Cantos Populares do Brasil (1889)
Chula matuta, a duas vozes
Cravo branco se conhece (bis)
Pelo bom cheiro que tem ; (bis)
- Quem me dera saber lêr …
Eu conheço a rapariga
Ja de longe quando vem .
- Quem me dera saber lêr ...
Quem nunca provou não sabe
Dos quindins das mulatinhas;
- Quem me dera saber lêr…
São papudas, são gostosas,
São melhores que as branquinhas.
- Quem me dera saber lêr …
ROMERO, Sylvio (org.). “Chula, a duas vozes”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 258.
Décima grande da obra do firmamento
Quando o Senhor formou
A obra do firmamento,
Obra de tanto talento
E juizo;
Formou tambem um paraiso,
De arvores e flores composto,
Tudo de summo gosto
E perfeição.
E para guarda fez Adão,
E de sua cósta a mulher;
E Deus depois lh' arefere
Assim:
-Fica-te n'este jardim,
De delicias guarnecido,
E olha bem que és o marido
De Eva. -
Adão todo se enleva
Por se vêr acompanhado ;
Logo foi aconselhado ·
Pelo Senhor:
-Tudo fl ca a teu dispôr,
Tudo te ha-ele ter respeito,
Porém, guarda o preceito,
E escuta:
Comerás ele toda a fruta,
Sem que haja prejuizo;
Mas agora é bem preciso
Que te explique,
Para qJ!I e em tua memoria fique,
E gozes com previnencía :
Só da arvore da sciencia
Do bem e mal;
Olha que é culpa mortal
Se te tal acontecer …
Olha que has-de morrer
Na verdade. -
A serpente com maldade
Eva foi logo atentar,
E ella facil foi pegar
No pomo;
E do qual partiu um gomo
E ao seu marido offereceu;
E Adão da fructa comeu
Tambem.
Ambos jgual culpa teem,
Eva e seu consorte;
Ficaram sujeitos á morte
Chorando.
Apparece o Senhor bradando:
-Adão! onde estás metido? -
«Senhor, estou escondido
Com vergonha.
-Oh! que terrível, medonha,
Foi tua culpa commettida!
Acabou-se a boa vida
Que ti vestes.
«Senhor, a mulher que me déstes
Cá me veiu enganar ...
-Vem cá, oh Eva, explicar
De repente.
- «Senhor, a maldita serpente
De certo me enganou!»-
E o Senhor por ella bradou
Devéras:
- Oh maldita entre as feras!
Eu te deito a maldição ...
Andarás tu pelo chão
De rastos,
Comendo hervas e pastos,
E a terra para alimento ;
Ella será teu sustento,
Malvada!
Tu, Adão, com tua enxada
A terra cultivarás;
E tu, Eva, parirás
Com dôr.
Nada fica ao teu favor,
.lá que a vontade fizeste;
Assim perdeste o celeste
Agasalho.
Tu, Adão, com teu trabalho
Ganharás para comer,
E Eva te ha-cle obedecer,
A rasão direita.
Aqui ficarás sujeita;
Tu, Adão, a dorminarás,
E te multiplicarás
Com ella. -
Perderam, pois, a cape lia
Qu e o Senhor lhe houve guardado,
Tudo causa elo peccado ·
Horrendo.
Alli ficaram vivendo
E o seu peccado chorando,
Ambos supplicando
Perdão.
Aqui abateram então.
Logo Eva concebeu,
Foi quando o Senhor lhe deu
Caim. Este foi um filho ruim,
Muito tyranno e cruel;
Ao depois lhe deu Abel,
Pastor.
Este foi um resplendor
De voto e de castidade;
Porém Caim com falsidade
O matou.
E o Senhor p'ra elle olhou,
Depois que elle fez o mal,
Pondo-lhe logo um signal
De preto.
Portanto, ficou sujeito
A eterna escuridão,
Negro como um tição
De lume.
Acabou-se-lhe o ciume
Que tinha com seu irmão;
E augmentou-se a geração
Dos peccadores.
E já isto, meus senhores,
Tem durado de tal sorte
Que só finda quando a Morte
Vem.
Ella não respeita a ninguem,
Leva a todos por parelha,
Nós temos bem o espelho
A vista.
Não ha pessoa que resista
Nem o mesmo padre santo,
Que ella leva a quanto
Tópa.
Todos que estão na Europa,
As mesmas pessoas reaes,
Os bispos e cardeaes
Vai levando.
