Padre José de Anchieta (1534-1597)
A santa Inês
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pola fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinho
de Iesu formoso,
mas o vosso espôso
já vos fêz rainha.
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa
vinda, lhe dais
lume novo.
II
Não é d'Alentejo
êste vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.
Morro porque vejo
que êste nosso povo
não anda faminto
dêste trigo novo.
Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.
Ela é mezinha
com que sara o
povo, que, com
vossa vinda, terá
trigo novo.
O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus
amastes Cantam:
Dêste vos fartastes
dêste dais ao povo:
porque deixe o
velho polo trigo
novo.
Não se vende em praça
êste pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.
Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!
Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem êle passa
é mui grande tolo.
Homem sem miolo,
qualquer dêste povo,
que não é faminto
dêste pão tão novo!
II
Cantam:
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Debaixo do sacramento,
em forma de pão de
trigo,
vos espera, como amigo,
com grande contentamento.
Ali tendes vosso assento.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito,
Ó virgem de grão respeito.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa de
Iesu, que é sumo rei.”
ANCHIETA, José de. “A santa Inês”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p.381-384.
Cantiga: por querendo o alto Deus
Amando-nos, a nós condenados,
Deus criou uma santa.
Mais linda que tôda a gente,
pela virtude a enalteceu.
Dizendo : " Que seja minha boa
mãe", de outra mulher fê-la nascer,
e amando-a, engrandeceu-a,
dotando-a dos maiores bens.
Chamou-se "Santa Maria", inimiga
do [mal],
verdadeira morada de Deus, filha de
[Deus]
criada para ser a mãe de Deus,
imortal, embora, senhor da existência
Nela se encarna o corpo de Deus,
e nasce de uma virgem.
Para extirpar nossas misérias, para nos
[visitar,
consente em ser um lindo menininho,
Maria é a mãe de Deus, que expulsa
o demônio inimigo, que é seu receio,
nossa companheira de lutas, no sa for-
[taleza,
nosso modêlo de virtude.
Amemos todos a Santa Maria
abrigando-a em nossos corações,
para que detenha o demónio, esma-
[gando-o,
desviando-nos do mal.
ANCHIETA, José de. “Cantiga: por querendo o alto Deus”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 554-555.
O pelote domingueiro
Já furtaram ao moleiro
o pelote domingueiro.
3. Se lho furtaram ou não,
bem nos pêsa a nós com isso!
Perdeu-se, com muito
viço, o pobre moleiro
Adão.
Lucifer, um mau
ladrão, lhe roubou todo
o dinheiro, co' o pelote
domingueiro!
10. Sem ter dêle
compaixão, lhe furtaram
o pelote.
Des que o viram sem
capote, não curaram
dêle, não.
Chora agora, com
razão, o coitado do
moleiro,
sem pelote domingueiro!
17. Êle, deram-lho de
graça, porque "Graça" se
chamava e com êle
passeava,
mui galante, pela praça.
Mas furtaram-lhe, à
ramaça, ao pobre do
moleiro,
o pelote domingueiro.
24. Era homem muito
honrado, quando logo lho
vestiram. Mas depois que
lho despiram, ficou vil e
desprezado.
Ó que sêda ! E que
brocado perdeste, pobre
moleiro, em perder teu
domingueiro!
31. Se quiseras moer
trigo do divino
mandamento,
dentro ao teu
entendimento não
passaras tal perigo.
Pois quiseste ser amigo
de ladrão tão sorrateiro,
andarás sem domingueiro.
38. Mui formoso trigo
tinha, que era a humana
natureza, mas moeu-o
tão depressa, que fêz
muito má farinha. E por
isso, tão azinha
apanharam ao moleiro
seu pelote domingueiro.
45. Era u'a peça, a mais
fina de tôdas quantas
tivera. S'êle bem o
defendera,
não jogaram de rapina.
A cobra ladra e malina,
com inveja do moleiro,
apanhou-lhe o domingueiro.
52. Tinha um monte de
botões em o quarto
dianteiro,
que lhe deram sem
dinheiro, que são os
divinos dões. Por menos
de dois tostões, foi o
parvo do moleiro
a vender tal domingueiro!
