Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

A moqueca


Minha moqueca está feita,
Meu bem;
Vamos nós todos jantar:
Bravos os dêngos
Da minha yayá;
Moqueca de côco,
Molho de fubá;
Tudo bem feitinho
Por mão de yayá;
Tudo mexidinho
Por mão de sinhá!…
Qual será o ladrão
Que não gostará? ...
Qual será o demonio
Que não comerá ?

Ella tem todos temperos,
Meu bem;
Só falta azeite dendê;
Bravos os dêngos

Da minha yayá;
Moqueca de côco,
Molho de fubá, etc.
Ella tem todos temperos,
Meu bem;
O que lhe falta é limão:
Bravos os dêngos
Da minha yayá;
Moqueca de côco,
Molho de fubá,
Tudo bem feitinbo
Por mão de yayá, etc.


ROMERO, Sylvio (org.) “A moqueca”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 66-67.

 


Marca d'água

A ribeira velha


Ribeira Velha,
Porto de mar,
Aonde as barquinhas
Vão calafetar…
Peguem na ferragem,
Lancem lá no mar

P'ra fazer uma nau.
Uma nau bem galante,
Para navegar
Pelas partes ela India …
Aquelle menino
É da banda miuda.
Cambrainhas finas
Não são p'ra vossê;
P'ra gente, sinhá,
Que me faz a mercê,
Que deita na cama,
Não tem que dizer.
Felix do Retiro
Mandou-me chamar,
Eu mandei dizer
Que não ia lá…
Arengas com frade
Não quero tomar.
Conversas de dia
Acabam de noite
Em prantos ele choros
De Manoel João,
Que anda na rua
Com seu pé no chão,
Balindo com mulatinhas,
Balindo com crioulinbas.
Lá no Mundo Novo
Tem uma casinha·
Dentro d'ella mora
Certa mulatinha.


ROMERO, Sylvio (org.) “A ribeira velha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 50-61.

 


Marca d'água

Ah! redondo, Sinhá


Ah! redondo, sinhá,
Senhora de meu favor,
Estou cantando o meu redondo,
Que me importa, meu amor?
Redondo, sinhá.
Q cabello d'esta velha,
É caso de admirar ;
Um fio de seu cabello
Dá prima para tocar ...
Redondo, sinhá.
Esta velha já mijou
Lá detraz de uma gambôa;
Alagou uma canôa,
Isto é cousa boa ...
Redondo, sinhá.


ROMERO, Sylvio (org.) “Ah, Redondo, Sinhá”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 50.

 


Marca d'água

Cantiga de negros carregando um piano


Bota a mão
No argolão;
Sinházinba
Vae tocar;
Afinador
Vem afinar;
Sinhazinha
Vae pagar…


ROMERO, Sylvio (org.). “Cantiga de negros carregando um piano”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 265.

 


Marca d'água

Eu tenho meu arco e flecha


Eu tenho meu arco e flecha
P'ra matar meu passarinho.

O sol na nuvem escureceu;
No mesmo instante clareou:
O fogo n'agua se apaga
E elle n'agua se aquentou.
Fóra, fóra, sinhá toucinheira;
Caboclo da serra, não tenho dinheiro.
Não quero historias de zambuará
Quero, quero meu dinheiro
Para ir-me embora
Para Sabará.


ROMERO, Sylvio (org.). “Eu tenho meu arco e flecha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 253.

 


Marca d'água

Fragmentos de cantos populares


Em cima d'aquelle morro,
Siá dona,
Tem um pé ele jatobá ;
Não ha nada mais pió,
Ai, siá dona,
Do que um home se casá.

Eu pasei o Parnahyba
Navegando n'oma barca,
Os peccados vem da saia,
Mas não póde vir da carça.

Dizem que a muyé é farça,
Tão farça como papé ;
Mas quem vendeu Jesus Christo
Foi home, não foi muyé.


ROMERO, Sylvio (org.). “Fragmentos dos cantos populares ”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 285.

 


Marca d'água

O Antonio Geraldo


Seu Antônio Geraldo,
Assim mêm'é
O seu boi morreu,
Assim mêm'ê;
Qu'ba de se fazer?
Assim mêm'é ;
É tirar o couro
Assim mêm'é;
P'ra siá Michaela,
Assim mêm'é…

Brisda Amarella
Assim mêm'é.
Vou fazer um peso
Para amigos meus,
Para Wenceslau
E José Matheus.
Nosso corredor
É do professor,
Saiba repartir
Com seu promotor.
Eu peguei nos rins,
Me esqueci da banha!
São p'ra Manoel Ivo
E Chico Piranha.
A chan de dentro
É de seu João Bento,
A chan de fóra
De Domingos da Hora.
Mocotó da mão
Ê de Manoel Romão;
Mocotó do pé
É do padre José;
A passarinha
É de sid Nauzinha,
Saiba repartir
Com Tia Anna Pibinha.
O figo do Boi
Foi p 'ra sarandage
O resto que ficou
Foi p'ra priquitage.
Siá Nenên abra a porta
Com sentido nos pratos,
Que a gente é muita
P'ra comprar o fato.
A tripa gaiteira
É de Maria Vieira,
A tripa mais grossa
De Chico da Rocha.
O menino Esculápio
É menino sabído ;
P'ra elle e Caetano
Só ficou o ouvido.