E tambem de quando em quando
Reis, principes e monarchas;
Até mesmo os patriarchas
Levou.
Pois um Deus que nos creou
Quiz pela morte passar,
Corno havemos de escapar
Á espada?
Ella é certa e pouco esp'rada,
Da morte tudo se esquece;
Mas por fim tudo padece
Este lance.
Todos passamos o transe
Da morte com afflicções,
Que os mais santos corações
Padeceram.
Aquelles perfeitos morreram :
Em vizo de santidade,
Um Larné, um na verdade
Que é:
O pai do grande Noé,
Um Abrahão glorioso,
Seu filho prodigioso
Isaac;
Os habitantes de Israc,
Paes e irmãos de Luc1im,
Aquelle Labal Caim
Trabalhador ;
Um Nabucodonosor,
Mais aquelle santo Job,
Um admiravel Jacob
De Israel; ·
Adão, seu filho Ijabel,
O grande Melchisecleque,
E aquelle bom Ab-Meleque
E eu isto tudo direi,
Certifico e assim é :
Lá tambem morreu José
No Egypto.
Tudo isto está escripto;
E nada pode faltar :
Tambem morreu Putifar
Sacerdote.
Morreu aquelle justo Loth,
E tudo que era egyptano,
Morreu o rei soberano
Pharaó.
E não foram esses só :
Tambem morreu Batuel,
Agar, mais Ismael
Seu filho .
De nada eu me maravilho:
também morreu lzacar,
E o seu filho Soar
Tambem;
Filhos, irmãos de Rubem,
Os moradores ele Babel,
E os fundadores ele Batel
Passaram .
Nenhuns do transe escaparam
Da vil morte com destreza . . .
Ella vem com subtileza
E mata.
Segundo a Escriptura relata,
De certo que a ninguém perdôa :
Leva o sceptro e leva a corôa,
E tudo mais.
Não respeita cabedaes,
Tudo leva por igual ,
Tambem leva o general
E o brigadeiro.
E morre quem tem dinheiro,
P'r'a morte não ba penhor;
também morre o governador
Na praça .
Morre tudo quanto passa
Esta vida com rigores;
Morrem padres, confessores,
Que esLão
Lá em sua religião
Orando a Sam Miguel;
Tambem morre o coronel
Do regimento ;
Morrem alferes, sargento,
O soldado e o capiLão ;
Morrem aquelles que estão
Na enxovia
Morre toda a fidalguia;
Morre o pobre e o abonado,
E o ser muito endinheirado .
Não faz;
Morre o velho e o rapaz ;
Morre tudo sem remissão ;
Tambem morre o guardião
No convento.
Morrem no acampamento
Tambores e mais soldados;
Morre nos mares salgados
Marinheiro;
Tambem morre o escudeiro,
O medico e o surgião;
Tambem morre o escrivão
E o juiz.
Segundo a Escriptura diz,
Só dois foram escapados,
Elias e Enoc chamados
De certo.
Tem morrido no deserto
Aquelles santos levitas,
E o povo dos israelistas
Fallece.
A morte ninguem conhece:
Morreu o sabio Salomão
E o valoroso Samsão
Gigante;
Morre o leigo e o estudante,
Tambem morre o embaixador;
Morre aquelle lavrador
Que anda
De uma para outra banda
A lua vida girando,
De modo que vá ganhando
P'ra passar,
Sem a morte lhe lembrar,
E ella já batendo á porta,
Que de repente lhe bota
A mão.
Muitos leva sem confissão,
Pois isto me faz tremer,
Vendo podermos morrer
Sem sacramento,
Nem signaes de arrependimento,
Sendo a morte de repente ...
Pois valei-me o omnipotente
Deus.
Tudo são peccados meus
De que eu tenho de dar conta
A Deus, e sempre com prompta
Vontade.
Pois Deus é de piedade;
Aquelle doce Jesus,
Está c'os braços na cruz
Pregados!
Tudo por nossos peccados
Padeceu morte e paixão!
E nós com ingratidão
O tratamos!
Assim é que lhe pagamos
Todo o bem que elle nos faz ;
Mas, lá no Val de Josaphaz
Veremos
As contas que cada um demos,
Lá no dia universal,
Quando o Senhor der a final
Sentença.
Os bons com gloria immensa,
E os máos sentenciados,
Para serem abrazados
No inferno!
