Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

José Basílio da Gama (1740-1795)


Marca d'água

A ilustre O’ Neille pergunta que cousa sejão saudades.

Musa, basta de silencio,
Quer linda O'Neille escutar-nos,
á sua amável grandeza,
Seria crime escusar-nos.

Limpo as ferrugentas cordas ;
Mas desmaia o coração ;
E ao pensar no excelso Nome,
Me cahe a lira da mão.

He esta a que em berço augusto
Graças, e Musas dotarão,
E á quem Artes, e Sciencias,
A docil razão guiarão.

He esta a Britana Sapho,
A quem rendem vassalage,
Com Dacier erudita,
A suave du Bocage:

Qu'estuda o Homem com Pope»
Com Robertson dê-o Mundo,
Ri com Swift engraçado,
E segue a Newton profundo.

Co's ouvidos costumados
A'meigas rozes sonoras,
Porque tem seu lugar proprio
Putre as Aonias cantoras

Como poderá ouvir
Os meos roucos gritos vãos,
Sem tapar sabios ouvidos,
Com as jasminadas mãos?

Não he do Tamisa hum Cisne,
Que vai soltar doce canto;
Brasileiro Papagaio
De arremedo a voz levanto.

Tinha razão de callar-me,
Deveria emmudecer,
Mas se O'Neille quer q'eu falle;
He virtude obedecer.

Em fim, Musa, obedeçamos
Basta já de dar disculpa,
Porq' o muito disculpar,
Tambem ás vezes he culpa.

Pois saber o que he saudade,
Gentil D' Neille, careces,
Vou talvez dizer-te hum mal,
Que sofres, e não conheces.

Dirao huns q' he sentimento,
Que só Portuguezes tem ;
E q’ importa falte aos outros,
Vozes qu’ o expliquem bem?

Mas eu, Senhora; não quero
Iludir vossa grandeza:
Saudade, he nome qu’ explica
Triste mal da Natureza.

Filha da cruel ausência
He essa terna paixão,
Que se nutre de esperanças
No sensível coração.

De lembranças, e desejos,
Tristemente acompanhada,
Punge, e fere huma alma terna,
Do amado bem separada;

Por exemplo dividida
Da tua cara metade,
Toda essa falta que sentes,
Isso, O' Neille, he qu' he saudade.

Em meio de mil prazeres
Sempre esta paixão he triste,
E á seu intimo tormento,
Nenhuma cousa resiste:

Obriga á lagrimas tristes,
Obriga á sentidos ais,
Nem só humanos obriga,
Inda á brutos animais.

Ouve o saudoso gorgeio
Da amorosa Philomela
Quantas. vezes te interneces
Co' a triste saudade della ?

O aureo collo entumecendo
Arrulando o pombo aflito,
Tenra esposa que lhe falta
Chama em seo saudoso gritos

Bravo sanhudo Leão,
A madeicha sacudindo,
Se a cara Leôa prendem,
Os campos corre bramindo.

Traz estes males Amor ;
Porém a doce Amizade
Não deixa de ter também
A doença da saudade.

Tu, que a memoria tens chêa
De mil sucessos antigos,
Escusas qu' eu te reconte,
Tristes saudosos amigos,

Do teu Augusto Ricardo.
Te lembre a celebre historia,
E vê do amigo saudoso,
Qual seja a honrada memória

Tambem de fido animal,
Que seo on senhor perdeo,
Se conta que de saudades,
Junto ao sepulcro morreo.

He de temer este mal,
O tempo o torna mais forte,
E em lhe faltando a esperança,
Bem depressa he mal de morte.

Basta, Senhora: ja sabes,
Q' em fim saudade' só he
Q sentimento q hum soffre,
Quando o que estimá não vé

Tu qu' onde quer qu' appareces,
Causas Amor, e Amizade,
Terás dado (eu não duvido)
Motivo é muita saudade.


GAMA, José Basílio da. “A ilustre O’ Neille pergunta que cousa sejão saudades.”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 38-41.

