Padre Antonio Pereira de Souza Caldas (1762-1814)
A creação
Já do tempo voraz se divisava
A ferrea curva foice reluzindo
Despiedado, umas vezes meneava,
Outras vezes ao longe desferindo,
Em torno de si mesmo a agitava:
Quando o Nume potente
A cujo aceno o tempo audaz nascêra,
Fez retumbar a voz, que tudo impera
Os abismos do nada estremeceram
E ao Deus grande, e clemente
Os possíveis tremendo obedeceram:
Atonito levanta a escura frente
O cháos rodeado
De confusão e horror: inda a belleza
Com pincel variado
Não ornava a recente natureza.
Tranquilas jazendo,
As ondas dormiam
Que a face cobriam
Do cháos horrendo.
Ao leve soprar
De um zephiro brando,
Vida vai cobrando
O lânguido mar,
Do vasto Oceano
No seio se encerra;
E a madida terra
Deixa respirar
A luz resplandeceu, e o firmamento
Que em denegridas sombras se envolvia,
Mostrou formoso o seu soberbo assento
De graças, e esplendor se revestia
O majestoso dia;
Quando, cheio de pompa e luzimento,
O sol rompeu nos ares, dardejando
De animante calor celestes raios.
Enternecido, triste sentimento
Magôa o rosto lindo
Da noite descontente,
Que a ausência de Phebo luminoso
Assim terna anuncia:
Emtanto desferindo
Escassa luz em throno tenebroso,
Sobre nuvens o sceptro reclinando,
A lua os céos, e terras alumia.
Fulgentes estrellas
Nos céos resplandecem:
Na terra verdecem
Mil árvores belas..
Os montes erguidos
Os valles retumbam
Ao som dos rugidos
Dos feros leões.
Nas azas sustidas,
As aves revoam:
Nos ares entoam
Sonoras canções
O' terra! ó Céos! ó muda natureza!
Trasbordai de alegria: triumphante
Das entranhas do nada surge o homem:
Eis aparece; e a candida belleza
O sisudo semblante lhe enobrece.
Seu magestoso porte
Soberano do mundo o patentea.
Gravada mostra n'alma a augusta imagem
Do Senhor adorável
Que o imenso universo senhorea:
De sua pura carne se teceram
As meigas graças, que no rosto amável
Da mulher carinhosa,
Com suave doçura resplandecem.
Apenas a divisa transportado,
Tu és o meu prazer, que novo encanto
Eu vejo! lhe dizia; e arrebatado
Em delírio amoroso,
Mil vezes em seus braços a apertava,
E todo o extenso mundo,
Por ela só, deixar pouco julgava.
Qual rosa engraçada
Que zefiro adora,
Terna e delicada;
Enredo de Flora:
Assim é mimosa
E linda a mulher
E o homem se goza
Em se lhe render.
Qual grita entre as feras
Leão rugidor,
Derramando em torno
Gelido terror:
Tal se mostra o homem
Sobre toda a terra;
Tudo rende e aterra
Em arte e valor.
O mun.do era creado, e transluzía
Em toda parte o braço omnipotente,
Que fizera raiar a noite, e o dia.
Da frigida semente
Outra vez novo ser se produzia
Animada ao calor do sol ardente.
Tudo em vida fervendo parecia.
Fecundo recebera
Virtude de crescer multiplicar-se,
O animal que á fera
Impia morte soubera sugeitar-.se.
Então o Criador arrebatado
Em divino prazer, almo, infinito,
Olhou dos Céos o livro sublimado
Que com as suas mãos havia escripto,
E assim falou: Ouvi cheios de susto,
Mortaes, a voz do Deus imenso, e justo.
Os Céos entoam
Minha grandeza
Os seres todos
Juntos pregoam,
Por vários modos,
Do eterno ser
O incomparável,
Grande, inefável,
Alto poder.
A minha glória,
Homem, respeita,
Rendido, aceita
Meu mandamento,
Traze á memória,
Que o firmamento
Por ti criei
Que o mar e a terra
E o que ela encerra
Tudo te dei
Se me adorares
Com vivo amor,
E me ofertares
Santo temor;
Por mim o juro,
Minha presença
Ao peito puro
Eu mostrarei,
E recompensa
Tua serei
Mas se quebrares
O meu preceito
E sem respeito
O profanares,
Da morte fera
A mão severa
Tu sentirás :
E em vão gemendo,
No averno horrendo
Me chamarás.
