Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Maria do Carmo D' Andrade (1859-1915)


Marca d'água

A Ella

 

A’ Pedido de R. M. Sene


Louco de amores adorei-te, ó virgem,
Numa vertigem de paixão imensa;
Tu, que me destes fugitiva estrella,
Negra procella que matou-me a crença!

Hoje soluça perennal suspiro,
O ébrio vampiro no calor das brasas!
Cisne que em lago de esperança outr’ora
Fitava a aurora farfalhando as azas!..

Em vida errante que o prazer consome,
Gemi teu nome delirante e só...
Tanta ventura!.., que mulher gelada!...
Fada encantada reduziste à pó!

Anjo divino, celestial, ditoso,
Meu céu formoso, meus fatais tesouros,
Deixa o descrido nas crueis lembranças,
Beijar-te as tranças dos cabelos louros,

Mas se em amar-te criminei minh’ alma,
Sofri com calma meu chorar em vão,
Teus risos falsos, teu olhar tingido,
Me tem perdido, se te amei, perdão!

Eu só te peço, vaporosa ondina,
Visão ferina que encontrei na terra;
Deixa que eu guarde, divinal miragem,
A tua imagem que meu peito encerra.


D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “A Ella”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 13.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)