 


Marca d'água

Canto único

De ti, a Lira e o loirola Archadia fia
Nao invilecas nunca o dom sagrado,
Canta do Pai da Patria assim dizia.
Com a tremula voz o Velho honrado
Quando junto do Tibre, que o ouvia:
Sobre tropheos antigos reclinado,
Cingio na minha frente o verde loiro,
E poz nas minhas mãos a Lira d'oiro.

Amada Lira, se o teo doce accento
Abala troncos, e levanta muros,
Eufrea as ondas , adormece o vento
E abranda os corações dos Tigres duros:
Acompanha o meo novo atrevimento,
Faze-te ouvir nos seculos futuros,
Se te assusta hir com migo aos pés do Thronio,
Instrumento infeliz, busca outro dono.
Pôde hum Heroe no berço recostado
Despedarar co’ as maos Dragoes torcidos
Romper da eterna noite o horror sagrado
Mostrar a luz ao cão dos trez batidos o soy con/
E hum dos joelhos sebre o chao firmado,
Os braços pelas nuvens estendidos,
Sustentar elle só cheio de assombros
Todo o pezo do Ceo sobre os seos hombros.

Pode depois de longa resistência
Ver á seos pés o susto do Erimanto,
Dar bum asilo á timida inocencia
Na terra, e o crime encher de horror e espanto;
Possuir os thesoiros da eloquência,
Quem cuidou que os mortaes podião tanto?
Pôde Pombal... O Grecia, não duvides;
E tu cuidavas cantava Aluides?

Afóga as serpes Indiano ousado,
E os feroces Leões co' agarra erguidas
De curto ferro e de destreza armado.
lanca por terra o CaçadorvNumida;
Porém contra as Estinges, que rasgado
Tem no seio da Europa alta feridas
Deo o Ceo hum Herne aos Portuguezes,
Dadiva, que o Ceo dá bem raras vezes

Europa, envo've o rosto em negro mantos
Ti viste o crime nos altares posto,
E viste o Irmão, da Irmã, banhado em pranto
O peito virginal rasgar com gosto;
Consagrar o punhal no Templo Santo
Para depois ferir. voltando o rosto
De velhos Paes, os filhos innocentes
Tanto a superstição pode nas gentes!.

Infama agora hum povo de guerreiros,
Vomita essas injurias, que tens prontas,
Porque entornava o sangue dos cordeiros,
Ou porque á branca res dourava as pontas,
Os barbaros do mundo derradeiros

Se a Lusitania diz em seo abono
Que não teme que a guerra hoje a destrúa:
Se são a Fé, e o amor guardas do Throno,
Grande Marquez, a gloria he toda tua.
Ninguem perturba da inocencia o sono,
povos a verdade nua
O Sacerdote em candidos restidos,
As mãos, e os olhes para os Ceos erguidos.

O Lavrador co' as uvas enlaçadas
Entóa em teo louvor alegre o hymnos
Responde o cégador co às nãos doiradas
De seo nobre suor tributo dino,
Aos gelos Boreaes, ao Ponto Euxino,
Fogem de nós as guerras sanguinosas,
Detestadas das Mães e das Esposas.

No capacete a abelha os favos cria,
Curva-se em fouce a espada reluzeute,
O insecto industrioso as roupas fia,
Outras fia a Serrana diligente;
Manda ao Tejo brilhante pedraria
ultimo Occaso, o ultimo Oriente
Ao lejo manda perolas redondas
Arbitro antigo das ceruleas ondas

Formoso Tejo, que do Patrio assento.
Respeitado das Tropas do inimigo,.
Vês ondear á discrição do vento
No Elmo as plumas, na Seara o trigo:
Reconhece do Throno o firmamento
ao Grande Marquez, e os pés lhe beja..

Depois ao mar, que vio o caso triste
Que a cinzas reduzio Lisboa inteira,
Pinta a nova Lisboa, e que lhe ouviste.
Que nao tinha saudades da primeira;
Conta-lhe a doce paz, dize que a viste..
De Carvalho e pacifica Oliveira
Enramadas as torres, e altos muros,
Ir pôr as mãos sobre os altares puros.


GAMA, José Basílio da. “Canto único”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.31-34.

