Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 


Marca d'água

NATAL

 


Natal... Hora de sinos badalando,
de neve branquecendo pinheirais;
hora de pés de criancinhas arrastando
pela brancura lisa do caminho;
hora do cândido velhinho…

- Em Reims, os sinos não badalam mais!

A neve, sempre a mesma,
cai, continua de cair; e o vento
- bruscas rajadas brancas - se desfralda,
como túnica de avantesma,
rasgando-se à desmantelada espalda
do grande, velho monumento…

- Em Reims, os sinos não badalam mais!

Pelas ruas escurecidas
andam caladamente os grupos uniformes...
Não tem mais galas o natal! apenas
no trabalhar dos hospitais,
tratam da cura de feridas
de hediondas chagas e lesões enormes,
alvas mulheres silenciosas e serenas…

Natal... Mas não há luzes nas capelas!...
Nem pratas de lavrados castiçais

onde luziluzam as velas!...
Natal... Mas não há longas espirais
de incenso, a se enroscar pelos altares!...
No colo virgem de Maria,
junto dos anjos tutelares,
rindo, estendendo seus bracinhos nus,
nem se lembraram - quem se lembraria! -
nem se lembraram de repor Jesus!...

- Em Reims, os sinos não badalam mais!

Num silêncio de múmia, brancacenta,
a noite corre... Batem doze badaladas.
Onde estão as canções desabaladas
dos sinos gárrulos?... - Friorenta,
a grande catedral emudeceu:
e para ela a alegria dos natais,
toda a alegria dos natais morreu!...

-Em Reims, os sinos não badalam mais!...


ANDRADE, Mário de. “NATAL”. In: Há uma gota de sangue em cada poema. In: Obra imatura. Organização de Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 55-56.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)