Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Marca d'água

A festa do mangue

 


I
Por que nasce o amor no mangue
e vem coberto de limo,
assim tão úmido e humilde,
querendo ser misturado
às impurezas do homem?
O amor, brotando no mangue,
a preço de hotel do vento,
dispensa raiz profunda:
seus tentáculos à flor
da vista formam arcadas
sob as quais passam casais
desconhecidos, movidos
de pressa e eletricidade.
Amor de poucos minutos
e de sortidos amores
bebendo na mesma fonte.
Bebe um, bebe o seguinte
e o seguinte do seguinte,
sem que por isto se estanque
a fonte aberta ao passante
na extensão lunar da rua
ou no sol tenso do dia,
manguezal de vulva exposta
e de boca sanguessuga.
Fonte distinta das outras,
por sua vez vai sorvendo,
vai sugando, vai chupando
o licor cálido e múltiplo
da veloz necessidade.
Amor triste? Por que triste,
se é sempre forma de amor,
por mais barata que seja,
por mais que se mostre alheia
à tentação de durar?

II
Aqui se cumprem os ritos
da cópula imemorial.
Aqui o catre, o cabide,
a torneira ablucional
carícia especializada
e fruição sideral.
— Viens, chéri, vem, meu neguinho,
viens vite faire bouché.
Eu primeiro te examino
para evitar cancro duro.
Depois é você quem manda
no meu corpinho asseado.
Eu sei todas as maneiras
de te fazer delirar.
Vem, soldado, vem, caixeiro,
vem, fuzileiro naval,
vem, empregado da Light,
motorista, cobrador,
funcionário federal,
economista, poeta,
estudante, sacristão,
vem, boiadeiro goiano,
e vem tu, seminarista,
jornalista, radialista,
deputado, senador
oculto em negro capote,
vinde todos, vinde mil
da Europa, França e Bahia,
saciar a precisão.
Rapidinho, rapidinho,
que tenho fogo na veia
e para falar verdade
preciso ganhar a vida
mesmo depois de perdida.

III
Que faz ali na parede
aquela santa dourada?
Vela pelos pecadores,
se é culpa nossa nascer
sem direito a santidade.
E que faz o cachorrinho
enrodilhado no chão?
Faz companhia na hora
de enfrentar a solidão.
Entre santa e cachorrinho,
perpassa um ar de família,
família que continua
a bulir dentro da gente.
Então essa noiva nua
é de verdade ou mentira?
— É de mentira e verdade,
e as pombas que me rodeiam,
as pombas que estão lá fora,
as pombas que nunca param
de bicar milho de amor,
são irmãzinhas da gente,
joias da nossa nudez.
São todos irmãos: a rua
é um país compreensivo
onde o amor é procurado
sem escritura e padrinhos,
o país do pobre amor,
alta riqueza do pobre,
consolação e alegria
dos que estão sempre sozinhos
mesmo quando multidão.
São solidões que se abraçam,
que se enroscam, se deglutem
na festa
(é festa?)
do Mangue.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “A festa do mangue”. In: A Paixão Medida. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 513.

 


Marca d'água

A puta

 


Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na Rua de Baixo
onde é proibido passar.

Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: Eu quero
a puta
quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada
quente. A puta quente.

É preciso crescer
esta noite a noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “A puta”. In: BOITEMPO I. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras; 2015, p. 587.

 


Marca d'água

Balada do amor através das idades

 


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada do amor através das idades”. In: Algumas Poesia. In Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 33.

 


Marca d'água

Cabaré mineiro

 


A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça.
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas…


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Cabaré mineiro”.In: Alguma Poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 33.

 


Marca d'água

Corporal

 


O arabesco em forma de mulher
balança folhas tenras no alvo
da pele.
Transverte coxas em ritmos,
joelhos em tulipas. E dança
repousando. Agora se inclina
em túrgidas, promitentes colinas.

Todo se deita: é uma terra
semeada de minérios redondos,
braceletes, anéis multiplicados,
bandolins de doces nádegas cantantes.

Onde finda o movimento, nasce
espontânea a parábola,
e um círculo, um seio, uma enseada
fazem fluir, ininterruptamente,
a modulação da linha.

De cinco, dez sentidos, infla-se
o arabesco, maçã
polida no orvalho
de corpos a enlaçar-se e desatar-se
em curva curva curva bem-amada,
e o que o corpo inventa é coisa alada.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Corporal”.In: A Falta Que Ama. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 421.

 


Marca d'água

Engate

 


O morto no sobrado
no porão a mulata
a pausa no velório
o beijo no escurinho
a pressa de engatar
o sentido da morte
na cor de teu desejo
que clareia o porão.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Engate”. In: BOITEMPO I. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 600.