59. Era feito de tal
sorte que tôda a casa
vestia.
Em nenhum modo
podia furtar-se, senão
por morte. Foi morrer
embora forte pecando,
o pobre moleiro, e
ficou sem
domingueiro.
66. Os pobretes
cachopinhos ficaram
mortos de frio,
quando o pai, com
desvario, deu na lama
de focinho
Cercou todos os
caminhos o ladrão,
com seu bicheiro, e
rapou-lhe o
domingueiro.
73. A mulher que lhe foi
dada, cuidando furtar
maquias, com debates e
porfias
foi da graça maquiada.
Ela nua e esbulhada,
fêz furtar ao moleiro
o seu rico domingueiro.
80. Tôda bêbada do
vinho da soberba, que
tomou,
o moleiro derrubou
no limiar do moinho.
Acudiu o seu vizinho
Satanás, muito matreiro,
e rapou-lhe o domingueiro.
87. :Êle muito namorado
da soberba e inchação,
cuidou ter melhor gabão
e ser tido por letrado.
Mas achou-se salteado
o mofino elo moleiro,
sem pelote domingueiro.
94. Pareceu-lhe mui
galante a cachopa
embonecada
e que em ser sua
namorada, seria a Deus
semelhante.
Seu pai se lhe pôs diante
e, sem dote e sem
dinheiro, lhe rapou seu
domingueiro.
101. Parvo, por que te
perdias por tão feia
regateira?
Cuidavas que era moleira,
que furtava bem maquias?
Não houveste o que
querias, com ficar, por
derradeiro,
sem teu rico domingueiro.
108. Sua falsa gentileza
convidava-te a subir.
Tu quiseste consentir
e trepar muito depressa.
Deram-te pela cabeça
com um trocho de
salgueiro ... E perdeste o
domingueiro.
115. Quanto mais para ela
olhavas, parecia-te melhor,
e perdido por seu amor,
de ninguém te precatavas.
À porta, por onde
entravas, te esperou seu
companheiro, que rapou
teu domingueiro.
122. Êle soube-se ajudar
da mulher, tua parceira,
e fêz dela alcoviteira,
para em breve te enganar.
Tu, sem mais
considerar, lhe creste,
parvo moleiro, e
perdeste o
domingueiro.
129. Negros foram teus
amores pois tão negro te
deixaram e o pelote te
levaram
sem te dar nenhuns
penhôres senão fadigas e
dôres,
que terás, triste moleiro,
pois perdeste o
domingueiro.
136. Maochas qual
ficaria o moleiro
desastrado,
sem pelote tão honrado,
que tanto preço valia,
como é certo que diria:
"Que farás, ora,
moleiro, sem pelote
domingueiro?"
143. O pelote foi-lhe
dado para o domingo
somente, com que
vivesse contente, sem
fadiga e sem cuidado.
Agora, mui trabalhado,
geme o triste do
moleiro sem pelote
domingueiro.
150. Com o pelote
faltar, cessarão tôdas
as festas. Foi contado
com as bestas, para
sempre trabalhar.
S'isto bem quisera
olhar, o coitado do
moleiro
não perdera o domingueiro.
157. Êle como se viu
tal, escondeu-se de
seu amo, encobrindo-
se c'um ramo debaixo
d'um figueiral,
porque o ladrão
infernal, nos ramos
d'um macieiro lhe
rapou seu domingueiro.
164. Seu amo foi
espancá-lo com a raiva
que houve dêle,
e coberto com u'a pele,
fora de casa lançá-lo.
Não quis de todo
matá-lo, esperando
que o moleiro
cobraria o domingueiro.
Já tornaram ao moleiro
o pelote domingueiro.
173. O diabo lhe furtou
o pelote por enganos.
Mas, depois de muitos
anos, um seu neto lho
tornou.
Por isso, carne tomou
de uma filha do moleiro,
por pelote domingueiro.
180. Por querer ser mais
subido, não fêz conta do
pelote.
O seu neto, sem capote,
Jaz nas palhas,
encolhido, para ser
restituído
ao pobre do moleiro
seu pelote domingueiro.
