Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Oswald de Andrade (1890-1954)

 


Marca d'água

Pero Vaz Caminha

 


a descoberta

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra

os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados

primeiro chá

Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real

as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha


ANDRADE, Oswald de. “Pero Vaz Caminha”. In: Pau Brasil. In: Obras completas por Oswald de Andrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1971-11.v, p. 80.

 


Marca d'água

Postes de Light

 


pobre alimária

O cavalo e a carroça
Estavam atravancados no trilho
E como o motorneiro se impacientasse
Porque levava os advogados para os escritórios
Desatravancaram o veículo
E o animal disparou
Mas o lesto carroceiro
Trepou na boléia
E castigou o fugitivo atrelado
Com um grandioso chicote

anhangabaú

Sentados num banco da América folhuda
O cow-boy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaduto de ferro

jardim da luz

Engaiolaram o resto dos macaoos
Do Brasil
Os repuxos desfalecem como velhos
Nos lagos
Almofadinhas e soldados
Gerações cor-de-rosa
Pássaros que ninguém vê nas árvores
Instantâneos e cervejas geladas
Famílias

o fera

Ei-lo sentado num banco de pedra
Pálido e polido
Como a Cleópatra dos sonetos
Espera as pequenas ingênuas
Que passam de braços
De bruços
Já se esqueceu do retrato na Polícia
Tem a consciência tranqüila
Dum legislador

fotógrafo ambulante

Fixador de corações
Debaixo de blusas
Álbum de dedicatórias
Marquereau

Tua objetiva pisca-pisca
Namora
Os sorrisos contidos
És a glória

Oferenda de poesias às dúzias
Tripeça dos logradouros públicos
Bicho debaixo da árvore
Canhão silencioso do sol

a procissão

Os chofers ficam zangados
Porque precisam estacar diante da pequena procissão
Mas tiram os bonés e rezam
Procissão tão pequenina tão bonitinha
Perdida num bolso da cidade
Bandeirolas


ANDRADE, Oswald de. “Postes de Light”. In: Pau-Brasil. In: Obras completas por Oswald de Andrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1971-11.v, p. 120.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)