 


Marca d'água

Febril

 


Ai coxas, ai miragem,
nudez rindo fugindo!
Relampeia no escuro,
até no dia claro!

Ai corpos e delícias,
mar de ondas imóveis!
Labareda a lamber-me
por dentro, e não parece…

Tão perto, seios longe!
À míngua de senti-los,
nem sequer o direito
de contar esta febre…

Ao menos se uma vez
os olhos apalpassem
o pelo, a mão tocasse
o frondoso carvão!

Pegar na realidade
o que vejo, invisível!
Não e nunca... Flanelas!
Linhos indevassáveis!

Quando crescer (e cresço?)
tudo estará presente?
Ou perco para sempre
isto que não mereço?


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Febril”. In: Boitempo III: “Esquecer para lembrar”. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 738.

 


Marca d'água

Girassol

 


Aquele girassol no jardim público de Palmira.
Ias de auto para Juiz de Fora; a gasolina acabara;
havia um salão de barbeiro; um fotógrafo; uma igreja; um menino parado;
havia também (entre vários) um girassol. A moça passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e
rezar;
muitas vontades; a moça nem desconfiou…
Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos.
O girassol, estúpido, continuou a funcionar.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Girassol”.In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 56.

 


Marca d'água

Hino nacional

 


Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelissimas.
Não convém desprezar as japonesas…

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Hino nacional”.In: Brejo das almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 52.

 


Marca d'água

Indagação

 

Como é o corpo?
Como é o corpo da mulher?
Onde começa: aqui no chão
ou na cabeleira, e vem descendo?
Como é a perna subindo,
e vai subindo até onde?
Vê-la num corisco é uma dor
no peito, a terra treme.
Diz-que na mulher tem partes lindas
e nunca se revelam. Maciezas
redondas. Como fazem
nuas, na bacia, se lavando,
para não se verem nuas nuas nuas?
Por que dentro do vestido muitos outros
vestidos e brancuras e engomados,
até onde? Quando é que já sem roupa
é ela mesma, só mulher?
E como que faz
quando que faz
se é que faz
o que fazemos todos porcamente?


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Indagação”. In: BOITEMPO II (MENINO ANTIGO). In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 664.

 


Marca d'água

Iniciação amorosa

 


A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas da lavadeira.

Um dia ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços,
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Iniciação amorosa”. In: Alguma Poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 32.

 


Marca d'água

Madrigal Lúgubre

 


Em vossa casa feita de cadáveres,
ó princesa! ó donzela!
em vossa casa, de onde o sangue escorre,
quisera eu morar.

Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,
é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.
Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu.
O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso
que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.

Princesa: acordada sois mais bela, princesa.
E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.
Arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.
Tão completo desprezo se transmudará em tanto amor…
Dai-me vossa cama, princesa,
vosso calor, vosso corpo e suas repartições,
oh dai-me! que é tempo de guerra,
tempo de extrema precisão.

Não vos direi dos meninos mortos
(nem todos mortos, é verdade,
alguns, apenas mutilados).
Tampouco vos contarei a história
algo monótona talvez
dos mil e oitocentos atropelados
no casamento do rei da Ásia.
Algo monótono… Ásia monótona…
Se bocejardes, minha cabeça
cairá por terra, sem remissão.

Sutil flui o sangue nas escadarias.
Ah, esses cadáveres não deixam
conciliar o sono, princesa?
Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.

Imensa berceuse sobe dos mares,
desce dos astros lento acalanto,
leves narcóticos brotam da sombra,
doces unguentos, calmos incensos.
Princesa, os mortos! gritam os mortos!
querem sair! querem romper!
Tocai tambores, tocai trombetas,
imponde silêncio, enquanto fugimos!

… Enquanto fugimos para outros mundos,
que esse está velho, velha princesa,
palácio em ruínas, ervas crescendo,
lagarta mole que escreves a história,
escreve sem pressa mais esta história:
o chão está verde de lagartas mortas…
Adeus, princesa, até outra vida.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Madrigal Lúgubre”.In: Sentimento do Mundo. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 84.

 


Marca d'água

Moça e soldado

 


Meus olhos espiam
a rua que passa.

Passam mulheres,
passam soldados.
Moça bonita foi feita para
namorar.
Soldado barbudo foi feito para
brigar.

Meus olhos espiam
as pernas que passam.
Nem todas são grossas…
Meus olhos espiam.
Passam soldados.
… mas todas são pernas.
Meus olhos espiam.
Tambores, clarins
e pernas que passam.
Meus olhos espiam
espiam espiam
soldados que marcham
moças bonitas
soldados barbudos
… para namorar,
para brigar.
Só eu não brigo.
Só eu não namoro.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Moça e soldado”. In: Alguma poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 30

 


Marca d'água

Negra

 


A negra para tudo
a negra para todos
a negra para capinar plantar
regar
colher carregar empilhar no paiol
ensacar
lavar passar remendar costurar cozinhar
rachar lenha
limpar a bunda dos nhozinhos
trepar.

