Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 

Coco do major

 

A Antônio Bento de Araújo Lima


O major Venâncio da Silva
Guarda as filhas com olho e ferrolho,
Que vidinha mais caningada
– seu mano –
Elas levam no engenho do velho!

Nem bem a arraiada sonora
Vem tangendo as juremas da estrada
Já as três se botam na renda
– seu mano –
Trequetreque de bilros, mais nada.

Vai, um mocetão paroara
Destorcido porém sem cabeça
Apostou num coco da praia
– seu mano –
Que daria uma espiada nas moças.

Pois a fala do lambanceiro
Foi parar direitinho no ouvido
Do major Venâncio da Silva
– seu mano –
Que afinal nem se deu por achado.

Bate alguém na sede do engenho.
– Seu major, ando morto de sede,
Por favor me dê um copo de água...
– seu mano –
– Pois não, moço! Se apeie da égua.

Dois negrões agarram o afoito,
O major assobia pra dentro.
Vêm três moças lindas chorando
– seu mano –
Com quartinhas de barro cinzento.

– Esta é minha filha mais velha,
Beba, moço, que essa água é de sanga.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a primeira moringa.

– Esta é minha filha do meio,
Beba, moço, que essa água é de corgo.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a moringa, já vesgo.

– Esta é minha filha mais nova,
Beba, moço, que essa água é de fonte.
E os negrões afogam o pobre
– seu mano –
Que adubou os facheiros do monte.

O major Venâncio da Silva
Tem as filhas mais lindas do norte,
Mas ninguém não viu as meninas
– seu mano –
Que ele as guarda com água de pote


ANDRADE, Mário de. “Coco do major”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 274-276.

 

Moda da cadeia de Porto Alegre

 

A Mário Pedrosa


Dona Rita amouxa em casa
Uma porção da riqueza
Que o marido, que Deus tenha!
Por amor dela ajuntou.
A riqueza de que falo
É cobres, porque dos filhos
Só um mocinho não gorou.

Apesar dessa família
Já grande, em pleno viçor,
Quando ela pensa em gatunos
Corre pela espinha dela
Uma friagem de horror.

Também não tem na cidade
Correição de segurança
Adonde gatuno que entra
Perde pra sempre a esperança
De outra vez ir gatunar.
Dona Rita passa as noites
Sem dormir, sem descansar.
Qualquer barulhinho a pobre
Levanta, vai assuntar.

Pois então ela resolve,
Gasta mas gasta pra bem:
Faz construir uma cadeia
Que mais segura não tem
Por este grande Brasil.

Era mesmo um casarão
Alvo que nem tabatinga,
Com tanta grade tamanha
Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear
Lá no largo da Cadeia
Mas porém se espera um preso
Pra estreia da correição.

Agora o filho entra tarde.
Dona Rita sossegada
Costura, pesponta meias
Enquanto sono não vem.
Só de pensar na cadeia
Dona Rita dorme bem.

Foi então que numa festa
Já quase de-manhãzinha
O filho de dona Rita
Botou seis tiros no peito
De outro moço, rival dele
Nuns negócios de paixão.

Estrearam a correição.
Dona Rita não foi ver.

Definha que não definha,
Durou uns pares de meses,
Afinal veio a morrer.

Falam também que de-noite
O carcereiro rondando
Escuta pelo caminho
O choro de dona Rita
Gemendo devagarzinho…

Mas isso de assombração
Só quem vê é que acredita…


ANDRADE, Mário de. “Moda da cadeia de Porto Alegre”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 277-279.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)