Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Amor, sinal estranho
Amo demais, sem saber que estou amando,
as moças a caminho da reza.
No entardecer.
Elas também não se sabem amadas
pelo menino de olhos baixos mas atentos.
Olho uma, olho outra, sinto
o sinal silencioso de alguma coisa
que não sei definir — mais tarde saberei.
Não por Hermínia apenas, ou Marieta
ou Dulce ou Nazaré ou Carmen.
Todas me ferem — doce,
passam sem reparar. O lusco-fusco
já decompõe os vultos, eu mesmo
sou uma sombra na janela do sobrado.
Que fazer deste sentimento
que nem posso chamar de sentimento?
Estou me preparando para sofrer
assim como os rapazes estudam para médico ou advogado.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Amor, sinal estranho”. In: Boitempo III. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 740
As namoradas mineiras
Uma namorada em cada município,
os municípios mineiros são duzentos e quinze,
mas o verdadeiro amor onde se esconderá:
em Varginha, Espinosa ou Caratinga?
Estradas de ferro distribuem a correspondência,
a esperança é verde como os telegramas,
uma carta para cada uma das namoradas
e o amor vence a divisão administrativa.
Para Teófilo Otoni o beijo vai por via aérea,
os carinhos do Sul pulam sobre a Mantiqueira,
mas as melhores, mais doces namoradas
são as de Santo Antônio do Monte e Santa Rita.
No Oeste, na Mata, no Triângulo,
no Norte de Minas há saudades e ais.
Suspiros sobem do vale do rio Doce
e o rio São Francisco trança mágoas.
Enquanto na Capital um homem indiferente,
frio, desdobrando mapas sobre a mesa,
põe o amor escrevendo no mimeógrafo
a mesma carta para todas as namoradas.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “As namoradas mineiras”. In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 53.
Ato: O Padre, a moça
1. O padre furtou a moça, fugiu.
Pedras caem no padre, deslizam.
A moça grudou no padre, vira sombra,
aragem matinal soprando no padre.
Ninguém prende aqueles dois,
aquele um
negro amor de rendas brancas.
Lá vai o padre,
atravessa o Piauí, lá vai o padre,
bispos correm atrás, lá vai o padre,
lá vai o padre, a maldição monta cavalos telegráficos,
lá vai o padre lá vai o padre lá vai o padre,
diabo em forma de gente, sagrado.
Na capela ficou a ausência do padre
e celebra missa dentro do arcaz.
Longe o padre vai celebrando vai cantando
todo amor é o amor e ninguém sabe
onde Deus acaba e recomeça.
2. Forças volantes atacam o padre, quem disse
que exércitos vencem o padre? patrulhas
rendem-se.
O helicóptero
desenha no ar o triângulo santíssimo,
o padre recebe bênçãos animais, ternos relâmpagos
douram a face da moça.
E no alto da serra
o padre
entre as cordas da chuva
o padre
no arcano da moça
o padre.
Vamos cercá-lo, gente, em Goiás,
quem sabe se em Pernambuco?
Desceu o Tocantins, foi visto em Macapá Corumbá Jaraguá Pelotas
em pé no caminhão da BR-15 com seu rosário
na mão
lá vai o padre
lá vai
e a moça vai dentro dele, é reza de padre.
Ai que não podemos
contra vossos poderes
guerrear
ai que não ousamos
contra vossos mistérios
debater
ai que de todo não sentimos
contra vosso pecado
o fecundo terror da religião.
Perdoai-nos, padre, porque vos perseguimos.
3. E o padre não perdoa: lá vai
levando o Cristo e o Crime no alforje
e deixa marcas de sola na poeira.
Chagas se fecham, tocando-as,
filhos resultam de ventre estéril
mudos e árvores falam
tudo é testemunho.
Só um anjo de asas secas, voando de Crateús,
senta-se à beira-estrada e chora
porque Deus tomou o partido do padre.
Em cem léguas de sertão
é tudo estalar de joelhos
no chão,
é tudo implorar ao padre
que não leve outras meninas
para seu negro destino
ou que as leve tão de leve
que ninguém lhes sinta a falta,
amortalhadas, dispersas
na escureza da batina.
Quem tem sua filha moça
padece muito vexame;
contempla-se numa poça
de fel em cerca de arame.
Mas se foi Deus quem mandou?
Anhos imolados
não por sete alvas espadas,
mas por um dardo do céu:
que se libere esta presa
à sublime natureza
de Deus com fome de moça.
Padre, levai nossas filhas!
O vosso amor, padre, queima
como fogo de coivara
não saberia queimar.
E o padre, sem se render
ao ofertório das virgens,
lá vai, coisa preta no ar.
Onde pousa o padre
é Amor-de-Padre
onde bebe o padre
é Beijo-de-Padre
onde dorme o padre
é Noite-de-Padre
mil lugares-padre
ungem o Brasil
mapa vela acesa.
4. Mas o padre entristece. Tudo engoiva
em redor. Não, Deus é astúcia,
e, para maior pena, maior pompa.
Deus é espinho. E está fincado
no ponto mais suave deste amor.