Eu peço ao Padre Eterno…
Valha-me todo o christão
N'esse dia de afllicção
E amarguras.
Abriram-se as sepulturas
C'os corpos resuscitados,
Sendo de novo formados
Como d'antes!
E as boas obras brilhantes
Na presença do Salvador;
E os máos serão com rigor
Tratados.
Ali darão, Senhor, brados,
Bradando só por Elias,
Segundo as prophecias
Rezam.
Ali veremos como prezam
Boas obras que fizemos,
E os peccados que commettemos
N'esta vida.
Mas oh! que terrível lida!
Oh! que cegueira fatal !
Sendo este mundo um val
De enganos? !
Vive um homem tantos annos
N'esta vida engolfado,
Muitas vezes só obrigado
Se confessa.
Não se lhe dá que se esqueça
D'aquella santa doutrina,
Que a egreja sempre ensina
Aos fieis.
São os homens tão crueis .. .
Só se enlevam em modiças .. .
Só ouvem algumas missas
Por comprazer.
Ás vezes vão lá p'ra 'êr
Moças da sua affeição,
Se levam trajo ou não
A seu gosto.
Se levam lenço bem posto,
Boa meia e bom sapato,
Se tem capote e mais fato
Á moda.
E outros mettem-se na roda,
Que estão de quando em quando,
E vão sempre murmurando
Dos mais.
Vão os filhos com os paes
Beber vinho a uma adega,
Se o dinheiro lhes não chega
Pedem fiados.
'Stando os paes embebedados
Dizem, a cambalear,
Aos filhos:- Vamos jogar
Ao Vento .
Oh! que máo educamento !
Oh! que triste creação!
Eis porque os filhos são
Malcreados.
Mas se estes são casados,
Teem filhos p'ra governar,
Teem-lhes por certo a faltar
Co'o sustento.
Tudo serve de tormento
Ás mulheres, se são honradas,
Muitas vezes já cançadas
De bradar.
Apparece para o jantar,
Sabe Deus quando Deus quer,
Uma côdea p'r'a mulher,
Se lh'a dão.
Os maridos, sem discrição,
As levam aos encontrões,
Quando não lhes dão bofetões
Pela cara.
Amigo do jogo, repara,
Mette a mão n'este painel,
E recolhe-te ao quartel
Da saude.
E pede a Deus que te mude
Essa terrível cegueira,
Que é saude p'r'a algibeira
Do cobre.
Tudo que a mão descobre,
E esse vicio infernal,
Fazem perder o signal
Do céo.
Isto vae ele déu em déu,
E assim domingos passemos,
De modo que sempre busquemos
Divertimentos.
Vai-se tempo e sentimentos
Nos dias santificados,
Que Deus deixou destiuados
P'r'o descanço.
P'ra adorar o cordeiro manso
Na sua santa egreja;
Mas a ira de Deus peleja
Com razão
Contra a pouca devoção
Que tem á casa sagrada;
Tanto monta como nada
Rezar.
Não póde a Deus agradar
Esta pouca desciencia:
Devemos com reverencia
Adorai-o.
Devemos todos abraçai-o
E a seus santos mandamentos,
P'ra livrar-nos dos tormentos
Que passou.
P'lo sangue que derramou
Pela rua da amargura,
Tudo para a creatura
Remir.
Devemos todos pedir
Á virgem Nossa Senhora
Seja a nossa protectora
Em morrendo;
Em quanto formos vivendo
N'este mundo desgraçado,
Tenha sempre o seu cuidado
Em nós.
Pois ouvi, Senhor, a voz
D'este vosso filho ingrato,
Cuja ingratidão relato
Agora!
Valei-me n'aquella hora
Da morte que ha-de chegar,
Valei-me em quanto viver,
Valei-me depois de morrer,
E esta vida findar.
ROMERO, Sylvio (org.) “Decima grande da obra do firmamento”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 143-155.
Mulher, cabeça de vento
Mulher, cabeça de vento,
Juizo mal governado,
Dizei-me o que significa
Amor de homem casado ?
Quem ama a homem casado
Tem paciencia de Job;
Faz cama, desmancha cama,
Sempre vem a dormir só.
ROMERO, Sylvio (org.). “Mulher, cabeça de vento”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 243.
O boi-espacio
Eu tinha meu Boi-Espacio,
Qu'era meu boi cortelleiro,
Que comia em tres sertão,
Bebia na cajazeira,
Malhava lá no oiteiro,
Descançava em Riachão
Eu tinha meu Boi Espacio,
Meu boi preto carauna;
Por ter a ponta mui fina,
Sempre fui, botei-lhe a unha.
