Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
A dor de quem recorda os tempos idos
A dor de quem recorda os tempos idos
Fere como um punhal envenenado.
São vozes mudas, últimos balidos
Do cordeiro angustioso do passado.
Choram em sonho os olhos doloridos
Das virgens mortas antes do noivado.
E sentimos na concha dos ouvidos
As árias de quem muito foi amado.
Oh luares ermos pelas sepulturas!
Noites infindas de astros, onde esvoaça
A asa da morte suavemente fria!
Beijais do rosto dela as linhas puras.
Ela sorri: pelos seus lábios passa
A alma das rosas que lhe dei um dia.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “A dor de quem recorda os tempos idos”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 100.
Canção de Núpcias
Que céu tão cheio de véus de noivas,
Que céu tão cheio de véus de viúvas...
Oh luar sublime, com quem te noivas?
Oh noite triste, de quem te enviúvas?
Senhora minha, deusa das noivas,
De cauda branca, de brancas luvas,
Por que de flores roxas engoivas
As tranças negras da cor das uvas?
Olhos tão cheios de véus de noivas,
Olhos tão cheios de véus de viúvas...
Senhora minha, com quem te noivas?
Antes eu diga – de quem te enviúvas?
Não chores nunca, deusa das noivas!
Um céu turvado, cheio de chuvas...
Por que de prantos roxos engoivas
Os olhos negros da cor das uvas?
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Canção de Núpcias” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 35.
Em teu louvor, senhora, estes meus versos…
Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha Alma aos teus pés para cantar-te.
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-te o vulto em toda a parte.
Tu que habitas os brancos universos,
Envolve-me de luz para adorar-te,
Pois evitando os corações perversos
Todo o meu ser para o teu seio parte.
Que é necessário para que eu resuma
As Sete Dores dos teus olhos calmos?
Fé, Esperança, Caridade, em suma.
Que chegue em breve o passo derradeiro:
Oh! dá-me para o corpo os Sete Palmos,
Para a Alma, que não morre, o Céu inteiro!
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Em teu louvor, senhora, estes meus versos…”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 50.
Estão mortas as mãos daquela Dona
Estão mortas as mãos daquela Dona,
Brancas e quietas como o luar que vela
As noites romanescas de Verona
E as barbacãs e torres de Castela…
No último gesto de quem se abandona
À morte esquiva que apavora e gela,
As suas mãos de Santa e de Madona,
lnda postas em cruz, pedem por ela.
Uma esquecida sombra de agonias
Oscula o jaspe virginal das unhas,
E ao longo oscila das falanges frias…
E os dedos finos... ai! Senhora, ao vê-los,
Recordo-me da graça com que punhas
Um cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos!
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Estão mortas as mãos daquela Dona”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 93.
Hão de chorar por ela os cinamomos
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu, silente e fria...”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Hão de chorar por ela os cinamomos”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 90.
O cinamomo floresce
O cinamomo floresce
Em frente do teu postigo:
Cada flor murcha que desce
Morre de sonhar contigo.
E as folhas verdes que vejo
Caídas por sobre o solo,
Chamadas pelo teu beijo
Vão procurar o teu colo.
Ai! Senhora, se eu pudesse
Ser o cinamomo antigo
Que em flores roxas floresce
E frente do teu postigo:
Verias talvez, ai! como
São tristes em noite calma
As flores do cinamomo
De que está cheia a minh’alma!
GUIMARAENS, Alphonsus de. “O cinamomo floresce”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 77.
Quando por mim passaste…
Quando por mim passaste
Pela primeira vez,
Como eu sorrisse, tu coraste.
O sol estava abrasador.
E eu disse então: “Talvez, talvez
Fosse o calor.”
Quando por mim passaste
Pela segunda vez,
Como que pálida ficaste.
Nascia a lua, devagar.
E eu disse então: “Talvez, talvez
Fosse o luar.”
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Quando por mim passaste”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 38.
Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma
Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma
Do teu sorriso entrou, como o sol na floresta,
Caminhei para ti, na mão tendo uma palma,
E chegaste, doirada, entre flores de giesta.
Ástrea aliança de uma alma a sonhar por outra alma!
O luar nascia triste, a tarde era funesta...
Diante de mim as mãos uniste, palma a palma:
Sorriste... Para ver o céu nada me resta!
De joelheiras de ferro, estarcão e acha d’armas,
Verde escudo em sinople, eu fui, pelos Poemas,
O cavaleiro afeito às gritas e aos alarmas.
Vi esculcas no azul, que eram anjos: as sagas
Que te vinham buscar, sumiram-se blasfemas:
Mas, Senhora, por ti fiquei cheio de chagas…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Quando, na sombra espessa em que eu vivia, a calma”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 103.
Reminiscência de um dramalhão antigo
Senhora! espero visitar-te um dia,
Por uma tarde pálida de março.
Não mais dirás, a escarnecer-me fria:
– “O meu amor bem longe vaga esparso!”
A vingança do morto, eis a sombria
Peça: diante do teu olhar tão garço,
Alongarei – fantasma em agonia –
Fêmur e tíbia, tarso e metatarso…
Um passo de minuete, extraordinário:
E surgirei como talhado em neve,
Despindo-me da capa, o meu sudário.
– “Espectro vil!” dirás, no extremo arranco.
Mas hás de amar-me, num lampejo breve,
Vendo-me assim gentil, todo de branco…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Reminiscência de um dramalhão antigo”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 132.
Romance de Dona Celeste
I
-Satã, onde a puseste?
Busco-a desde a manhã.
O pálida Celeste…
Satã! Satã! Satã!
E o Cavaleiro andante,
A toda, a toda a rédea,
Passa em busca da Amante
Pela noite sem luar da Idade Média.
-O vento ulula e chora…
Maldição! Maldição!
A quem amar agora,
Meu pobre coração…
E o Cavaleiro passa
Ante a sombria porta
Da lúgubre Desgraça,
Silenciosa mulher de olhar morta.
-Viste, velha agoureira,
O Anjo do meu solar?
-Ah! com uma Feiticeira
Ela acaba de passar…
E bate o Cavaleiro
A outra porta escura:
É a casa do coveiro,
Solitária como uma sepultura.
-Quem sabe! acaso, acaso,
O meu anjo morreu?
Fidalgo, morre o ocaso,
Não posso enterrá-lo eu!
Louco, às trevas pergunta:
Sombras pelos caminhos
Dizem que ela é defunta…
E ele começa a interrogar os ninhos.
-Acaso, acaso a viste,
Meu suave ruscinol?
-Ouves a endecha triste?
Bem vês que não vi o sol.
E o Cavaleiro escuta
Longe o estertor de um pio…
Talvez a voz poluta
E irônica de algum mocho erradio.
-O teu Anjo finou-se
Ao beijo de Satã…
Aí! do seu lábio doce,
Mais doce que a manhã!
Tinem arneses: voa
O cavaleiro andante
A toda a rédea, à toa…
Não acharás, Fidalgo, a tua amante!
II
- Satã, onde a puseste?
Que íncubo a fanou já?
-A pálida Celeste…
Ei-la no meu Sabá.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Romance de Dona Celeste”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 31.
Visão das noites brancas
Quando ao luar noctívago desmaias,
Ó lírio albente, ó pálida açucena,
Todas as forças da ilusão terrena
Vêm amparar-te para que não caias.
Os olhos pela solidão espraias,
Ungidos no pesar da lua amena.
E há neles a canção, cheia de pena,
Que berça o mar e geme pelas praias.
O teu vulto de angélico duende
Se espiraliza em luz e se distende
No alvor que ninguém vê a não ser eu…
E entre o silêncio e a paz das minhas preces,
Diante do meu olhar desapareces,
Como o sonho de alguém que já morreu...
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Visão das noites brancas”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 126.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)