Cruz e Sousa (1861-1898)
Amor!!...
Oferecido à Ilma. Sra. D. Pedra
como prova de imensa amizade e profundo amor
que lhe consagra.
O Autor.
Amor, meu anjo, é sagrada chama
Que o peito inflama na voraz paixão,
Amo-te muito eu t’o juro ainda
Deidade linda que não tem senão!
Virgem formosa, d’encantos bela,
Gentil donzela, meu amor é teu.
Vou consagrar-te mil afetos tantos
Puros e santos qual também Romeu!
Flor entre as flores, a mais linda, altiva
Qual sensitiva, só tu és, ó sim.
Esses teus olhos sedutores, belos
De mil anelos, me pedirão a mim.
Anjo, meu anjo, eu te adoro e amo.
Por ti eu chamo nas horas de dor.
Sem ti eu sofro; um sequer instante
De ti perante só me dás valor.
Meu peito em ânsias só por ti suspira
Como da lira a vibrante voz!
Te vendo eu rio e senão gemendo
Vou padecendo saudade atroz!
Amor ardente de meu coração
Santa paixão em todo peito forte
Eu hei de amar-te até mesmo a vida
Deixar, querida, e abraçar a morte!
SOUSA, João da Cruz e. “Amor!!...”. In: Dispersos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 224.
Bondade
É a bondade que te faz formosa,
Que a alma te diviniza e transfigura;
É a bondade, a rosa da ternura,
Que te perfuma com perfume à rosa.
Teu ser angelical de luz bondosa
Verte em meu ser a mais sutil doçura,
Uma celeste, límpida frescura,
Um encanto, uma paz maravilhosa.
Eu afronto contigo os vampirismos,
Os corruptos e mórbidos abismos
Que em vão busquem tentar-me no Caminho.
Na suave, na doce claridade,
No consolo de amor dessa bondade
Bebo a tu’alma como etéreo vinho.
SOUSA, João da Cruz e. “ Bondade ”. In: Últimos sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 553.
Celeste
Vi-te crescer! tu eras a criança
Mais linda, mais gentil, mais delicada:
Tinhas no rosto as cores da alvorada
E o sol disperso pela loira trança.
Asas tinhas também, as da esperança...
E de tal sorte eras sutil e alada
Que parecias ave arrebatada
Na luz do Espaço onde a razão descansa!
Depois, então, fizeste-te menina,
Visão de amor, puríssima, divina,
Perante a qual ainda hoje me ajoelho.
Cresceste mais! És bela e moça agora...
Mais eu, que acompanhei toda essa aurora,
Sinto bem quanto estou ficando velho.
SOUSA, João da Cruz e. “ Celeste ”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 116.
Delírio do som
O Boabdil mais doce que um carinho,
O teu piano ebúrneo soluçava,
E cada nota, amor, que ele vibrava,
Era-me n’alma um sol desfeito em vinho.
Me parecia a música do arminho,
O perfume do lírio que cantava,
A estrela-d’alva que nos céus entoava
Uma canção dulcíssima baixinho.
Incomparável, teu piano – e eu cria
Ver-te no espaço, em fluidos de harmonia,
Bela, serena, vaporosa e nua;
Como as visões olímpicas do Reno,
Cantando ao ar um delicioso treno
Vago e dolente, com uns tons de lua.
SOUSA, João da Cruz e. “Delírio do som”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 103.
Dormindo
Pálida, bela,escultural, clorótica
Sobre o divã suavíssimo deitada,
Ela lembrava – a pálpebra cerrada –
Uma ilusão esplêndida de ótica.
A peregrina carnação das formas,
– o sensual e límpido contorno,
Tinham esse quê de avérnico e de morno,
Davam a Zola as mais corretas normas!...
Ela dormia como a Vênus casta
E a negra coma aveludada e basta
Lhe resvalava sobre o doce flanco…
Enquanto o luar – pela janela aberta –
– como uma vaga exclamação – incerta –
Entrava a flux – cascateado – branco!!...
