Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Manuel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)


Marca d'água

Epistola

 


Genio fecundo e raro, que com polidos versos
A natureza pintas em quadros mil diversos:
Que sabes agradar, e ensinas por seo turno
A lingua, que convem ao tragico cothurno:
Teo pegaso não vôa furioso, e desbocado,
A’ lançar se das nuvens no mar precipiatado
Nem piza humilde o pó; mas por hum nobre meio
Sente a dourada espora, conhece a mão, e o freio:
Tu sabes evitar se hum tronco, ou jaspe animas
Do sombrio hespanhol ou góticos enigmas,
Que inda entre nós abortão alentos dissolutos,
Verdes indignações, escandalos corruptos.
Tu revolves, e excitas, conforme as occasiões,
Do humano coração a origem das paixões.
Quem vê girar a Serpe da irmã no casto seio,
Pasma, e de ira, e temor ao mesmo tempo cheio
Resolve, espera, teme, vacilla, géla e córa,
Consulta o seo amor, e o seo dever ignora
Vóa a farpada setta da mão, que não se engana:
Mas ai, que já não vives, ó misera Indiana!
Usarás Catullo na morte de quem amas
D’alambicadas frazes, e agudos epigrammas?
Ou dirás como he crivel, que em magoa tão sentida
Os eixos permaneçam da fabrica luzida?
Da simples natureza guardemos sempre as leis
Para mover-me ao pranto convem que vós choreis.
Quem estuda o que diz, na pena não se iguala
Ao que de magoa, e dor geme, suspira e cala
Tu sabes os empregos, que huma alma nobre busca,
E aquelles, que são dignos do mandrião Patusca,
Que alegre em boa paz, corado e bem disposto,
Insensível á tudo não muda a cor do rosto;
Nem se esquece entre sustos, gemidos, e desmaios
Do vinho, do prezunto, dos saborosos paios.
Tu espaihando as flores a tempos, e em seo logar,
Deixas ver toda a luz sem a querer mostrar.
Indiscreta vangloria aquella, que me obriga
Por teima de rimar a que em meo verso diga
Quanto vi, quanto sei, e ainda he necessario
Mil vezes folhear hum grosso diccionario.
Se a minha Musa esteril não vem sendo chamada
Debalde he trabalhar, pois não virá forçada.
Se eu vou fallar de jogos, só por dizer florais.
Maratonios, Circenses, Pythicos, Jovenaes,
O critico inflexivel ao ver esta arrogancia
Conhece-me a pobreza, e ri-se da abundancia.
Quem cego d’amor proprio colerico s’accende,
E monstruosos partos porque são seos defende,
Sua, braceja, grita, e já despois de rouco
Abre huma grande boca para mostrar que he louco:
Fórma imagens de fumo, phantasticas pinturas,
E sonhando c’as Musas em raras aventuras
Vai ao Pindo n’hum salto de lira, e de coroa:
Nascem-lhes as curtas pennas, e novo Cysne vôa:
Igual ao Cavalleiro, que a grossa lança enresta,
C’o elmo de manbrino sobre a enrugada testa,
Vai á região do fogo n’hum banco escarranchado,
D’onde traz os bigodes, e o pello chamuscado.

Se cheio de si mesmo por hum capricho vão
Tem por desdouro o hir por onde os outros vão,
He c’ o dedo apontado famoso delirante,
Que por buscar o bello, cahio no extravagante:
Bem como o passageiro, que seo gosto o atalho não sabido,
Perdeo-se, deo mil giros, andou o dia inteiro,
E foi cahir de noite em sordido atoleiro.
Ea aborreço a plebe dos magros rimadores,
De insipidos Poemas estupidos autores,
Que freneticos suão sem gosto, nem proveito,
Amontoando frazes á torto, e a direito:
Vem o louro Mondego por entre as Nimphas bellas,
Que de flores enlação grinaldas, e capellas:

Surgem de verde seio da escuma crespa, e alva,
Do velho Douro as cans, do sacro Tejo a calva.
Escondei-vos das ondas no leito cristalino,
E sahi menos vezes do Reino Neptuno:
O que fez vulgar perdeo a estimação:
E algum rapaz travesso vos póde alçando a mão
Cobrir d’arêa e lama, por que sirvaes de rizo
A’ turba petulante da gente ainda sem sizo.
Se fala hum Deos Marinho, e vem a borbotões
Amêijoas, e perseves, ostras, e berbigões:
Se os languidos Soneto manquejão encostados
A’s flautas, aos surroes, Pellicos, e Cajados:
Minha Musa em furor o peito me enche d’ira
E o negro fel derrama nos versos, que me inspira.

Autor, que por acaso fizeste hum terno Idilio,
Não te julgueis por isso Theocrito, ou Virgilio:
Não creas no louvor de hum verso, que recitas,
Teme a funesta sorte dos Meliseos e Quitas:
Que muitos aplaudiram quinhentos mil defeitos
Nos papeis, que hoje embrulhão adubos, e confeitos.
Se o casquilho ignorante, com voz enternecida,
Repete os teos Sonetos á Dama presumida,
Por mais que ella te aclame bravissimo Poeta,
Da espinhosa carreira não tens tocado a meta:
Pois tarde, e muito tarde por hum favor Divino
Nasce por entre nós quem de coroa he dino.
Quem sóbe mal seguro, tem gosto de cahir,
E a nossa idade he fertil de assuntos para rir.
Equivocos malvados, frivolos trocadilhos,
Vós do pessimo gosto os mais presados filhos,
Deixais ao Genio Luso desempedida a estrada,
Ou Boileau contra vós torne a empunhar a espada.
Mas onde, meu Termindo, onde me leva o zelo
Do bom gosto nascente? O novo, o grande, o bello
Respire em tuas obras, em quanto eu fito a vista
No rimador grosseiro, no misero copista,
Tantalo desgraçado, faminto de louvor,
Que em vão mendiga aplausos do vulgo adorador .
Do Throno Regio, Augustos, Benigno hum Astro brilha
Entre esperança, amor, respeito, e maravilha:
E á clara luz, que nasce do Ceptro, e da Coroa,
Grande se mostra ao mundo, nova, immortal Lisboa:
Se ella o terror levou nas voadoras faias
Por incognitos mares á nunca vistas praias,

Se entre nuvens de settas ao meio dos alfaganes
Foi arrancar as palmas, que ainda chora o Ganges,
Da paz no amavel seio, á sombra dos seus louros
Hoje aplana os caminhos aos seculos vindouros:
A gloria da Nação se eleva, e se assegura
Nas letras, no comercio, nas armas, na cultura.
Nascem as artes bellas, e o raio ds verdade
Derrama sobre nós a sua claridade.
Vai tudo á florecer, e por que o povo estude
Renasce nos Theatros a escola da virtude.
Consulta, Amigo, o genio, que mais em ti domine:
Tu pódes ser Moliere, tu podes ser Racine.
Marquezes tem Lisboa, se Cardeais Pariz:
José pode fazer mais do que fez Luiz.


ALVARENGA, Manuel I. da Silva. “Epistola”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)