Se toda a natureza vem a bodas,
e os homens se prosternam,
e a lei perde o sumo, o padre sabe
o que não sabemos nunca, o padre esgota
o amor humano.
A moça beija a febre do seu rosto.
Há um gládio brilhando na alta nuvem
que eram só carneirinhos há um instante
— Padre, me roubaste a donzelice
ou fui eu que te dei o que era dável?
Não fui eu que te amei como se ama
aquilo que é sublime e vem trazer-me,
rendido,
o que eu não merecia mas amava?
Padre, sou teu pecado, tua angústia?
Tua alma se escraviza à tua escrava?
És meu prisioneiro, estás fechado
em meu cofre de gozo e de extermínio,
e queres libertar-te? Padre, fala!
Ou antes, cala. Padre, não me digas
que no teu peito amor guerreia amor,
e que não escolheste para sempre.
5. Que repórteres são esses
entrevistando um silêncio?
O Correio, Globo, Estado,
Manchete, France-Presse, telefotografando
o invisível?
Quem alça
a cabeça pensa
e nas pupilas rastreia
uma luz de danação,
mas a luz fosforescente
responde não?
Quem roga ao padre que pose
e o padre posa e não sente
que está posando
entre secas oliveiras
de um jardim onde não chega
o retintim deste mundo?
E que vale uma entrevista
se o que não alcança a vista
nem a razão apreende
é a verdadeira notícia?
6. É meia-treva, e o Príncipe baixando
entre cactos
sem mover palavras fita o padre
na menina dos olhos ensombrada.
A um breve clarear,
o Príncipe, em toda a sua púrpura,
como só merecem defrontá-lo
os que ousaram um dia. Os dois se medem
na paisagem de couro e ossos
estudando-se.
O que um não diz outro pressente.
Nem desafio nem malícia
nem arrogância ou medo encouraçado:
o surdo entendimento dos poderes.
O padre já não pode ser tentado.
Há um solene torpor no tempo morto,
e, para além do pecado,
uma zona em que o ato é duramente
ato.
Em toda a sua púrpura
o Príncipe desintegra-se no ar.
7. Quando lhe falta o demônio
e Deus não o socorre;
quando o homem é apenas homem
por si mesmo limitado,
em si mesmo refletido;
e flutua
vazio de julgamento
no espaço sem raízes;
e perde o eco
de seu passado,
a companhia de seu presente,
a semente de seu futuro;
quando está propriamente nu;
e o jogo, feito
até a última cartada da última jogada.
Quando. Quando.
Quando.
8. Ao relento, no sílex da noite,
os corpos entrançados transfundidos
sorvem o mesmo sono de raízes
e é como se de sempre se soubessem
uma unidade errante a convocar-se
e a diluir-se mudamente.
Espaço sombra espaço infância espaço
e difusa nos dois a prima virgindade,
oclusa graça.
Mas de rompante a mão do padre sente
o vazio do ar onde boiava
a confiada morna ondulação.
A moça, madrugada, não existe.
O padre agarra a ausência e eis que um soluço
humano desumano e longiperto
trespassa a noitidão a céu aberto.
A chama galopante vai cobrindo
um tinido de freios mastigados
e de patas ferradas,
e em sete freguesias
passa e repassa a grande mula aflita.
Urro
de fera
fúria
de burrinha
grito
de remorso
choro de criança?
Por que Deus se diverte castigando?
Por que degrada o amor sem destruí-lo?
e a cabeça da mula sem cabeça
ainda é rosto de amor, onde em sigilo
a ternura defesa vai flutuando?
Um rosto de besta
e entre as ciências do padre
entre as poderosas rezas do padre
nenhuma para resgatá-lo.
Resta deitar a febre na pedra
e aguardar
o terceiro canto do galo.
No barro vermelho da alva
a mão descobre
o dormir de moça misturado
ao dormir de padre.
9. E já sem rumo prosseguem
na descrença de pousar,
clandestinos de navio
que deitou âncora no ar.
Já não se curvam fiéis
vendo o réprobo passar,
mas antes dedos em susto
implantam a cruz no ar.
A moça, o padre se fartam
da própria gula de amar.
O amor se vinga, consome-os,
laranja cortada no ar.
Ao fim da rota poeirenta
ouve-se a igreja cantar.
Mas cerraram-se-lhe as portas
e o sino entristece no ar.
O senhor bispo, chamado
com voz rouca de implorar,
trancou-se na sua Roma
de rocha, castelo de ar.
Entre pecado e pecado
há muito que epilogar.
Que venha o padre sozinho,
o resto se esfume no ar.
Padre e moça de tão juntos
não sabem se separar.
Passa o tempo do distinguo
entre duas nuvens no ar.
10. E de tanto fugir já fogem não dos outros
mas de sua mesma fuga a distraí-los.
Para mais longe, aonde não chegue
a ambição de chegar:
área vazia
no espaço vazio
sem uma linha
uma coroa
um D.
A gruta é grande
e chama por todos os ecos
organizados.
A gruta nem é negra
de tantos negrumes que se fundem
nos ângulos agudos:
a gruta é branca, e chama.
