Mário de Andrade (1893-1945)
XV
Abro tua porta inda todo úmido do orvalho da manhã.
Estávamos tão bonitos hoje...
Os filhos dos fazendeiros
Os filhos dos italianos...
Tinha também alguns com a pele morena por demais
Como deve ser ridículo um negro passeando em Versalhes!
Detestável Paris!
Porém nós fazíamos a mesma raça,
Grande gente nova sem ódios,
Povo de trabalho e de aventura...
Novo-Continente, novo centro do mundo!...
Então vim, pra que me visses de farda.
Preguiçosa!
A estas horas amante de soldado já esqueceu o toucador!
Teus beijos serelepes novo orvalho sobre mim.
Teus olhos palpitantes e risadas
As tuas palmas infantis...
Me entristeci.
Vejo no espelho a medalha dos teus cabelos no meu peito.
O bonde grita engasgado nos trilhos da esquina.
Não ficarei.
Quando a primeira vez apareci fardado,
Duas lágrimas ariscas nos olhos de minha mãe.
ANDRADE, Mário de. “XV”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 155.
Toado da esquina
Pouco antes de meio-dia
Senti que vinha. Esperei.
Veio. Passou. Foi assim
Como se a lua passasse
Por essa picada estranha
Que viajo desde nascer.
A redoma toda verde
Do meu peito escureceu.
Noite de maio bondoso.
Lá vai a lua passando.
Há mesmo essa refração
Que me bota no pescoço
O cachecol da Via-Látea
E a lua na minha mão.
Mas quando quero gozar
O belo tátil do luar,
E passo a mão sobre os dedos...
Tenho que desiludir-me.
Foi mentira dos sentidos,
Foi o orvalho. Nada mais.
Veio. Passou. Foi assim
Como se a lua…
Suspiro talqual na infância.
– Que queres, Mário? – Mamãe,
Quero a lua! – Hoje é impossível,
Já vai longe. Tem paciência,
Te dou a lua amanhã.
E espero. Esperas... Espera…
– Pinhões!
ANDRADE, Mário de. “Toado da esquina”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 202-203.
Moda da cadeia de Porto Alegre
Á Mário Pedrosa
Dona Rita amouxa em casa
Uma porção da riqueza
Que o marido, que Deus tenha!
Por amor dela ajuntou.
A riqueza de que falo
É cobres, porque dos filhos
Só um mocinho não gorou.
Apesar dessa família
Já grande, em pleno viçor,
Quando ela pensa em gatunos
Corre pela espinha dela
Uma friagem de horror.
Também não tem na cidade
Correição de segurança
Adonde gatuno que entra
Perde pra sempre a esperança
De outra vez ir gatunar.
Dona Rita passa as noites
Sem dormir, sem descansar.
Qualquer barulhinho a pobre
Levanta, vai assuntar.
Pois então ela resolve,
Gasta mas gasta pra bem:
Faz construir uma cadeia
Que mais segura não tem
Por este grande Brasil.
Era mesmo um casarão
Alvo que nem tabatinga,
Com tanta grade tamanha
Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear
Lá no largo da Cadeia
Mas porém se espera um preso
Pra estreia da correição.
Agora o filho entra tarde.
Dona Rita sossegada
Costura, pesponta meias
Enquanto sono não vem.
Só de pensar na cadeia
Dona Rita dorme bem.
Foi então que numa festa
Já quase de-manhãzinha
O filho de dona Rita
Botou seis tiros no peito
De outro moço, rival dele
Nuns negócios de paixão.
Estrearam a correição.
Dona Rita não foi ver.
Definha que não definha,
Durou uns pares de meses,
Afinal veio a morrer.
Falam também que de-noite
O carcereiro rondando
Escuta pelo caminho
O choro de dona Rita
Gemendo devagarzinho…
Mas isso de assombração
Só quem vê é que acredita...
ANDRADE, Mário de. “Moda da cadeia de Porto Alegre”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 277-279.
Maria
Passa pura neste mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
O nome dela é Maria.
