Noiva
Recitada em dia nupcial da autora
Esta coroa de nevadas flores,
Que em minha fronte colocou-me os céus
E’ o emblema do amor sagrado,
Puro, divino que inspirou-me Deus!
Oh! eu me lembro que terei saudades,
Do lar paterno no viver de gozo;
Porém me exalto, contemplando sempre.
Tão meigo ao lado meu querido esposo!
Recebam amigas, um adeus perenne,
Que o peito expande n’um ardor febril;
Em outra senda já caminho agora,
Cheia minh’alma de esperanças mil!
Dos sonhos virgens, das visões douradas,
Eu me despeço, bendizendo a sorte;
Ideal não tenho, mas conservo a crença,
Voltando amores ao gazil consorte!
Mãe extremosa, nessa dextra santa,
Deixa meu lábio conchegar-se então:
Quero beijá-la!... divinais afectos,
De teus carinhos separar-me vão!...
O véu de noiva virginal e puro,
Eu deposito n'um terrestre altar;
E sobre a terra viverei contente,
Com amizade de quem hei-de amar!...
Irmãs amadas, nem um pranto vertam,
Por mim que à outro Já pertenço agora;
Na vida cumpro meu dever sublime,
Fitando os raios de uma nova. aurora!...
A branca veste de mulher do templo,
Fugaz já sinto dormitar além;
Adeus vos digo, pueris venturas,
E Deus responde compassivo: Amém.
D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “Noiva”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 45.