Mário de Andrade (1893-1945)
Viuvita
Ela era mesmo bonita, muito moça
Esperando autobonde sozinha na esquina.
Todos os homens a encaravam sem respeito, desejando.
Vai, pra se livrar de tanta amolação
Ela fez esse gesto de moça que arranja chapéu,
Só pra mostrar a defesa que tinha no dedo, uma aliança.
A moça esqueceu que tinha duas alianças no dedo...
Por causa disso, os homens se aproximaram mais.
ANDRADE, Mário de. “Viuvita”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 231.
Sambinha
Vem duas costureirinhas pela rua das Palmeiras
Afobadas, braços dados, depressinha,
Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.
As costureirinhas vão explorando perigos…
Vestido é de seda.
Roupa-branca é de morim.
Falando conversas fiadas
As duas costureirinhas passam por mim.
- Você vai?
- Não vou não!
Parece que a rua parou pra escutá-las.
Nem os trilhos sapecas
Jogam mais bondes um pro outro.
E o sol da tardinha de abril
Espia entre as pálpebras crespas de duas nuvens.
As nuvens são vermelhas.
A tardinha é cor-de-ros
Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas…
Fizeram-me peito batendo
Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é…
Uma era ítalo-brasileira.
Outra era áfrico-brasileira.
Uma era branca.
Outra era preta.
ANDRADE, Mário de. “Sambinha”. In: Clã do jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p.233-234 .
VII
Maria
Passa pura neste mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
O nome dela é Maria.
Faz pouco telefonou
Falando que não iria
No chá da casa da amiga.
De vez em quando ela falta
Às festas de sociedade,
Arranja dor-de-cabeça
E outras desculpas assim.
Agora está no jardim
Toda de branco vestida.
O sol é um pintor das dúzias!
Diz-que pretende dourar
Aqueles cabelos curtos...
Não vê! só faz relumear
O preto daquele preto,
Que não tem nada mais preto
Que os cabelos de Maria!
Como é bonita! Seus olhos
São que nem jabuticabas.
E mesmo que o perfil dela
Seja um pouco duro, a gente
Assuntando aquele rosto
Que o rouge aviva mansinho,
A gente sente um sossego
De peito de passarinho.
A gente sente... meu Deus!
De deveras, um amor...
Que não é amor, é amorzinho
Feito de admiração.
Encanto de dia-santo!
Gosto que não dá desgosto!
Amor não! Veneração!
Se eu falasse que Maria
Traz um halo na cabeça,
Halo de santa moderna
Que maxixa e fala o inglês,
Muita gente se riria...
Pois se riam à vontade!
Maria traz na cabeça
O halo de Santa Maria!
É Shelley que está na moda,
E as mãos dela sobre a capa
Da edição de Oxford, orvalham
O couro negro macio
Com as gotas secas do brilho
Das unhas manicuradas.
Não quis mais ler porque livros
Não lhe dão a gostosura
Que tem vendo as travessuras
Dos filhinhos em redor.
Um fala que tem de ser
Chofer duma lincoln verde;
O outro inda não sabe, hesita
Entre médico e aviador;
O caçula... lá se amola
Em saber o que será!
É pecurrucho, não pensa,
Tem a instintiva sabença
De andorinha taperá:
Aonde faz quente, ele vai.
Gatinhando emigra bambo
Do colo da mãe pro pai,
Do colo do pai pra cama.
Agora dorme na grama
Sobre o pleide branco e preto.
Troca a noite pelo dia...
Junto dele a ama cochila,
No branco e preto de estilo.
... Que a champanha dos jantares,
Tal-e-qual a cobra preta,
Vem de-noite e chupa o leite
Da sem-seios da Maria…
E Maria, a outra filhinha,
Maria filha de Maria,
Parecida com Maria,
Essa emburrou porque o mano
Mais velho diz que não quer
Que ela beije a cara dele.
Há-de ser chofer da lincoln
E há-de viver toda a vida
Sem boquinha de mulher!
Maria se ri tranquila.
São anjos, não são? São anjos
Que não têm asas por baixo
Dos suéteres de listrão.
Já falam seu alemão
Com a governanta comprida,
Mas que são anjos? são anjos
Da boniteza da vida!
... Que anjos são estes
Que estão me arrodeando,
De-noite e de-dia...
Padre Nosso...
Ave, Maria!
ANDRADE, Mário de. “VII Maria”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 337-340.