Faz pouco telefonou
Falando que não iria
No chá da casa da amiga.
De vez em quando ela falta
Às festas de sociedade,
Arranja dor-de-cabeça
E outras desculpas assim.
Agora está no jardim
Toda de branco vestida.
O sol é um pintor das dúzias!
Diz-que pretende dourar
Aqueles cabelos curtos...
Não vê! só faz relumear
O preto daquele preto,
Que não tem nada mais preto
Que os cabelos de Maria!
Como é bonita! Seus olhos
São que nem jabuticabas.
E mesmo que o perfil dela
Seja um pouco duro, a gente
Assuntando aquele rosto
Que o rouge aviva mansinho,
A gente sente um sossego
De peito de passarinho.
A gente sente... meu Deus!
De deveras, um amor...
Que não é amor, é amorzinho
Feito de admiração.
Encanto de dia-santo!
Gosto que não dá desgosto!
Amor não! Veneração!
Se eu falasse que Maria
Traz um halo na cabeça,
Halo de santa moderna
Que maxixa e fala o inglês,
Muita gente se riria...
Pois se riam à vontade!
Maria traz na cabeça
O halo de Santa Maria!
É Shelley que está na moda,
E as mãos dela sobre a capa
Da edição de Oxford, orvalham
O couro negro macio
Com as gotas secas do brilho
Das unhas manicuradas.
Não quis mais ler porque livros
Não lhe dão a gostosura
Que tem vendo as travessuras
Dos filhinhos em redor.
Um fala que tem de ser
Chofer duma lincoln verde;
O outro inda não sabe, hesita
Entre médico e aviador;
O caçula... lá se amola
Em saber o que será!
É pecurrucho, não pensa,
Tem a instintiva sabença
De andorinha taperá:
Aonde faz quente, ele vai.
Gatinhando emigra bambo
Do colo da mãe pro pai,
Do colo do pai pra cama.
Agora dorme na grama
Sobre o pleide branco e preto.
Troca a noite pelo dia...
Junto dele a ama cochila,
No branco e preto de estilo.
... Que a champanha dos jantares,
Tal-e-qual a cobra preta,
Vem de-noite e chupa o leite
Da sem-seios da Maria…
E Maria, a outra filhinha,
Maria filha de Maria,
Parecida com Maria,
Essa emburrou porque o mano
Mais velho diz que não quer
Que ela beije a cara dele.
Há-de ser chofer da lincoln
E há-de viver toda a vida
Sem boquinha de mulher!
Maria se ri tranquila.
São anjos, não são? São anjos
Que não têm asas por baixo
Dos suéteres de listrão.
Já falam seu alemão
Com a governanta comprida,
Mas que são anjos? são anjos
Da boniteza da vida!
... Que anjos são estes
Que estão me arrodeando,
De-noite e de-dia...
Padre Nosso...
Ave, Maria!
ANDRADE, Mário de. “Maria”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 337-340.
Mãe
Existirem mães,
Isso é um caso sério.
Afirmam que a mãe
Atrapalha tudo,
É fato, ela prende
Os erros da gente,
E era bem melhor
Não existir mãe.
Mas em todo caso
Quando a vida está
Mais dura, mais vida,
Ninguém como a mãe
Pra aguentar a gente
Escondendo a cara
Entre os joelhos dela.
O que você tem?...
Ela bem que sabe
Porém a pergunta
É pra disfarçar.
Você mente muito,
Ela faz que aceita,
E a desgraça vira
Mistério pra dois.
Não vê que uma amante
Nem outra mulher
Entende a verdade
Que a gente confessa
Por trás das mentiras!
Só mesmo uma mãe...
Só mesmo essa dona
Que a-pesar-de ter
A cara raivosa
Do filho entre os seios,
Marcando-lhe a carne,
Sentindo-lhe os cheiros,
Permanece virgem,
E o filho também...
Ôh virgens, perdei-vos,
Pra terdes direito
A essa virgindade
Que só as mães têm!
ANDRADE, Mário de. “Mãe”. In: A costela do Grã Cão. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 414-415.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)