Aos annos de…
Ao nascerdes, Senhora, um astro novo
Vos inundou de luz que inda hoje ensma
No fogo desses vossos olhos bellos
Vossa origem divina.
O ar que respirastes sobre a terra
Foi um sopro de Deus embalsamado
Entre as flores gentis, que vos ornavam
O berço abençoado.
Ao ver-vos sua igual no empyreo os anjo
Hymnos de amor cantaram nesse dia;
E o que se escuta, se fallais, é o echo
Da angelica harmonia.
Gerada paia o céo (que o céo somente
Da creação a pompa, e o brilho encerra)
Das mãos do Criador vos escapastes;
Cahistes cá na terra.
Um anjo vos seguiu para guardar-vos;
E quaes gêmeos um no outro retratado,
Quem pode distinguir o anjo, que guarda,
Do anjo, que é guardado?
Só um raio do céu arde perenne,
Sem que o tempo lhe apague o fulgor santo:
Por isso os vossos dons são sempre os mesmos,
O mesmo o vosso encanto.
Em vós é tudo eterno. E se na fronte
(Tão bella sempre em tempos tão diversos!)
Uma c'rôa murchar-vos, é de certo
A c'rôa dos meus versos.
Dos meus versos? Ah! Não! Que inextinguível
E o incenso queimado á Divindade:
E ao canto, que inspirais, vós dais, Senhora,
Vossa immortalidade.
MONTEIRO, Antônio Peregrino Maciel. “Aos annos de…”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 443-444.