Moda da cadeia de Porto Alegre
A Mário Pedrosa
Dona Rita amouxa em casa
Uma porção da riqueza
Que o marido, que Deus tenha!
Por amor dela ajuntou.
A riqueza de que falo
É cobres, porque dos filhos
Só um mocinho não gorou.
Apesar dessa família
Já grande, em pleno viçor,
Quando ela pensa em gatunos
Corre pela espinha dela
Uma friagem de horror.
Também não tem na cidade
Correição de segurança
Adonde gatuno que entra
Perde pra sempre a esperança
De outra vez ir gatunar.
Dona Rita passa as noites
Sem dormir, sem descansar.
Qualquer barulhinho a pobre
Levanta, vai assuntar.
Pois então ela resolve,
Gasta mas gasta pra bem:
Faz construir uma cadeia
Que mais segura não tem
Por este grande Brasil.
Era mesmo um casarão
Alvo que nem tabatinga,
Com tanta grade tamanha
Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear
Lá no largo da Cadeia
Mas porém se espera um preso
Pra estreia da correição.
Agora o filho entra tarde.
Dona Rita sossegada
Costura, pesponta meias
Enquanto sono não vem.
Só de pensar na cadeia
Dona Rita dorme bem.
Foi então que numa festa
Já quase de-manhãzinha
O filho de dona Rita
Botou seis tiros no peito
De outro moço, rival dele
Nuns negócios de paixão.
Estrearam a correição.
Dona Rita não foi ver.
Definha que não definha,
Durou uns pares de meses,
Afinal veio a morrer.
Falam também que de-noite
O carcereiro rondando
Escuta pelo caminho
O choro de dona Rita
Gemendo devagarzinho…
Mas isso de assombração
Só quem vê é que acredita…
ANDRADE, Mário de. “Moda da cadeia de Porto Alegre”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 277-279.