ROMERO, Sylvio (org.). “O Antonio Geraldo”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 171-172.

 


Marca d'água

Redondo, Sinhá


Oh! sinhá, minha sinhá,
Oh! sinhá de meu abrigo,
Estou cantando o meu redondo,
Ninguem se importe commigo.
Redondo, sinhá.
Certa velha intentou
Urinar n'uma ladeira,
Encheu rios e riachos,
E a lagôa da Ribeira.
Redondo, sinhá.
E sete engenhos moeram,
Sete frades se afogou,
E a maldita d'esta velha
Inda diz que não mijou ...
Redondo, sinhá.
Este velha intentou
Vestir panno de fustão,
Precisou quinhentos cavados
P'ra fazer um cabecão .
Redondo, sinhá
Depois do panno cortado
Não sahiu de seu agrado ;
Precisou d'outros quinhentos
Para fazer os quadrados
Redondo, sinhá.
Esta velha intentou
Tirar um dente queixal,
Procurou quinhentos bois
E com cordas de laçar.
Redondo, sinhá.
Não sou pinto ele vintem,
Não sou frango ele tostão;
A maldita d'esta velha
Quer fazer de mim capão.
Redondo, sinhá.
Eu caso comtigo, velha,
Ha de ser com condição
D'eu dormir na boa cama,
E tu, velha, no fogão
Redondo, sinhá.
Eu casei comtigo, velha,
P'ra livrar da filharada
Quando entrou em nove mezes
Pariu cem de uma ninhada!
Redondo, sinhá
Trinta e um meio ele sola
Na praça se rematou,
P'ra fazer seu sapatinho…
Assim mesmo não chegou.
Redondo, sinhá.
A velha quando morreu,
Eu mandei-a enterrar;
Como não coube na terra
Mandei-a lançar no mar.
Redondo, sinhá.


ROMERO, Sylvio (org.) “Redondo, sinhá”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 48-49.

 


Marca d'água

Siá nanninha


Siá Nanninha,
Na ponta da linha;
Seu Manoel
Corta páo;
Birimbáo:
Azeite dôce
Com bacalbáo
É cousa boa,
Pois não é máo.


ROMERO, Sylvio (org.). “Siá nanninha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 271.

 


Marca d'água

Tanta laranja madura


Tanta laranja madura,
Tanto limão pelo chão,
Tanto sangue derramado
Dentro do meu coração!

A pombinha quando voa,
Bate co'as azas no chão;
Sinhá Anninha quando dorme
Deita a mão no coração.

A rolinha quando vôa
Deixa as pennas no ninho;
Sinhá Anninha quando dorme
Deita a mão no passarinho.

Os olhos de Sinhá Anninha
São confeitos, não se vendem ;
São balas com que me atiram,
Correntes com que me prendem.

Maria, na porta batem,
Maria, vai vêr quem é;
É um homem pequenino
Que tem medo ele muyé.

Toda gente se admira
Do macaco andar em pé;
O macaco é como gente,
Póde andar como quizer.

Quando matares o gado,
A rabada ha-de ser minha,
Para fazer um guizado
E comer com Sinhá Anninha.

O limão é boa fructa.
Tambem tem seu azedume;
Tambem a boca me amarga
Na materia do ciume.

Abaixa-te, limoeiro,
Deixa tirar um limão
Para limpar uma nodoa
Que trago no coração.


ROMERO, Sylvio (org.). “Tanta laranja madura”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 244.

 


Marca d'água

Xacara do cego


— Sinhá da casa,
Venha vêr seu pobre;
Nem por vir pedir
Deixo ele ser nobre.
« Não póde ser nobre
Não ha que lhe dar,
Já póde seguir.
-Não usaes commigo
Tanta ingratidão
D'este pobre cego
Tende compaixão.
« Eu não sou dona,
Nem governo nada;
A dona da casa
Ainda está deitada.
— Se está deitada
Jae-a chamar;
Que o pobre do cego

Lhe quer fallar.
« Acordai, senhora,
Do doce dormir;
Vinde vêr o cego
Cantar e pedir.
— « Si elle canta e pede
Dai-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego
Seguir seu caminho.
Larga, Anninha, a roca
E tambem o linho;
Vai ensinar o cego
Seguir seu caminho.

« Aqui fica a roca,
Acabou o linho;
Marchai adiante, cego,
Lá vai o caminho.
-Anda, anda, Anninha,
Mais um bocadinho;
Sou curto da vista,
Não enxergo o caminho.
« De conde e fidalgo
Me vi pretendida,
Hoje de um cego
Me vejo rendida.
— Cala-te, condessa,
Prenda tão querida,
Eu sou este conde
Que te pretendia.
« Cala-te, conde,
Não digas mais nada;
Só quero saiamos
D'aqui d'esta estrada.
Infinitas graças
Vos dou, meu senhor,
Já ter vencido
Um cruel amor.


ROMERO, Sylvio (org.) “O bernal francez”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 5-7.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)