Mário de Andrade (1893-1945)
VII
Maria
Passa pura neste mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
O nome dela é Maria.
Faz pouco telefonou
Falando que não iria
No chá da casa da amiga.
De vez em quando ela falta
Às festas de sociedade,
Arranja dor-de-cabeça
E outras desculpas assim.
Agora está no jardim
Toda de branco vestida.
O sol é um pintor das dúzias!
Diz-que pretende dourar
Aqueles cabelos curtos...
Não vê! só faz relumear
O preto daquele preto,
Que não tem nada mais preto
Que os cabelos de Maria!
Como é bonita! Seus olhos
São que nem jabuticabas.
E mesmo que o perfil dela
Seja um pouco duro, a gente
Assuntando aquele rosto
Que o rouge aviva mansinho,
A gente sente um sossego
De peito de passarinho.
A gente sente... meu Deus!
De deveras, um amor...
Que não é amor, é amorzinho
Feito de admiração.
Encanto de dia-santo!
Gosto que não dá desgosto!
Amor não! Veneração!
Se eu falasse que Maria
Traz um halo na cabeça,
Halo de santa moderna
Que maxixa e fala o inglês,
Muita gente se riria...
Pois se riam à vontade!
Maria traz na cabeça
O halo de Santa Maria!
É Shelley que está na moda,
E as mãos dela sobre a capa
Da edição de Oxford, orvalham
O couro negro macio
Com as gotas secas do brilho
Das unhas manicuradas.
Não quis mais ler porque livros
Não lhe dão a gostosura
Que tem vendo as travessuras
Dos filhinhos em redor.
Um fala que tem de ser
Chofer duma lincoln verde;
O outro inda não sabe, hesita
Entre médico e aviador;
O caçula... lá se amola
Em saber o que será!
É pecurrucho, não pensa,
Tem a instintiva sabença
De andorinha taperá:
Aonde faz quente, ele vai.
Gatinhando emigra bambo
Do colo da mãe pro pai,
Do colo do pai pra cama.
Agora dorme na grama
Sobre o pleide branco e preto.
Troca a noite pelo dia...
Junto dele a ama cochila,
No branco e preto de estilo.
... Que a champanha dos jantares,
Tal-e-qual a cobra preta,
Vem de-noite e chupa o leite
Da sem-seios da Maria…
E Maria, a outra filhinha,
Maria filha de Maria,
Parecida com Maria,
Essa emburrou porque o mano
Mais velho diz que não quer
Que ela beije a cara dele.
Há-de ser chofer da lincoln
E há-de viver toda a vida
Sem boquinha de mulher!
Maria se ri tranquila.
São anjos, não são? São anjos
Que não têm asas por baixo
Dos suéteres de listrão.
Já falam seu alemão
Com a governanta comprida,
Mas que são anjos? são anjos
Da boniteza da vida!
... Que anjos são estes
Que estão me arrodeando,
De-noite e de-dia...
Padre Nosso...
Ave, Maria!
ANDRADE, Mário de. “VII”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 337-340.
Poemas da amiga
I
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.
Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor-de-rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.
ANDRADE, Mário de. “I”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 385.
Poemas da amiga
III
Agora é abril, ôh minha doce amiga,
Te reclinaste sobre mim, como a verdade,
Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo.
Nos dominamos pondo tudo no lugar.
O céu voltou a ser por sobre a terra,
As laranjeiras ergueram-se todas de-pé
E nelas fizemos cantar um primeiro sabiá.
Mas a paisagem logo foi-se embora
Batendo a porta, escandalizadíssima.
ANDRADE, Mário de. “III”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 387.
Poemas da amiga
IV
Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas!
Que tara divina pesa em nosso corpo vitorioso
Não permitindo que jamais a plenitude satisfeita
Descanse em nosso lar como alguém que chegou!...
Não tenho esperança mais nas vossas revelações!
Vós me destes o amor, me destes a amizade,
E na experiência de minha doce amiga me destes
Mais do que imaginei... Mas a volta foi cruel.
Eu sofro. Êh, liberdade, essência perigosa...
Espelhos, Pireneus, caiçaras e todos os desesperos,
Vinde a mim que outros agora aboiam pra eu marchar!
Tudo é suavíssimo na flora dos milagres...
Um pensamento se dissolve em mel e à porta
Do meu coração há sempre um mendigo moço esmolando…
Eu saí da aventura! Eu fugi da ventura!
Nós não estamos na cidade nem no mato.
Nós rolamos na ânsia dos fabulosos aeroplanos,
E vos garanto que agora não acabaremos mais!
ANDRADE, Mário de. “IV”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 388.
Poemas da amiga
VI
Nós íamos calados pela rua
E o calor dos rosais nos salientava tanto
Que um desejo de exemplo me inspirava,
E você me aceitou por entre os santos.
Erguer do chão um toco de cigarro,
Fumá-lo sem saber por que boca passou,
A terra me erriçava a língua e uma saliva seca
Pousando nos meus lábios molhados renasceu.
Todos os boitatás queimavam minha boca
Mas quando recomecei a olhar, ôh minha doce amiga,
Os operários passavam-se todos para o meu lado,
Todos com flores roubadas na abertura da camisa…
O sol no poente, de novo auroral e nativo,
Fazia em caminho contrário um dia novo;
E as noites ficaram luminosamente diurnas,
E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite sem fim.
ANDRADE, Mário de. “VI”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 391.
Poemas da amiga
VII
É hora. Mas é tal em mim o vértice do dia
Nesta sombra… Porque serás mais que os rapazes,
E bem mais, muito mais do que as amantes?…
Sombra!… Sombra de cajazeira perfumada,
Saudando a minha inquietação com a tua delícia!
