Auta de Souza (1876-1901)
De longe
A Antônia Araújo
Para os teus anos, formosa,
Onde não vão meus desejos?
Mas, longe de ti, saudosa,
Só posso enviar-te beijos.
Seria, porém, com pressa,
Cheia de muito receio,
Que eu faria esta remessa
De beijos pelo correio.
E, então, pelo espaço alado
Eu vou soltá-los embando,
Como um batalhão dourado
De passarinhos voando.
Podem, assim, os amores
Levar-te n'asa dispersos:
Minh'alma desfeita em flores
E o meu coração em versos.
Macaíba — 26 de fevereiro de 1896
SOUZA, Auta de. “De longe”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 114.
Morena
Ó Moça faceira,
Dos olhos escuros,
Tão lindos, tão puros;
Qual noite fagueira!
Criança morena,
Teus olhos rasgados
São céus estrelados
Em noite serena!
Que doces encantos,
No brilho fulgente,
No-brilho dolente
De teus olhos santos!
E eu vivo adorando,
Meu anjo formoso,
O brilho radioso
Que vão derramando,
Em chamas serenas,
Tão mansas e puras,
Teus olhos escuros,
Ó flor das morenas!
SOUZA, Auta de. “Morena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 79.
Pobre flor
Deu-me um dia uma antiga companheira
Do tempinho feliz de adolescente;
E os meus lábios roçaram docemente
Pelas folhas da nívea feiticeira.
Como se apaga uma ilusão primeira,
Um sonho estremecido e resplendente,
Eu beijei-lhe a corola, rescendente
Inda mais que a da flor da laranjeira.
E como amava o seu formoso brilho!
Tinha-lhe quase essa afeição sagrada
Da jovem mãe ao seu primeiro filho.
Dei-lhe no seio uma pousada franca...
Mas, ai! Depressa ela murchou, coitada!
Doce é mísera flor, cheirosa é branca!
Angicos — 1896
SOUZA, Auta de. “Pobre flor”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 119.
Soledade
Ó doce morenita
De olhar magoado e triste
Onde A Saudade existe
E o Desconsolo habita…
Faz pena ver-te assim
À hora do sol-posto,
Anuviado o rosto,
Ó meigo serafim!
As Vezes penso e cismo
No que te faz sofrer.
E sinto que o meu ser
Quer desvendar um abismo.
Por que soluça tanto
Um coração de pomba,
Se a noite amena tomba
Cheia de paz e encanto?
Por que teu cílio treme
Interrogando a lua?
Que grande dor é a tua?
Por que teu seio geme?
Acaso esta saudade
Que o teu olhar encerra
Será porque na terra
Chamam-te Soledade?
Será? Mas que lembrança
Foi essa, meu jasmim,
De dar um nome assim
A uma alma é um sonho.
A uma alma que é um sonho
Mas branco do que um véu,
Caído lá do Céu
Neste paul medonho!
SOUZA, Auta de. “Soledade”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 176.
Teus anos
A Eugenia B. Albuquerque Mello
Teus anos amanhã. Fui ver, contente,
(E como procurei por toda parte!)
Um mimo que te desse... e achei, somente,
Meu triste coração, mimo sem arte.
Mas... o que dirás tu quando, de leve,
Bem cedinho batendo à tua porta,
Vires meu coração frio, de neve,
Pobre flor sem perfume e quase morta?
Manda-o entrar... E dize, doce amada!
Que ele se esqueça desse olhar no brilho...
Vai de tão longe té pedir pousada:
Deixa-o ficar no berço de teu filho...
Angicos, 02 de maio de 1896
SOUZA, Auta de. “Teus anos”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 47.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)