Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Murilo Mendes (1901-1975)

 


Marca d'água

Endereço das cinco marias

 


Sou o tipo acabado do sujeito
que não arranja nada nesta vida.

Gosto de cinco Marias nesta vida.
A primeira tinha uma pinta na cara,
eu adorava aquela pinta.
Maria do Rosário jurava pela alma da mãe dela
que só havia de casar comigo.
Um belo dia apareceu um tenente
que usava polainas e dançava com muito garbo.
Foi a conta:
ela fugiu pra São Paulo com o tenente
e me deixou na mão.

A segunda,
Maria do Carmo,
era uma pequena dos bons tempos
que a gente conversava no portão de noite,
romântica de olhos pretos não gostava de bailes.
Aquela sim,
mas apanhou um resfriado de tanto conversar comigo no portão
e bateu a bota.

Lá está num cemitério em Belo Horizonte
onde tem muita paisagem.

As três Marias restantes estão no céu.


MENDES, Murilo. “Endereço das cinco marias”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 91-92.

 


Marca d'água

Relatividade da mulher amada

 


Eu gosto de você com uma força bruta que não entendo bem.
Gosto quase tanto como de mim.
Mas que pena você não ser também minha filha.
Que pena você não ser minha filha, minha irmã e minha mãe, tudo
ao mesmo tempo.


MENDES, Murilo. “Relatividade da mulher amada”. In: Poemas. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 119.

 


Marca d'água

A Reveladora

 


Eu nunca vi tua mãe.
Como será tua mãe?
Nem ao menos vi seu retrato.
Para te conhecer melhor
Preciso aprender tua mãe.

A mãe dela finalmente
Apareceu hoje de tarde na varanda.
Tem os cabelos ruivos que nem a filha,
O mesmo jeito de andar.

Olhei para Maria,
Reconstitui sua mãe
No tempo em que a conheci.
Olhei para a mãe dela,
Pude avaliar direito
O que será Maria no futuro.

Louvada seja a mãe da minha namorada
Que levou nove meses para fazer
Todo aquele mundo de ternura
E não descansou até agora
Nem ao menos um dia;
Que a tirou do seu ventre
Enquanto seu marido não estava dormindo.
Que lhe emprestou
Seus cabelos, olhos e quadris;
Que a deixou no jardim de noite
A fim de eu aprender com ela
A ciência do amor e do mal.


MENDES, Murilo. “A Reveladora”. In: O visionário. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1994, p. 201-202.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)