CALDAS, Antonio Pereira de Souza. “A creação”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 334-339.
Ode sobre o amor
Não foram, caro Souza, as lyras de ouro
De Orpheo, e de Amphion, que os leões bravos,
E os indomitos tigres amansando,
As cidades fundaram.
Embora finjam mentirosos vates,
Que as torcidas raízes desprendendo
As árvores annosas, que os penedos,
Apoz elles correram,
Tú, só tu, puro amor, despir podeste
De estúpida bruteza a humana espécie;
Só tu soubeste unir em firmes laços
Os dispersos humanos.
Sem ti insociáveis viviriam,
Nas escarpadas serras, embrenhados
Ou nos sombrios verde-negros bosque
Em pasmada tristeza.
As fugitivas horas passariam,
Em languido lethargo submergidos,
Té que o pungente estímulo da fome
Lhes espantasse o somno.
Os singellos prazeres da amizade,
Prazeres suavissimus, só dados
Aos peitos generosos, e sensíveis,
Provar não poderiam.
As ciências, as artes sepultadas,
No seio da ignorância ainda jazeram
Que inerte, e frouxo a nada se atrevera
Um peito enregelado.
As bellas Marcias, as gentis Lycores,
Em vão dos vivos olhos fuzilaram
Acesos raios, com que audaz fulmina
Rebeldes esquivanças.
Suas vermelhas engraçadas bocas,
Em vão, meigos sorrisos soltariam,
Tingindo as juvenis mimosas faces
De pudibundas rosas.
Anhelantes suspiros, brandas queixas,
Ternos agrado, carinhosos gestos,
Nada mover os peitos poderia
Dos animados troncos.
Dos risos, e das graças rodeada,
Vênus com farta mão não derramára
Em seus rústicos leitos brandas flores,
Flores que tu só colhes.
O gosto de abraçar a cara esposa,
De se ver renascer nos doces filhos,
De educar cidadãos, nutrir virtudes,
Coitados! não sentiram.
Vira-se em breve, co' o volver dos anos,
Ermo de novo, o povoado mundo,
Té que do seio da fecunda terra
Outros homens brotassem.
Ah! crê-me, Souza, amor, amor, somente
A vasta natureza vivifica:
Amor nossos prazeres todos gera,
Nossos males adoça.
O soldado animoso, que se arroja
Com brio denodado a expôr a vida,
Em defensa da pátria ameaçada
De inimigas phalanges;
Depois de haver sofrido longas marchas
Por áridos sertões, por frias serras,
Arrastrando cansado os cavos bronzes
Nas pesadas carretas
Depois de ouvir. nas horridas, batalhas,
Troando a furiosa atilheria
Pelos ares silvar os ferreos globos
Que a morte envolta levam;
Depois de ver os rápidos ginetes
Atropelando os fulminados corpos.
Dos cahidos guerreiros, que em vão pedem
Vingança ou piedade,
Entre os braços da tímida donzela,
Que amor lhe prometera, prompto esquece
As passadas fadigas, os horrores
Da guerra sanguinosa,
O mísero cultor, que industrioso
Do fertil seio da benigna terra
Faz abrolhar os preciosos frutos,
Que a vida nos sustentam.
Ou já sofra no frígido janeiro
Emquanto o arado rege, os finos sopros
Com que lhe tolhe os calejados dedos
O gelado nordeste;
Ou já supporte no calmoso estio
Do abrazado Suão o ardente bafo,
Cuidoso, o louro trigo debulhando
Nas pulvereas eiras;
Apenas desenvolve o denso manto
Sobre a face da terra a noite amiga.
Se o repouso procura aos lassos membros
Na rustica morada,
Vendo a fiel consorte, que saudosa
Ao encontro lhe sahe, e o caro filho,
Que largando da mãi o doce peito
Lhe estende os tenros braços,
Em ternura suavíssimo desfeito
Que o casto amor no coração Lhe entorna,
Contente já de sua humilde sorte
Bemdiz a Providência.
Assim, ó Souza, na fiel balança,
Onde a razão os bens, e os male pesa,
Se vê que, sem amor; a vida humana
Seria insuportável.
CALDAS, Antonio Pereira de Souza. “Ode sobre o amor”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 339-343.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)