A negra para tudo
nada que não seja tudo tudo tudo
até o minuto de
(único trabalho para seu proveito exclusivo)
morrer.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Negra”. In: BOITEMPO II (MENINO ANTIGO). In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 615.

 


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O Mito

 


Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como eu amo Fulana.

Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.

Amo Fulana tão forte,
amo Fulana tão dor,
que todo me despedaço
e choro, menino, choro.

Mas Fulana vai se rindo…
Vejam Fulana dançando.
No esporte ela está sozinha.
No bar, quão acompanhada.

E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos.
É dama de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.

Menos eu… que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado.
Desbaratado é que é…
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.

Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!

Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo

tal como é ou deve ser:
branca, intata, neutra, rara,
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.

Mas como será Fulana,
digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo
o meu se punge… Pois sim.

Porque preciso do corpo
para mendigar Fulana,
rogar-lhe que pise em mim,
que me maltrate… Assim não.

Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?

Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe…
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?

Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.s

Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.

E eu insonte, pervagando
em ruas de peixe e lágrima.
Aos operários: A vistes?
Não, dizem os operários.

Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não.

Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.

E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana

talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;

talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria, talvez minta.

Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavacando.

Me ponho a correr na praia.
Venha o mar! Venham cações!
Que o farol me denuncie!
Que a fortaleza me ataque!

Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,

já sem cabeça e sem perna,
à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.

E Fulana apelará
para os frascos de perfume.
Abre-os todos: mas de todos
eu salto, e ofendo, e sujo.

E Fulana correrá
(nem se cobriu: vai chispando),
talvez se atire lá do alto.
Seu grito é: socorro! e deus.

Mas não quero nada disso.
Para que chatear Fulana?
Pancada na sua nuca
na minha é que vai doer.

E daí não sou criança.
Fulana estuda meu rosto.
Coitado: de raça branca.
Tadinho: tinha gravata.

Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila…
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoará
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.

Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,

desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário
que fez de Fulana um mito,
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;

que a sei embebida em leite,
carne, tomate, ginástica,
e lhe colo metafísicas,
enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir
outra Fulana que não
essa de burguês sorriso
e de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.

E colocamos os dados
de um mundo sem classe e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.

E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos… que mais queremos?

E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.

(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)


ANDRADE, Carlos Drummond de. “O mito”.In: A Rosa Do Povo. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 150.

 


Marca d'água

O filho

 


De quem, de quem o filho
de Sofia?

Do relojoeiro?
Do dentista?
Do primo Augusto?
Do promotor?
Do telegrafista?
Do cabo-comandante do destacamento?
De um dos praças?
Do padre apóstata?

Quem é o pai, quem é o pai
noturnamente encapuzado
(sequer tem rosto)
do filho anônimo de Sofia?

Nenhum deles visto rondando
de Sofia o muro solteiro,
nenhum abrindo de madrugada
a cancela rouca de Sofia.
O pai quem é?

Sofia semilouca de raça ilustre
vai contar quem dormiu
em seu quarto seco de solteirona
e secamente lhe fez o filho?
Vai inventar talvez um pai
que jamais a tenha tocado?

Já se apavoram os homens bons
com a denúncia?
Ninguém confessa ter conhecido
Sofia em fogo ou violentada,
Sofia pura,
Sofia aberta
ao prazer esperado amargamente?

Ou dormiram todos com Sofia
(o que é mesmo que não dormir),
ninguém tem culpa,
ninguém é o pai?

Pai do menino é a cidade?
A loucura é pai do menino?
O menino nasceu do absurdo
propósito de nascer-se, escolheu
o ventre de Sofia como se escolhesse
vaso sem semente, apenas terra?

Sofia não responde. Ri baixinho,
acaricia o pinto do menino.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “O filho”. In: Boitempo III: “Esquecer para lembrar”. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 713.

 


Marca d'água

O procurador do amor

 


Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(não sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite.
As mulheres vão para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

E faço este verso perverso,
inútil, capenga e lúbrico.
É possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.

Ora viva o amendoim.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “O procurador do amor”. In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 55.

 


Marca d'água

Outubro 1930

 


Suores misturados
no silêncio noturno.
O companheiro ronca.
O ruído igual
dos tiros e o silêncio
na sala onde os corpos
são coisas escuras.
O soldado deitado
pensando na morte.