Eu poderia dormir no teu regaço, ôh mana…
Abri-vos, rincões do sossego,
Não cuideis que é minha amante, é minha irmã!
Porém é muito cedo ainda, e no portão do Paraíso
O anjo das cidades vigia com a espada de fogo na mão.
ANDRADE, Mário de. “VII”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 392.
Poemas da amiga
VII (BIS)
É uma pena, doce amiga,
Tudo o que pensas em mim.
Eu sei, porque acho uma pena
Também o que penso em ti.
Mesmo quando conversamos,
É uma pena, outras conversas
De olhos e de pensamentos,
Andam na sala, dispersas.
ANDRADE, Mário de. “VII (BIS)”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 393.
Poemas da amiga
VIII
Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e um branco
Ecoando azuis profundos.
Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.
Estamos no interior duma asa
Que fechou.
ANDRADE, Mário de. “VIII”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 394.
Poemas da amiga
IX
Vossos olhos são um mate costumeiro.
Vossas mãos são conselhos que é indiferente seguir.
Gosto da vossa boca donde saem as palavras isoladas
Que jamais não ouvi.
Porém o que eu adoro sobretudo é vosso corpo
Que desnorteia a vida e poupa as restrições.
Ôh, doce amiga! vossos castos espelhos de aurora
Despejam sobre mim paisagens e paisagens
Em que passeio feito um rei sem povo,
Cortejado por noruegas, caponetes e caminhos,
– Os caminhos incompetentes que jamais não me conduzirão a alguém!…
ANDRADE, Mário de. “IX”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 395.
Poemas da amiga
X
Os rios, ôh doce amiga, estes rios
Cheios de vistas, povoados de ingazeiras e morretes,
Pelo Capibaribe irás ter ao Recife,
Pelo Tietê a São Paulo, no Potenji a Natal.
Pelo Tejo a Lisboa e pelo Sena a Paris…
Os rios, ôh minha doce amiga, na beira dos rios
É a terra de povoação em que as cidades se agacham
E de-noite, que nem feras de pelo brilhante, vão beber…
Pensa um bocado comigo na vasta briga da terra,
E nas cidades que nem feras bebendo na praia dos rios!
Insiste ao pé de mim neste meu pensamento!
E os nossos corações, livres do orgulho,
Mais humilhados em cidadania,
Irão beber também junto das feras.
ANDRADE, Mário de. “X”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 396.
Poemas da amiga
XI
A febre tem um vigor suave de tristeza,
E os símbolos da tarde comparecem entre nós;
Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes
Pra que venha este bem de sossegar na pouca luz.
É a nossa intimidade. Um fogo arte, esquentando
Um rumor de exterior bem brando, muito brando,
E dá clarões duma consciência intermitente.
A poesia nasce.
Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija na face,
E, por camaradagem, me olhas ironicamente.
Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos.
E o vigor suave da febre
Não intimida os nossos corações tranquilos.
ANDRADE, Mário de. “XI”. In: “Poemas da amiga”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 398-399.
Tua imagem se apaga em certos bairros
Tua imagem se apaga em certos bairros,
Mas tua dor rasga nos ares,
Não me deixa dormir.
Ôh, Gilda, Oneida, Tarsila, me fechem a boca,
Tapem meus olhos e meus ouvidos,
Para que a glória do insofrido
Volte a cantar Minas Gerais!
A tua dor se dispersa nos ares,
Mas tua imagem suando ao dia inútil
Me impede até de chorar.
Eu vou-me embora, vou-me embora,
Fazer weekend em Santo Amaro,
Repartir em vãs alegrias
Meu desejo vão de esquecer!
Só isso levas, coração.
ANDRADE, Mário de. “Tua imagem se apaga em certos bairros”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 503.
Beijos mais beijos
Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.
Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.
Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.
Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.
Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
– Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!
Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
– Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis…
ANDRADE, Mário de. “Beijos mais beijos”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 506.
Silêncio em tudo. Que a música
Silêncio em tudo. Que a música
Rola em disco sem cessar.
Uns pensam, outros suspiram,
Um escuta.
Lourdes reina a paz em Varsóvia.
A advertência dos vidrilhos
Ladrilha tudo. Nos cantos
Murcham as flores de retórica.
Rui bom, cuidado! Motorista
Dos highlands do pensamento:
Nessas landas os nativos
Não consertam as estradas.
Minas Gerais, fruta paulista,
Sambre et Meuse bem marxante,
Periga às vezes, por confiança
Nas gageures.
Esse clima de São Paulo,
Muito vento e bem calor,
Abrir e fechar de portas
Nas auroras do cristal.
Paulo Emílio assim que o ruído
Ruiu, o trem descarrilou
No screen-play ruim… Mas os ratos
Os ratos roem por aí.
Um largo gesto desmaia
Na ribalta. Não faz mal
Que em São Paulo deciolizem
Lagartixas ao sol.
Essa impiedade da paineira
Consigo mesma… Qualquer vento,
Vento qualquer… Os canários
Cantam que mais cantam.
Lourival sentencioso,
Parceiro de dor e vale,
Nunca houve fúrias de Averno
Em diabo grande.
O arreliquim de Tintagiles, Gilda,
Me esconde tudo, neblina.
A hera deu flor… A saudade
Lilá ri das inquietações.
Silêncio em tudo… Que a música
Na cuíca mansa e amiga,
Faz que diz mas não diz…
Adormeceram.
ANDRADE, Mário de. “Silêncio em tudo. Que a música”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 507-509.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)