187. Quais vestido
aparecer em pelote de
somana,
porque vem, com carne
humana, a trabalhos padecer
e no feno se envolver,
para tornar ao moleiro
seu pelote domingueiro.
194. Êle, por se
desmandar, do pelote foi
roubado.
O neto, d' além
mandado, vem o
furto restaurar.
Há-se de circuncidar
porque é neto do moleiro,
por tornar-lhe o
domingueiro.
201. Ditoso fôste em
achar, pobre moleiro, tal
filha,
que com nova maravilha
tal neto te foi gerar,
que do pano do tear
de tua filha, moleiro,
te tornou teu domingueiro.
208. Ó que boa
tecedeira, que tão fino
pano urdiu, com que a
culpa se cobriu do
moleiro e da moleira!
Com ficar a tela inteira,
fêz que ao pobre do
moleiro se tornasse o
domingueiro.
215. Esta soube bem
moer o trigo celestial,
em seu peito virginal,
ao tempo do conceber,
escolhendo escrava ser,
por que ao soberbo
moleiro se tornasse o
domingueiro.
222. Para o saio ser
perd'do, a mulher foi
medianeira Mulher foi
também terceira, para
ser restituído.
Fica agora enobrecido
o ditoso do moleiro
com tão rico domingueiro.
229. De graça lhe foi
tornado, mas custou muito
dinheiro ao neto, que foi
terceiro, para ser
desempenhado. Foi mui
caro resgatado (ditoso de
ti, moleiro!)
teu pelote domingueiro.
236. Trinta e três anos
andou, sem temer nenhum
perigo, moendo-se como
trigo, até que o
desempenhou. Com seu
sangue, resgatou para o
pobre do moleiro, o pelote
domingueiro.
243.É-vos êle
debruado com sêda de
muitas côres, que são
os golpes e dôres
com que agora foi
comprado. Fica muito
mais honrado que dantes,
o atafoneiro,
com tão fino domingueiro.
250. Se tinha muitos
botões o saio, na
dianteira,
tem agora, na traseira,
mais de cinco mil
cordões -os açoites e
vergões
com que o neto do
moleiro fêz tornar o
domingueiro.
257. Traz cinco botões
somente, mais formosos que
os primeiros, que são os
cinco agulheiros, que fêz a
maldita gente
em o corpo do inocente,
para tornar-se ao
moleiro tão galante
domingueiro.
264. Moleiro bem
escançado, que tal ventura
tiveste
(pois o saio, que
perdeste, de graça te
foi tornado),
se não fôra o enforcado,
puderas dizer, moleiro:
"Fogo viste, domingueiro".
271. Nem te bastara
poupar as maquias do
moinho,
nem deixar de beber
vinho, nem seis meses
jejuar,
para poder ajuntar
tanta soma de dinheiro,
que comprasses domingueiro.
278. Nem bastaram
petições em que foram
bem compostas, nem que
levaras às costas, muitos
sacos d'aflições.
Só as dôres e orações
dêste teu neto, moleiro,
ganharam o
domingueiro.
285. A êle foi
concedido
e por isso nu nasceu,
e depois, quando cresceu,
foi de púrpura vestido
e na cruz todo moído,
porque tu, pobre moleiro,
cobrasses teu domingueiro.
292. Já'gora podes sair
com pelote damascado,
d' alt' a baixo pespontado,
que a todos pode cobrir.
Já podes bailar e rir
e dar voltas em terreiro,
com tão fresco domingueiro.
299. Bem podes sempre trazê-lo
em domingo e dia santo,
e em somana, sem quebranto
que t'hajam ele dar por êlo,
bem cingido com ourela.
De justiça, bom moleiro,
guardarás teu domingueiro.
306. As moças já podem ter
amores de teu pelote,
e vestir-se tal chiote,
se formosas querem ser.
Já podem tôdas dizer:
"Viva o neto do moleiro,
que nos deu tal domingueiro!
313. Viva o segundo Adão,
que "Jesus" por nome tem!
Viva Jesus, nosso bem,
Jesus, nosso capitão!
Hoje, na circuncisão,
se tornou Jesus moleiro
por tornar o domingueiro."
