A mãe escrava
Numa tarde em que o sol brilhava esplêndido
No céo belo e azul do meu paiz,
Chegou pobre escrava onde eu me achava
E prostrada a meus pés, eis que me diz:
“Sinhazinha, sou livre ... meu senhor
Me deu minha carta ... sim, agora...
– se assim é, perguntei, o que lhe aflige,
Porque treme a falar, porque é que chora?!
Humilde como era ergueu a vista;
Seu olhar era triste que doía!
Feria a consciência de quem quer
Que pudesse afrontar tanta agonia!
“Roubaram meus filhos... estão a bordo...
Hoje mesmo o vapor levanta o ferro
Levando o meu Vicente... a minha Lúcia
Eis porque hoje aqui chorando erro.
“Sinhazinha por Deus antes queria
Como outr’ora cativa e maltratada
Tê-los juntos de mim, pois ora sinto
Que era assim muito menos desgraçada.
“Estou velha e cansada, já não posso
Suportar este golpe, a crueldade!
Vou morrer de pesar ... eu por tal preço
Não queria esta inútil liberdade...
E a triste chorando se estorcia
Com a face no pó do pavimento!
Era a dor d’uma mãe. Quem não respeita
Esta flor imortal do sentimento?!
Mas daquela infeliz tantos soluços
Não tocou n’este mundo a mais ninguém,
Ah! Só eu partilhei de sua dor...
E por vê-la chorar, chorei também.
Desde então quando via numa praça
Os escravos marchando para o mercado,
Minh’alma sentia em desespero
E soltava de horror meu triste brado.
FREITAS, Emília de. “A mãe escrava”. In: Canções do lar, p. 17-18, 1891.