boca abrindo, patenteia, a louca,
Bico -escrínio de pérolas da boca
Na pequenina concha nacarada;
Quebra as papoulas e despenca as rosas;
Passa entre os jasmineiros, que se agitam,
Às vezes célere e pausada às vezes;
E, sob as finas roupas ondulosas,
Seus leves pés, precipites, saltitam,
Pequenos, microscópicos, chineses...
Julho, 84.
CORREIA, Raimundo. “Na primavera”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 33.
Noites de Inverno
ENQUANTO a chuva cai, grossa e torrencial,
Lá fora; e enquanto, oh bella!
A lufada glacial
Tamborila a bater nos vidros da janela;
Dentro, esse áureo torçal
Do cabelo, que, rico, em ondas se encapela,
Deslaça; e o alvor ideal
Do teu corpo à avidez do meu olhar revela;
Porque, a avidez do olhar
Do amante, é grato,ao menos.
Destas noites no longo e monótono curso,
— Claro como o luar —
Ver um busto de Vênus
Surgir nú d'entre as lans e d'entre as peles de urso.
Junho, 84.
CORREIA, Raimundo. “Noites de Inverno”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 27.
Nuvem Branca
DIZEI-ME: ela a noiva casta e pura,
Que no alvor d'essa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, neste instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Dizei-me, branca, virginal capella;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesmo, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora.
Seu semblante gentil occulto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su'alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas cherubicas azas transparentes,
Vôa, festiva, a um Thalamo de flores...
Mysterios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velaes debalde o archanjo, o astro radioso,
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
CORREIA, Raimundo. “Nuvem Branca”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 54.
Plena Nudez
EU amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.
Quero em pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nús; as linhas onduladas
I.ivres; da carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas…
Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
Da transparente túnica através:
Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nús, o dorso nú, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!
CORREIA, Raimundo. “Plena Nudez”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 58.
Primeiras Vigílias
Dos revoltos lençois sobre o deserto
Despejava-se, em ondas silenciosas,
O luar dessas noites vaporosas,
De seu lânguido calix todo aberto.
Rangia a cama, e desusavam perto
Alvas, femineas formas ondulosas;
E eu a ideal, nas ancias amorosas,
Seus ombros nús, seu colo descoberto.
E a gemer :—Abeirai-vos de meu leito,
O' sensuais visões da adolescência,
E abrasai-vos na pira em que me inflamo!
Fervem paixões despertas no meu peito;
Descai a flor virginia da innocencia,
E irrompe o fruto dolorido... Eu amo!
CORREIA, Raimundo. “Primeiras Vigílias”. In: Aleluias. Rio de Janeiro; Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 165.
Psyche
CÉU lábio, a tua sede e intenso ardor,
Como a frescura de uma fonte, acalma;
Venceste-a, amante; e a porfiosa palma
Colheste, em beijos, no seu lábio em flor.
Deu-te noites ideais, sob o esplendor
De um céu de núpcias — tenda azul, tão calma,
Tão límpida, tão pura!... E deu-te (O alma,
Que mais desejas?!) todo o seu amor!
Ele, o amor, na progênie perpétua
Essa, em que te incendeias, sacra flamma,
— Bafo imortal dos deuses imortais.
E essa imortalidade é tua, é tua!...
E essa imortalidade, ele a proclama
Em ti! O alma, que desejas mais?!
CORREIA, Raimundo. “Psyche”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 204.
Tentações do Ermo
O asceta que trocara os bens mundanos
Pelo místico pão amargurado,
Deixa agora o retiro, onde, isolado,
Ia, na paz de Deus, contando os anos?!
É que ele, quando aos laços e aos enganos
Do mundo se esquivou, tinha um pecado:
Em Virgílio e em Catulo era versado,
Em Ovídio e outros clássicos profanos...
E um dia, indo apanhar ervas ao monte,
E o púcaro de barro encher na fonte,
Viu... (Ou seria uma ilusão talvez)
Viu surgir entre as moitas a Serpente:
Uma ninfa... e vestida unicamente
Da tentadora, feminil nudez.
CORREIA, Raimundo. “Tentações do Ermo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 141.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)