ANCHIETA, José de. “O pelote domingueiro”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 399-408.
Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens
Diabo- Temos embargos, donzela,
a serdes dêste lugar.
Não me queiras agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em tôda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo- Ó peçonhento dragãoe pai de tôda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.
Diabo- Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir ! ...
Mal me podem resistü·
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair !
Anjo- Se caem, logo se levantam, e
outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com êles é.
Que com excessivo amor
lhes manda suas espôsas
- onze mil virgens formosas-,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena
a tua soberba inchada '
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo-Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo - Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo- Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Anjo-Ó traidor, aqui
jarás de pés e mãos
amarrado,
pois que perturbas a paz
dêste pueblo sossegado!
Diabo- Ó anjo, deixa-me já,
que tremo desta senhora!
Anjo- Com tanto que te vás
fora e nunca mais tornes cá.
Diabo- Ora seja na má
hora! (Indo-se, diz ao
povo )
O deixai-vos descansar
sôbre esta minha
promessa: eu darei
volta, depressa,
a vossas casas cercar
e quebrar-vos a cabeça!
II
Vila- Mais rica me vejo agora
que nunca dantes me vi,
pois que ter-vos mereci,
virgem mártir, por senhora.
O Senhor onipotente
me fêz grande benefício,
dando-me aquela
excelente legião da
esforçada gente
do grande mártir Maurício.
Neste dia
se dobra minha alegria
com vossa vinda,
Senhora. E, pois a
Capitania
hoje tem maior valia,
mais rica me vejo agora.
Com a perpétua memória
de vossa mui santa vida
e ela morte esclarecida,
com que alcançastes
vitória, morrendo sem
ser vencida,
serei mais favorecida,
pois vindes morar em
mi.
Porque, tendo-vos aqui,
fico mais enriquecida
que nunca dantes me vi.
Da Senhora da Vitória,
"Vitória" sou nomeada.
E, pois sou de vós amada,
d' onze mil virgens na glória
espero ser coroada.
Por vós sou alevantada
mais do que nunca subi,
para que, subindo assi,
não seja mai derrubada,
pois que ter-vos mereci.
Meus filhos ficam honrados
em vos terem por princesa,
porque, de sua baixeza,
por vós serão levantados
a ver a divina alteza.
Tudo temos,
pois que tendo a vós,
teremos a Deus, que
convosco mora,
e logo, des desta hora,
todos vos reconhecemos,
virgem mártir, por Senhora.
Um companheiro (2) de São
Mauricio vem ao caminho à
virgem, e diz:
Tôda esta Capitania,
virgem mártir gloriosa,
está cheia d' alegria,
pois recebe, neste dia,
u' a mãe tão piedosa.
Nós somos seus padroeiros,
com tôda nossa legião
dos tebanos cavaleiros,
soldados e companheiros
de Maurício Capitão.
Êle espera já por vós
e tem prestes a pousada
para, com vossa manada,
serdes, como somos nós,
dêste lugar advogada.
Úrsula- Para isso sou mandada.
E com vossa companhia,
faremos mui grossa armada,
com que seja bem guardada
a nossa capitania.
III
Ao entrar da igreja, fala São Mauricio
com São Vital (3), e diz:
Maurício- Não bastam fôrças humanas,
não digo para louvar,
mas nem para bem cuidar
as mercês tão soberanas
que, com amor singular,
Deus eterno,
abrindo o peito paterno,
faz a todo êste lugar,
para que possa escapar
do bravo fogo do inferno,
e salvação alcançar.
Ditosa capitania,
que o sumo Pai e Senhor
abraça com tanto amor,
aumentando cada dia
suas graças e favor!
Vital- Ditosa, por certo, é,
se não fôr desconhecida,
ordenando sua vida
de modo que junte a fé
com caridade incendida.
Porque as mercês divinais
então são agradecidas
quando os corações leais
ordenam bem suas vidas
conforme as leis celestiais.
Maurício- Bem dizeis, irmão Vital,
e, por isso, os sabedores
dizem que obras são
amores, com que seu
peito leal
mostram os bons amadores.
Vital- E dêstes, quantos cuidais
que se acham nesta terra?