IV
Poema Tridente
Vosso corpo seria encontrado nos desertos.
Sois tão linda... você é a Lei!
Você é tão mal contrária a essas mil leis humanas
Que avançam cegas insensíveis sobre o horror...
Você é tal-e-qual, bem polida,
Sem erros, cadencial.
Ôh besta fera maldita,
Você é mas é um braço esfomeado terminando em faísca de gládio,
Caindo aqui, varrendo além,
Voando, cego braço, aterrissando no meio das turbas,
Matando gente, depredando gente, inventando orfanatos,
Bandos de caravanas de leprosos,
Exílios pra judeus, pra paulistas, pra estudantada cubana,
Eu te amo de um amor educado no inferno!
Te mordo no peito até o sangue escorrer
Me dando socos, chorando, chamando de bruto, de cão,
O Grã Cão é o Mildiabo educado sozinho no inferno!
Nos debatemos, o braço esfomeado braceja,
Golpeia aqui, matou centenas de operários,
Queima cafezais, trigais, canaviais, desocupados,
Quebra os museus grandiosos,
Usa a lei de fugir pra estudantada cubana.
E no esforço sobrosso colhendo com o gládio o subsolo da Europa,
Abaixo os tiranos! abaixo Afonso XIII!
O mar fez maremoto, e convulsivos
Nos odiando no mesmo abraço confundidos,
Eleitos, desesperados na febre de amar,
Jorramos em lucilações fantásticas tremendas,
Todo o nosso ardor vai se esgotar na seiva!
Você é lindíssima! É polida e cadencial feito uma lei!
Mas eu sou o Grã Cão que te marquei um bocado com o crime dos mundos!
E agora nem de perdão carecemos
No mesmo abraço desaparecidos.
ANDRADE, Mário de. “IV Poema Tridente”. In: A costela do Grã Cão. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 433-434.
Ela é como o verão…
(Tempo da Maria)
(1926)
Ela é como o verão, e na escureza calma dos olhos dela
Relampeiam os entusiasmos sossegados da plenitude,
Eu a vejo de pedra, bem rija, de-pé,
Dura, no perfil duro, resplandecente sobre toda a criação.
Duro, reto, com a cabeça escondida nos pés dela,
Vejo um homem de bruços, abatido no chão.
Ele esconde naqueles pés imóveis os olhos sem sono
Porém não sabe mais chorar, esturricado pela insolação.
Careço que ela não tenha um gesto de piedade,
Careço que ela não chore de misericórdia,
Que não tenha uma palavrinha de consolação.
Porque tudo voltaria em reflorescimento novo,
Eu lhe falaria novamente os nossos insultos passados,
E seria insuportável a volta da humilhação.
Ela é como o verão...
Pois que seja a magrém, uma ensolarada magrém incomparável...
Careço que tudo pare, tudo seque, tudo morra em meu verão!
Careço que ela fique de pedra, bem rija, de-pé,
Dura, no perfil duro, resplandecendo sobre toda a criação!
ANDRADE, Mário de. “Ela é como o verão...”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 115.
Stella
Stella, você tem nome de ladainha,
não tem nome de gente, não;
quem pronuncia o nome de Stella
fica bonzinho, faz oração;
você é madona de Pernambuco
senhora dona do Ascenso,
está sentada ao pé da mangueira
por distintivo: coco na mão,
coco na mão!...
ANDRADE, Mário de. “Stella”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 161.
Os teus olhos distribuem
Os teus olhos distribuem
o que não existe aos meus:
As luzes que os meus possuem
São as migalhas dos teus.
Quem gasta no amor vinte anos
Menos amou, na alegria,
Do que quem ama um só dia
E morre de desenganos.
Teu sorriso é um jardineiro
Meu coração é um jardim;
Saudade! imenso canteiro
Que eu trago dentro de mim.
A semente dos teus olhos
Caiu no meu coração,
Deu uma árvore de abrolhos
e deu uma fruta – a paixão.
Quis plantar uma limeira,
O vento roubou-me o grão.
Teus sorrisos, feiticeira,
Roubaram-me o coração.
Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre, a cantar,
Eu, que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.
O amor é um barquinho esguio
Sulcando as ondas do mar;
— O amor não é como o rio
Que é fácil de atravessar.
Eu já chorei muitas vezes
Sem que a lágrima brotasse:
Os meus males não são nuvens
Que se esgotem pela face.
ANDRADE, Mário de. “Os teus olhos distribuem”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 214-215.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)