Cantos Populares do Brasil (1883)
Eu plantei canna de sóca
Eu plantei canoa ele sóca
Por ser a de lavrador,
Nunca vi fonte sem limo,
Nem donzella sem amor.
Pegai n'estes vossos olhos,
Botai-os n'um poço fundo,
Que olhos que vêm e não logram
Para que vivem no mundo?
Os peitinhos de meu bem
Não se lavam com sabão,
Mas é com agua de cheim,
Agua de meu coração.
ROMERO, Sylvio (org.). “Eu plantei canna de sóca”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 247.
Manoel do ó Bernardo
Indo eu para a novena
Na villa da Floresta,
O major Antonio Lucas
Convidou me para a festa.
« Seu major Antonio Lucas,
Como é que eu hei de ir?
Quem anda por terra alheia
Não tem roupa p'ra vestir.
- Dou-te cavallo de sella,
E roupa p'ra te vestir,
Dinheiro para comeres,
Escravo p'ra te servir.
Estava jantando em casa
Um dia bem descansado,
Quando dei fé que chegava
Um cavallo fino sellado:
«Seu major manda dizer
Que é já tempo do chamado ! »
Quando sahi de casa
Logo peguei a encontrar,
Era homens e mulheres ...
- «Vai cantar com Rio-Preto?
É melhor que não vá lá! ... »
Porque se importa esta gente
Da desgraça que commetto?
Hão de ter logo noticia
Que fim levou Rio-Preto.
Quando ganhei lá por dentro
N'aquelle campo mais largo,
O povo que eu encontrava
De mim ficava pasmado:
« Queira Deus este não seja
Manoel do ó Bernard! »
Distante bem quinze leguas
De mim tiveram noticias ;
Ao major Antonio Lucas ·
Quando elle me enxergou,
Botou oclo de arcance :
«Lá vem o meu cantador!»
Quando fui chegando em casa,
Na entrada do terreiro,
Antes de lhe dizer adeus,
Deu-me um abraço primeiro:
-Ora vem cá, ó Bernardo,
Filho ele Deus verdadeiro.
«Seu major Antonio Lucas,
Me mande dar ele cear;
Quero vêr si Rio-Preto
Inda é forte no lugar. »
Elle puxou pelo braço
E mandou botar a ceia;
Eu fiquei agradecido,
Pois estava em terra alheia . .
Ao levantar a toalha,
Puz as mãos para rezar,
Quando chegou um aviso
Que já vinham me chamar.
Eu sabi logo á fresca,
Rio-Preto me fallou.
Não te afastes, Rio-Preto,
A resposta já te dou.
« -Manoel do ó Bernardo,
Olha que já estou previsto,
Segura o botão da calça,
Aqui tens homem na vista.
«Rio Preto, tu vigia,
Olha que bom não sou, não,
Aperta o botão da calça,
Segura o cós elo calção.
«- A onça não faz carniça
Que não lhe coma a cabeça,
Nunca vi a cantador
Que por fóra não conheça.
«A pois manda fazer uma
Com seis braças de fundura;
Como é bicho de represa,
Tanto lava como fura.
Quando vim da minha terra
Truce ferro cavador
Para tapar Rio-Preto,
Deixal-o sem sangrador.
«-Si tapares o meu rio,
Não tapas o meu riacho,
Que eu represo nove leguas,
Botando a parede abaixo.
« Rio-Preto, si tu vires
Eu passear em gangorras,
Si tu vires, não te assustes,
Si te assustares, não corras ;
Si correres, não te assombres;
Si te assombrares, não morras.
Rio-Preto, não me vexo
Para subir a ladeira,
Subo de cócra e de banda,
Subo de toda a maneira;
Até mostro preferencia
Em subil-a na carreira.
« -Manoel do ó Bernardo,
Olha, já me vou cl 'aqui;
Já estou certificado
Que tens o major por ti.
«O fama do Rio-Preto,
Um cabra tão cantador,
Descobriu por bocca propria
Que era atraiçoador.
«- Manoel do ó Bernardo,
Reza o acto de contrição,
Que viemos te matar,
Não ficas mais vivo, não.
A madrinha da noiva
Foi quem te mandou matar,
Para de outra donzella
Te não ires mais gabar.
« A madrinha do noivado,
Por ser moça de acção,
Por um elogio tirado
Deu-me a mim um patacão ;
Deu quatro para o meu bolso,
E quatro p'ra minha mão.
ROMERO, Sylvio (org.). “Manoel do Ó Bernardo”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 54.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)