Estava na minha casa,
Na minha porta assentado;
Chegou seu Antonio Ferreira,
Montado no seu rução,
Com o irmão de Damião,
Montado no seu lazão,
Dizendo de coração:
-Botai-me este boi no chão.
Gritei pelo meu cachorro,
Meu cachorro Tubarão :
«Agora, meu boi, agora,
Faz acto de contrição !
Êcô, meu cachorro, êcô
No curral da Piedade
Eu dei r.om meu boi no chão.
Ao depois do boi no chão,
Chegou o moleque João,
Se arrastando pelo chão,
Fazendo as vezes de cão,
Pedindo o sebo do boi
P'ra temperar seu feijão.
A morte d'este meu boi
A todos fizera pena;
Ao depois d'este boi morto,
Cabou-se meu boi, morena.
<.<No anno em que eu nasci,
No outro que me criei,
No outro que fui bezerro,
No outro que fui mamote,
No outro que fui garrote,
No outro que me caparam
Andei bem perto da morte.
«Minha mãi era uma vacca,
Vaquinha de opinião;
Ella tinha o ubre grande
Que arrastava pelo chão.
Minha mãi era uma vacca,
Vaquinha de opinião;
Emquanto fui bari.Jatão
Nunca entrei em curralão.
Estava no meu descanço
Debaixo da cajazeira,
Botei os olhos na estrada,
Lá vinha seu Antonio Ferreira…
Estando n'uma malhada
Já na sombra recolhido,
Logo que vi o Ferreira
Alli achei-me perdido.
Foi-me tudo ao contrario,
E sempre fui perseguido;
Já me conhecem o rasto,
O Boi-Espacio está perdido.
Não tem a culpa o Ferreira,
Que não me pôde avistar,
Foi o caboclo damnado
Que parte de mim foi dar.
O seu Antonio Ferreira
Tem tres cavallos damnados:
O primeiro é o ruço,
O segundo é o lazão,
O terceiro é o Piaba ...
Tres cavallo endiabrados!
Mas eu não temo cavallo,
Que se chama o Deixa-fama;
Tambem não temo o vaqueiro
Que derrubei lá na lama.
Me metteram no curral,
Me trancaram de alçapão ;
E bati n'um canto e n'outro,
Não pude sahir mais não!
Adeus, fonte onde eu bebia,
Adeus, pasto onde comia,
Malhador onde eu malhava;
Adeus, ribeira corrente,
Ad eus, caraíba verde,
Descanço de tanta gente!...
O couro do Boi-Espacio
Deu cem pares ,de surrão,
Para carregar farinha
Da praia de Maranhão.
O fato do Boi-Espacio
Cem pessoas a tratar,
Outras cem para virar ...
O resto p'ra urubusada.
O cebo do Boi-Espacio
D'elle fizeram sabão
Para se lavar a roupa
Da gente lá do sertão.
A língua do Boi-Espacio,
D'ella fizeram fritada;
Comeu a cidade inteira,
Não foi mentira, nem nada.
Os miolos do Boi-Espacio,
D'elles fez-se panellada;
Comeu a cidade inteira,
O resto p'ra cachorrada.
Os cascos do Boi-Espacio,
D'elles fizeram canôa,
Para se passar Marôtos
Do Brazil para Lisboa.
Os chifres do Boi-Espacio,
D'elles fize'ram colhér
Para temperar banquetes
Das moças de Patamuté.
Os olhos do Boi-Espacio
D'elles fizeram botão
Para pregar nas casacas
Dos moços lá do sertão.
Costellas do Boi-Espacio,
D'ellas se fez cavador
Para se cavar cacimbas;
De duras não se quebrou
O sangue do Boi-Espacio
Era de tanta excepção
Que afogou a tres vaqueiros,
Todos tres de opinião.
Canellas do Boi-Espacio,
D'ellas se fizera mão
Para se pizar o milho
Da gente lá do sertão.
E da pá do Boi- Espacio,
D'ella se fez tamborete
Para mandar de presente
A nosso amigo Cadete.
Do rabo do Boi-Espacio,
D'elle fizeram bastão
Para as velhas lá de cima
Andar com elle na mão.
ROMERO, Sylvio (org.). “O boi espacio ”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 79-81.