De 5 em 5 minutos um ciclista trazia ao Estado-Maior um feixe de telegramas contendo, comprimida, a trepidação dos setores. O radiotelegrafista ora triste ora alegre empunhava um papel que era a vitória ou a derrota. Nós descansamos, jogados sobre poltronas, e abríamos para as notícias, olhos que não viam, olhos que perguntavam. Às 3 da madrugada, pontualmente, recomeçava o tiroteio.

O funcionário deitado
não pensa na morte.
Pensa no amor
tornado impossível
no minuto guerreiro.
E fecha os olhos
para ver bem
o amor com sua espada
de fogo sobre a cabeça
de todos os homens,
legalistas, rebeldes.

O inimigo resistia sempre e foi preciso cortar a água do quartel. Como resistisse ainda, a água circulou de novo, desta vez azul, de metileno. A torneira aberta escorre desinfetante. O canhão fabricado em Minas — suave temperamento local — não disparou.

Olha a negra, olha a negra,
a negra fugindo
com a trouxa de roupa,
olha a bala na negra,
olha a negra no chão
e o cadáver com os seios enormes, expostos, inúteis.

O general, com seus bigodes tumultuosos, era o mais doce dos seres, e destilava uma ternura vaporosa em seu costume de usar culote sem perneiras. A um canto do salão atulhado de mapas e em que telefones esticados retinham trazendo fatos, levando ordens, eu fazia, exercício fácil, a caricatura do seu imenso nariz. Que todos acharam ótima e reprovaram com indignação cívica.

A esta hora no Recife,
em Guaxupé, Turvo, Jaguara,
Itararé,
Baixo Guandu,
Igarapava,
Chiador,
homens estão se matando
com as necessárias cautelas.
Pelo Brasil inteiro há tiros, granadas,
literatura explosiva de boletins,
mulheres carinhosas cosendo fardas
com bolsos onde estudantes guardarão retratos
das respectivas, longínquas namoradas,
homens preparando discursos,
outros, solertes, captando rádios,
minando pontes,
outros (são governadores) dando o fora,
pedidos de comissionamento
por atos de bravura,
ordens do dia,
“o inimigo (?) retirou-se em fuga precipitada,
deixando abundante material bélico,
cinco mortos e vinte feridos…”
Um novo, claro Brasil
surge, indeciso, da pólvora.
Meu Deus, tomai conta de nós.

Deus vela o sono dos brasileiros.
Anjos alvíssimos espreitam
a hora de apagar a luz de teu quarto
para abrirem sobre ti as asas
que afugentam os maus espíritos
e purificam os sonhos.
Deus vela o sono e o sonho dos brasileiros.
Mas eles acordam e brigam de novo.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Outubro 1930”. In: Alguma Poesia. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 37.

 


Marca d'água

Tentativa

 


Uma negrinha não apetecível
é tudo quanto tenho a meu alcance
para provar o primeiro gosto
da primeira mulher.

Uma negrinha, sem cama
salvo a escassa grama
do quintal, sem fogo
além do que vai queimando
por dentro o menino inexperiente
de todo jogo.

Ai medo de não saber
o que fazer na hora de fazer.

Me ajude, primo igual a mim.
Seremos dois a navegar
o crespo rio subterrâneo.

No chão, à luz da tarde, a tentativa
de um, de outro, em vão, no chão
sobre a fria negrinha indiferente.

Em meio à indiferença dos repolhos,
das formigas que seguem seu trabalho,
eis que a montanha
de longe nos reprova, toda ferro.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Tentativa”. In: BOITEMPO II (MENINO ANTIGO). In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 667.

 


Marca d'água

Um homem e seu carnaval

 


Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Um homem e seu carnaval”.In: Brejo Das Almas. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 47.

 


Marca d'água

Vênus

 


Vênus de calça comprida é
Vênus calcianadiomênica
Vênus calcispúmica
Vênus calcitrite

Vênus de calça comprida
é Vênus calcirízica
Vênus calcigênitrix
Vênus calcimílica

De calça comprida Vênus é Vênus
calcicranachiana
calciarlesiana
calcicapitulina

Calcibelvedérica
é Vênus de calça comprida
calcieleusiana
calcitriptolêmica

Vênus calcipersefônica
Vênus calciproserpínica
de calça comprida
Vênus calcicarôntica

Calcifarnésica Vênus
Vênus calcilaomedôntica
Vênus calcionfálica
Vênus é de calça comprida

Calcimegárica
Vênus calciedípica
Vênus calciateneica
— de calça comprida — calcidedálica

Vênus calcimeleágrica
Vênus calciargonáutica
Vênus calcibelerofôntica
de calça comprida Vênus

Vênus calcidanáidica
Vênus calcihemofroidítica
Vênus calcicomprida
e sempre, nua, Vênus.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Vênus”. In: As Impurezas Do Branco. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras; 2015, p. 502.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)