Manuel Ferreira de Araújo Guimarães (Elmano Bahiense) (1777-1838)
Palinodia
Já, ó Nise, os meos enganos
Eu conheço socegado
Ah! Perdoa a hum desgraçado
O despreso, que mostrou.
Dos ferros, que me prendião
Me gabei de estar já fóra:
Enganei-me, pois agora!
Inda mais cativo estou.
Já extincto o fogo activo
Se inculcava soregado:
O mesmo semblante irado
Trabia minha paixão.
Mude, ou não a cor do rosto
De ouvir teo nome no instante
Que todos lêm no semblante,
O que está no coração.
Sempre acordado te vejo,
Ou se sonho alguma vez,
E onde mesmo tu não hes,
Minha alma te pensa ver.
Das tuas graças ausente
Em ternas ancias suspiro:
Se estás presente, deliro
De alvoroço, e de prazer.
Só de teos encantos falo
Mavioso, enternecido
Outra lembrança offendido
Me faz de repente irar.
Se alguém vejo de mim junto,
Te nomeio perturbado;
Do próprio rival ao lado
De ti costumo falar.
Ou mostres altiva o rosto,
Ou concedas terno agrado:
O teo despreso he baldado,
A minha defeza em vão
Só o teo imperio tem
Para mim docura usadas.
Da ventura a só estrada
Existe em teo coração.
O praser encaro triste,
E o tormento socegado
Se este por ti he causado,:
Se o outro vem sem teo favora.
Ri-se com tigo a campina,
Salta alegre a fonte pura,
A morada mais escura
Com tigo não causa horror
Ora vou falar sincéro ;
Não só me pareces bella,
Não só te conheço aquella
Sem par, sem comparação:
Mas inda arrastro as cadêas
Que em vão (por vintura minha)
Pensei já quebradas tinha,
Renunciando á viver.
Quiz minha alma evitar penas
Para mais aflicta ver-se;
Não mais quererá vencer-se,
Não pode tanto sofrer.
Passarinho, que se enlaçae.
Em trahidor visco, innocnte,
Em vão procura contentei
Libertar-se da prisão.
Esvôaça em curto espaço.
Mais apégão-se as peninhas;
De soltar-se das varinhas.
Não encontra ocasião.
Eu sinto. (qual tu não julgas)
Despertar-se o fogo antigo;
Quanto mais vezes o digo,
Tanto menos sei calar.
Loquaz propensão, ó Nise,
O amante á queixas convida;
Nas êeas a chama lida,
Gasta-se o tempo em falar.
Pragueja a Morte o soldado,
Se as suas feridas conta:
Mas eis que a bandeira aponta
Não lhe lembra o que apanhou.
O escravo estima os ferros
Em que saudoso gemia;
Ja se esquece, de alegria,
Do seo peso, que arrastou
Falo, mas só desabafo
Quando de ti me entretenho;
Não procuro novo empenho
A constância tu me dás.
Falo, mas, perdão procuro,
Se a expressão te não agrada:
Na posse a mais socegada
Da minha alma, ó Nise, estás.
A' hum peito não inconstante,
A' hum amante verdadeiro,
Ah! o teo amor primeiro
Venha outra vez consolar.
Nenhum engano achar pódes
Neste teo rendido amante;
Jamais huma alma inconstante,
Nise, em mim has de encontrar.
Da-me de paz hum penhor,
Da me, ó Nise, o coração,
E ouvirás cantar de amor
Quanto cantei de aversão
GUIMARÃES, Manuel Ferreira Araújo. “Palinodia”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.43-47.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)