SOUSA, João da Cruz e. “Dormindo”. In: O livro derradeiro. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 65.
Exilada
Bela viajante dos países frios
Não te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais – secretos,
– Os teus receios devem ser sombrios.
És branca e és loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sensíveis corações doentios.
Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.
Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucinações de um vinho triste…
SOUSA, João da Cruz e. “Exilada”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 108.
Ironia dos vermes
Eu imagino que és uma princesa
Morta na flor da castidade branca...
Que teu cortejo sepulcral arranca
Por tanta pompa espasmos de surpresa.
Que tu vais por um coche conduzida,
Por esquadrões flamívomos guardada,
Como carnal e virgem madrugada,
Bela das belas, sem mais sol, sem vida.
Que da Corte os luzidos Dignitários
Com seus aspectos marciais, bizarros,
Seguem-te após nos fagulhantes carros
E a excelsa cauda dos cortejos vários.
Que a tropa toda forma nos caminhos
Por onde irás passar indiferente;
Que há no semblante vão de toda a gente
Curiosidades que parecem vinhos.
Que os potentes canhões roucos atroam
O espaço claro de uma tarde suave,
E que tu vais, Lírio dos lírios e ave
Do Amor, por entre os sons que te coroam.
Que nas flores, nas sedas, nos veludos,
E nos cristais do féretro radiante,
Nos damascos do Oriente, na faiscante
Onda de tudo há longos prantos mudos.
Que do silêncio azul da imensidade,
Do perdão infinito dos Espaços
Tudo te dá os beijos e os abraços
Do seu adeus à tua Majestade.
Que de todas as coisas como Verbo
De saudades sem termo e de amargura,
Sai um adeus à tua formosura,
Num desolado sentimento acerbo.
Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,
Envolto em finas e cheirosas vestes,
Sob o carinho das Mansões celestes
Ficará pela Morte encarcerado.
Que o teu séquito é tal, tal a corte,
Tal o sol dos brasões, por toda a parte,
Que em vez da horrenda Morte suplantar-te
Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.
Mas dos faustos mortais a régia trompa,
Os grandes ouropeis, a real Quermesse,
Ah! tudo, tudo proclamar parece
Que hás de afinal apodrecer com pompa.
Como que foram feitos de luxúria
E gozo ideal teus funerais luxuosos
Para que os vermes, pouco escrupulosos,
Não te devorem com plebéia fúria.
Para que eles ao menos vendo as belas
Magnificências do teu corpo exausto
Mordam-te com cuidados e cautelas
Para o teu corpo apodrecer com fausto.
Para que possa apodrecer nas frias
Geleiras sepulcrais d’esquecimentos,
Nos mais augustos apodrecimentos,
Entre constelações e pedrarias.
Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!
SOUSA, João da Cruz e. “Ironia dos vermes”. In: Faróis. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 496.
Julieta dos Santos
É delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura...
É linda e alva como a neve pura,
Débil, franzina, divinal, nervosa!...
E dentre os lábios setinais, de rosa
Libram-se pérolas de nitente alvura...
E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve compleição mimosa!...
Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes,
Bem como um astro majestoso, helênio...
Sente-se n’alma as atrações potentes
Que só se operam ao fulgor do gênio,
Às rubras chispas ideais, ferventes!...
SOUSA, João da Cruz e. “Julieta dos Santos”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 377.
Lágrimas
Lágrimas tu! mulher encantadora!
Não te bastara então essa pobreza,
Era mister pagar à natureza
O tributo da dor esmagadora?
Era preciso à luta vencedora
Dar um quinhão de sangue de pureza
Cristalizado em lágrimas, na acesa
Voragem de uma vida aterradora?
Sim, todos nós andamos por calvários,
Deixando as almas, castos relicários,
Entre as brumas chorosas do desgosto.
Chora! e que eu beba, humílimo de rastros,
As lágrimas que choras, como uns astros,
Como estrelas no céu desse teu rosto.