Entram curvos, como numa igreja
feita para fiéis ajoelhados.
Entram baixos
terreais
na posição dos mortos, quase.
A gruta é funda
a gruta é mais extensa do que a gruta
o padre sente a gruta e a gruta invade
a moça
a gruta se esparrama
sobre pena e universo e carnes frouxas
à maneira católica do sono.
Prismas de luz primeira despertando
de uma dobra qualquer de rocha mansa.
Cantar angélico subindo
em meio à cega fauna cavernícola
e dizendo de céus mais que cristãos
sobre o musgo, o calcário, o úmido medo
da condição vivente.
Que coros tão ardentes se desatam
em feixes de inefável claridade?
Que perdão mais solene se humaniza
e chega à aprovação e paira em bênção?
Que festiva paixão lança seu carro
de ouro e glória imperial para levá-los
à presença de Deus feita sorriso?
Que fumo de suave sacrifício
lhes afaga as narinas?
Que santidade súbita lhes corta
a respiração, com visitá-los?
Que esvair-se de males, que desfal
ecimentos teresinos?
Que sensação de vida triunfante
no empalidecer de humano sopro contingente?
Fora
ao crepitar da lenha pura
e medindo das chamas o declínio,
eis que perseguidores se persignam.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Ato: O Padre, a moça”.In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 362.
Canção para álbum de moça
Bom dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava,
de noite como de dia,
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas,
sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
O tempo é talvez ingrato
e funda a melancolia
para que se justifique
o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo,
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom dia: repito à tarde,
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia,
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.
Bom dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe,
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
ao meu bom-dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Canção para álbum de moça”.In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 259.
O Mito
Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.
Amo Fulana tão forte,
amo Fulana tão dor,
que todo me despedaço
e choro, menino, choro.
Mas Fulana vai se rindo…
Vejam Fulana dançando.
No esporte ela está sozinha.
No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos.
É dama de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu… que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado.
Desbaratado é que é…
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é ou deve ser:
branca, intata, neutra, rara,
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana,
digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo
o meu se punge… Pois sim.
Porque preciso do corpo
para mendigar Fulana,
rogar-lhe que pise em mim,
que me maltrate… Assim não.
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe…
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.
E eu insonte, pervagando
em ruas de peixe e lágrima.
Aos operários: A vistes?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não.
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.
Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia.
Venha o mar! Venham cações!
Que o farol me denuncie!
Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna,
à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.
E Fulana apelará
para os frascos de perfume.
Abre-os todos: mas de todos
eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá
(nem se cobriu: vai chispando),
talvez se atire lá do alto.
Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso.
Para que chatear Fulana?
Pancada na sua nuca
na minha é que vai doer.
E daí não sou criança.
Fulana estuda meu rosto.
Coitado: de raça branca.
Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila…
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoará
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário
que fez de Fulana um mito,
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
que a sei embebida em leite,
carne, tomate, ginástica,
e lhe colo metafísicas,
enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir
outra Fulana que não
essa de burguês sorriso
e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.
E colocamos os dados
de um mundo sem classe e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos… que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)
ANDRADE, Carlos Drummond de. “O mito”.In: A Rosa Do Povo. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 150.
O Passarinho dela
O passarinho dela
é azul e encarnado.
Encarnado e azul são
as cores do meu desejo.
O passarinho dela
bica meu coração.
Ai ingrato, deixa estar
que o bicho te pega.
O passarinho dela
está batendo asas, seu Carlos!
Ele diz que vai-se embora
sem você pegar.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “O Passarinho dela”. In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 50.
Oceania
Amo burra, burramente
certa menina enfezada
para lá dos mares do sul.
Ela vem por sobre as ondas
enfeitiçar minha vida,
atrapalhar minha mesa,
dizer que espere… esperarei.
Garota das ilhas Fidji,
ela canta a cantiga morna
do pescador que foi pescado
por um grande peixe vermelho,
ela sobe no coqueiro,
ela sacode o coco
na minha cabeça,
essa menina enjoada…
Ora, eu amo essa menina
que vem dentro de um romance,
áspera, nítida, úmida,
brincar no meu pensamento,
espantar esse mosquito
que pousou no meu papel,
acender esse foguinho
através da Oceania.
E eu lhe pergunto: Filhinha,
para lá da Oceania
decerto que há outras meninas
e outros coqueiros, decerto!
Por que você não me conta?
Eu queria tanto saber.
Ela diz que fique quieto,
que depois da Oceania
o mundo acaba… e que a praia
é só areia e silêncio.
O mundo acabou para nós!
Quebra coco, menina,
dança bem espalhado, menina,
canta bem machucado, menina,
com tua voz de Oceania.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Oceania”. In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 62.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Quadrilha”. In: Alguma Poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 29.
Quero me casar
Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.
Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.
Depressa, que o amor
não pode esperar!
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Quero me casar”. In: Alguma Poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 34.
Véspera
Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.
Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.
Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?
Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. E fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.
Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!
Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.
E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.
E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.
Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.
Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.
Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.
Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!
Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Véspera”. In: A Vida Passada A Limpo. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 342.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)