Versos de um cônsul
Coitado do meu filho!
Vai pra escola.
Muda de escola.
Sucedem-se mudanças para novos postos.
Novos carimbos nos papéis de matrícula.
No quadro-negro
o professor mexe com algarismos:
— Zwei mal zwei?
— Vier
— Zwei mal vier?
Ach..............................
A resposta se engasga. A voz se some
acabrunhada pela matemática.
E lá se vai ele por essas manhãs friorentas
com uma mochila de livros às costas
(como quem vai pr’uma guerra).
Terras novas. Muito sol. Bandeira ao vento.
No pátio del Colégio a professora rege o coro:
— ... si mañana en tu solo sagrado…
A almazinha do meu filho
vai se compondo e decompondo
com pedaços de pátrias misturadas.
De noite
a gente recolhe os pensamentos,
com um cansaço internacional.
— Pai!
— O que é que tu queres meu filho?
Ele achega-se a mim com um abraço carinhoso:
— Pai!
Conta mais uma vez
como é que era mesmo o Brasil.
BOPP, Raul. “Versos de um cônsul”. In: Diábolus. In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 286.