Os teus olhos distribuem
Os teus olhos distribuem
o que não existe aos meus:
As luzes que os meus possuem
São as migalhas dos teus.
Quem gasta no amor vinte anos
Menos amou, na alegria,
Do que quem ama um só dia
E morre de desenganos.
Teu sorriso é um jardineiro
Meu coração é um jardim;
Saudade! imenso canteiro
Que eu trago dentro de mim.
A semente dos teus olhos
Caiu no meu coração,
Deu uma árvore de abrolhos
e deu uma fruta – a paixão.
Quis plantar uma limeira,
O vento roubou-me o grão.
Teus sorrisos, feiticeira,
Roubaram-me o coração.
Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre, a cantar,
Eu, que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.
O amor é um barquinho esguio
Sulcando as ondas do mar;
— O amor não é como o rio
Que é fácil de atravessar.
Eu já chorei muitas vezes
Sem que a lágrima brotasse:
Os meus males não são nuvens
Que se esgotem pela face.
ANDRADE, Mário de. “Os teus olhos distribuem”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 214-215 .