Maurício- Muitos há, se bem
olhais, que contra os vícios
mortais
andam em perpétua guerra,
e guardando, com cuidado, a
lei de seu Criador,
mostram bem o fino amor
que têm, no peito
encerrado, de Iesu, seu
Salvador.
Vital-- Êstes tais sempre terão
lembrança do benefício
de terem por seu patrão,
com tôda nossa legião,
a vós, Capitão Maurício.
Maurício- Assim têm. E,
por isso, o sumo· bem
lhes manda aquelas
senhoras onze mil
virgens, que vêm
para conosco, também,
serem suas guardadoras.
Vital- Tão gloriosas donzelas
merecem ser mui honradas.
Maurício- E conosco
agasalhadas, pois que são
virgens tão belas, de martírio
coroadas!
Recebendo a virgem, diz:
Úrsula, grande princesa,
do sumo Deus mui
amada,
boa seja a vossa entrada,
grande pastora e cabeça
de tão formosa manada!
Úrsula- Salve, grande Capitão
Maurício, ele Deus querido!
Êste povo é defendido
3por vós e vossa legião
e nosso Deus mui servido.
Maurício- Sou dêle agora mandada a
ser vossa companheira.
Defensora e padroeira
desta gente tão honrada,
que segue nossa bandeira.
Nós dêles somos honrados,
êles guardados de nós.
Porque não sejamos sós,
serão agora ajudados
conosco também, de vós.
Úrsula- Se os nossos portuguêses
nos quiserem sempre honrar,
sentirão poucos reveses.
De inglêses e franceses
seguros podem estar.
Vital- Quem levantará pendão
contra seis mil cavaleiros
de nossa forte legião,
e contra o grande esquadrão
ele vossos onze milheiros?
Úrsula- Os três inimigos d' alma
começam a desmaiar.
E, pois tem êste lugar
nome de Vitória, e palma,
sempre deve triunfar.
Vitória- Isso é o que Deus quer.
Guardem êles seu mandado,
que nós teremos cuidado
de guardar e engrandecer
êste nosso povo amado.
Se quereis
aqui ficar, podereis.
Nem tendes melhor lugar
que aquêle santo altar
no qual, conosco, sereis
venerada sem cessar.
Úrsula- Seja assi !
Recolhamo-nos aí,
com nosso senhor Jesus,
por cujo amor padeci,
abraçada com a cruz
em que êle morreu por mi.
Levando-a ao altar, lhe cantam (4):
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito.
Ó virgem de grão respeito,
entrai ad altare Dei,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.”
ANCHIETA, José de. “Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens”. In: Poesias_: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 389-397.
Tupansy, santa Maria
O excelso pai Jesus
assusta nosso inimigo.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria
De nossa casa se aproxima sempre
o diabo, para nos escravizar.
Invocando nós a mãe de Deus,
ela o castiga severamente.
Sem nos ferir,
chama, assustando-o, o mau.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria.
Ao invocar-se Jesus, o maldito
foge medroso.
Ouvindo o nome da mãe de Deus
êle voa ele nós.
Maria o expulsa,
afastando as leis do demônio.
Ama-nos sempre,
Tupansy, Santa Maria
O inimigo de nossa alma
nos conspurca.
Dêle nos afasta Deus,
nosso verdadeiro pai.
Nos a Senhora açoita o demônio,
ela o faz correr, o amedronta.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria.
Tentando-nos, o mau
quer devorar nossa alma.
Lampeiro como um jaguar,
segue no nosso rasto.
Ó Maria, estás ouvindo?
É Jesus, que se aproxima.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria.
Atacando-nos freqüentemente
perturba o nosso entendimento
A bela Santa Maria
ameaça-o insistentemente.
Ela o ataca, o empurra,
assustando-o, ao seu fogo cruel.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria.
Êle arma as suas ciladas,
querendo forçar a entrada.
A mãe de Deus prende o mallito,
assalta o demônio.
Zune como o vento,
aproximando-se do arrogante.
Ama-nos muito,
Tupansy, Santa Maria.
ANCHIETA, José de. “Tupansy, santa Maria”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p.658-660.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)