SOUSA, João da Cruz e. “Lágrimas”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 142.
Madona da tristeza
Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.
Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e lágrimas estrela
O meu ser comovido e penitente.
Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza.
Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
Solitária Madona da Tristeza!
SOUSA, João da Cruz e. “Madona da tristeza”. In: Últimos sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 524.
Metempsicose
Agora, já que apodreceu a argila
Do teu corpo divino e sacrossanto;
Que embalsamaram de magoado pranto
A tua carne, na mudez tranquila,
Agora, que nos Céus, talvez, se asila
Aquela graça e luminoso encanto
De virginal e pálido amaranto
Entre a Harmonia que nos Céus desfila.
Que da morte o estupor macabro e feio
Congelou as magnólias do teu seio,
Por entre catalépticas visões…
Surge, Bela das Belas, na Beleza
Do transcendentalismo da Pureza,
Nas brancas, imortais Ressurreições!
SOUSA, João da Cruz e. “Metempsicose”. In: Fárois. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 501.
Morena dos olhos pretos
Morena dos olhos pretos
Dos olhos pretos, morena,
Escuta os vagos duetos
Morena dos olhos pretos,
Faremos, ambos, tercetos,
Com esta esfera serena,
Morena dos olhos pretos,
Dos olhos pretos, morena.
SOUSA, João da Cruz e. “Morena dos olhos pretos”. In: Dispersos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 225.
O desembarque de Julieta dos Santos
Chegou enfim, e o desembarque dela
Causou-me logo uma impressão divina!
É meiga, pura como sã bonina,
Nos olhos vivos doce luz revela!
É graciosa, sacudida e bela,
Não tem os gestos de qualquer menina:
Parece um gênio que seduz, fascina,
Tão atraente, singular é ela!
Chegou, enfim! eu murmurei contente!
Fez-se em minh’alma purpurina aurora,
O entusiasmo me brotou fervente!
Vimos-lhe apenas a construção sonora,
Vimos a larva, nada mais, somente
Falta-nos ver a borboleta agora!
SOUSA, João da Cruz e. “O desembarque de Julieta dos Santos ”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 78.
O final do guarani
(Santos, 15 jul., 1883)
Ceci – é a virgem loira das brancas harmonias,
A doce-flor-azul dos sonhos cor-de-rosa,
Peri – o índio ousado das bruscas fantasias,
O tigre dos sertões – de alma luminosa.
Amam-se com o amor indômito e latente
Que nunca foi traçado nem pode ser descrito.
Com esse amor selvagem que anda no infinito.
E brinca nos juncais – ao lado da serpente.
Porém... no lance extremo, o lance pavoroso,
Assim por entre a morte e os tons de um puro gozo,
Dos leques da palmeira à nota musical…
Vão ambos a sorrir, às águas arrojados,
Mansos como a luz, tranquilos, enlaçados
E perdem-se na noite serena do ideal!...
SOUSA, João da Cruz e. “O final do guarani”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 79.
Roma Pagã
Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.
O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilíneo,
Num doce tom de cor, esplêndido e sanguíneo,
Tinha o assombro da carne e a forma da serpente.
A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebúrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.
Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A púrpura do sangue e a púrpura dos vinhos.
SOUSA, João da Cruz e. “Roma Pagã”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 113.
Surdinas
Vais partir, vais partir que eu bem te vejo
Na branca face os gélidos suores,
Vais procurar as músicas melhores
Do sol, da glória e do celeste beijo.
Dentro de ti as harpas do desejo
Não vibram mais – embora que tu chores –
Nem pelas tuas aflições maiores
Se escuta um vago e enfraquecido arpejo…
Bem! vais partir, vais demandar esferas
Amplas de luz, feitas de primaveras,
Paisagens novas e amplidão florida…
Mas ao chegar-te a lágrima infinita,
Lembra-te ainda, ó pálida bonita,
De que houve alguém que te adorou na vida.
SOUSA, João da Cruz e. “Surdinas”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 87.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)