Os cócós de cordão
«A minha mana Luiza
É moça de opinião;
Passou a mão na tesoura,
Deu com o cócó no chão.
Sete canadas de azeite,
Banha de camaleão
É pouco p'ra fazer banha
P'ra estes cócós ele cordão.
O sebo está muito caro,
'Stá valendo um dinheirão;
Quero vêr com que se acocham
Estes cócós de cordão.
Os caixeiros da Estância
Levam grande repellão,
Para não venderem sebo
P'r'a estes cócós de cordão.
Deus permitta que não chova,
P'ra não haver algodão;
Quero vêr com que se amarram
Estes cócós de cordão.
Na fonte da gamelleira
Não se lava com sabão;
Se lavam com folhas verdes
Estes cócós ele cordão.
As negras de taboleíro
Não comem mais carne, não;
Só comem sebo de tripa
D'estes cócós de cordão.
O moço que é brazileiro
Que conserva opinião,
Não deita na sua rêde
D'estes cócós de cordão.
Ajuntem-se as moças todas
Em redor d'este piião,
Qu'é p'ra pizarem o sebo
P'ra estes cócós de cordão.
Ajuntem -se as velhas todas
Em roda do violão,
Qu'é p'ra dançarem o samba
D'estes cócós de cordão.
ROMERO, Sylvio (org.). “Os cócós de cordão”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 64-66.
Os versos de chiba
Minha gente, folguem, folguem,
Que uma noite não é nada;
Si não dormires agora
Dormirás de madrugada.
O senhor dono da casa
Mande vir a aguardente,
Que sinão eu vou-me embora,
Levo toda a mioba gente.
Minha gente não inore
Este meu cantar baixão,
Que estou co'o peito serrado
Do malvado catarrhão.
Senhóra, minha senhóra
Da minha veneração,
Cachaça custa dinheiro,
Agua tem no ribeirão.
Tenho minha viola nova
Feita de pau de colher
Para mim dançar com ella,
Já que não tenho mulher.
Esta viola não é minha,
Si eu a quizer minha será ;
Si eu fizer intento n'ella,
Meu dinheiro a pagará !
Tenho minha viola nova
Com seu buraco no meio ;
P'r' amô' d'este buraco
Mataram meu companheiro.
Na Villa de Pracatú
A mulher matou o marido,
Cuidando que era tatú.
Na Villa de Sabará
A mulher matou o marido
Pensando que era gambá.
Chicolate, café, birimbau,
Uma correia na ponta de um páo
Nas suas cadeiras não era máo!
ROMERO, Sylvio (org.). “Versos de chiba”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 172-173.
Variante do Rio Grande
-Meu bemzinho, diga, diga,
Por tua boca confessa
Si algum dia tu tiveste
Amor que mais eu quizesse .
Mas confesso que não tive
Quem mais trabalho me desse.
«Si mais trabalho lhe dei,
Por tua mão procuraste,
Que de casa de meus paes
Bem raivosa me tiraste.
Si raivosa te tirei,
Por me vêr perseguido,
Quantas e quantas vezes
Bem me tenho arrependido !
- Porque te arrependes, ingrata,
Tendo eu um genio doce?
Prouvéra que eu fosse amoroso,
Não andavas tão desgostosa.
Que desgostosa vossé vive,
Vivendo d'esta sorte;
Te prometto lealdade,
Lealdade até á morte.
« Pois eu sinto e sentirei,
Sinto mil ingratidões ;
Sinto ser uma dôna
E roubada dos ladrões.
Eu dos ladrões nunca fui,
E de juro de não ser,
Emquanto viver sujeita
Debaixo de seu poder.
- Debaixo de meu poder
Foi que tiveste valia;
Que sahindo para fóra
Acabaes a fidalguia.
«Fidalguia sempre tive,
Que d'isto me hei de gabar,
Que com gente d'outra esphera
Não me hei-de misturar.
-Misturar hei-de por força,
Que isto vem de geração;
Que as meninas d’estes tempos
Não se dão á estimação.
«Estimação não se dão
Aquellas que são pobres ;
Que uma rica como eu
Só procura gente nobre.
-Gente nobre hei de por força,
Que isto vem por festejar ;
Que o peor é dar-lhe um couce,
E o melhor vem a ficar.
Já sei que queres dizer .. .
Queres dominar o meu corpo,
Isto me daes a entender.
ROMERO, Sylvio (org.). “Variante do Rio Grande”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 130-131
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)