 


Marca d'água

Epitlamio

Nimpha d'esta aspereza ao Ceo visinha,
Cingi-me a fronte de arrojado, loiro
Torne a correr a mão cansada minha
Com plectro de marfim as cordas d’oiro;
Ouça dos sete montes a Rainha
Amor na minha Cythara se esconda
E Amalia, Amalia o ecco me responda.

Vejo Cisnes de pennas prateadas
Trazer do Ceo sobre o fecundo,
Fitas de roza no pescoço atadas;
Estrellas d'oiro no encrespado peito.
Ja dão caminho as, nuvens enroladas
Ja sente a terra o amoroso efeito:
Deixa rastros de luz no ar; que trilha.
A bella Deosa das escumas filha

Vem,ó Santo Hymineo, desce dos ares
Coroado de Lirios e de rosas,
Rodêem teos purissimos altares
Do Tejo as mansas águas vagarosas,
D'estes bosques os Deoses tutelares
Ornando as tranças negras e, formosas,
Hirao co' as nuas graças e os amores
Pelo chão espalhando as brancas flores:

Esposo afortunado, em quem tem posto
A Patria as suas doces esperanças,
No meio dos aplausos e do gosto
Ah! conhece o que logras e o que alcanças.
A fortuna, que á tantos vira o rosto
Te poem na mao fugitivas trancas ,
Premio do teo amor, a Deosa cega
Quanto te pode dar tudo. te entrega.

Estas faces mimosas e serenas,
A boca onde se forma o doce encanto,
Causa de tanto susto e tantas penas,
Os olhos que enche o vergonhoso pranto,
A garganta de neve e de assucenas
Tão desejada e suspirada tanto:
Olha os signaes da doce magua sua,
Alma feliz, esta belleza he tua.

Entra, Esposa immortal, de amor no Templo
Dá á Patria que te ama, e se disvéla
Doces fructos de amor, eu os contemplo
Sucessão numerosa illustre e bella;
Que siga os parsos, e o paterno exemplo
E se deixe guiar da sua estrella,
Que de fortes Leoens Lenens gerão ;
Nem os filhos das Aguias degenerão.

Se ameaçando a Europa injusto e irado
Vai Fiederico da victoria certo,
Vês o Heroe do teo sangue em campo armado
De pó, de fumo, e de suor cuberto;
Rotas as plumas do chapeo bordado,
A banda solta, o peito d'aço forte,
Livrando Austria do jugo e vituperio
Suster nos hombros o cadente Imperio.

Hum dos dous Tios do seo Rei ao lado
Com o semblante placido e jucundo,
Governa ao longe o Imperio dilatado
Que separa de nos o mar profundo:
Outro gloria da Igreja e do Senado,
A' quem a grande Capital do mundo,
Ha muito que magnifica prepára
A purpura, e lhe accena co a Theara.

Nao ihe mostres Patria a estranha terra,
Os antigos ilustres que passarão ,
Mostra-lhe o grande Avô em quem se encerra
Quanto os Heroes da aniguidade obrarao;
E basta lhe na paz e em dura guerra
Que se lembrem hum dia, que beijarão
A mão, seguro arrimo da Coroa
A mão que da ruina ergueo Lisboa.

Quando dos Alpes ao famoso estreito.
A discordia cruel com vario e-tudo :
Fez armar tanto braço e tanto peito,
Esta mão nos servio de amparo e escudo;
Sentio ao longe o lacrimoso efeito
Da quarta parte novo o povo rude,.
E a foz do rio, e o tunido caminho
Cedeu com tanto cedro, e tanto pinho.

O monstro horrendo do maior delicto,
Que abortou do seo seio a noite escura,
Por obra d'esta nao no alto conflito.
Manchou de negro sangue a terra impura.
Range debalde aos pés do Throno invicto
A soberha, e debalde erguer procura
A atterrada cabeça, em que descança
O duro conto da pesada lança.

Quiz erguer à ambição com surdas guerras:
Fantastico edificio, aerias traves,
Porém gene debaixo d'altas serras
E tem sobre o seo peito os montes graves:.
La vão passando o mar á estranhas terras
Os negros bandos das nocturnas aves,
Com a inveja, ignorancia, e hypocrisia,
Que nem se atrevem a encarar o dia.

Ja tirar-rnos tac pode a sorte e o fado
Esses alegres dias, que estão perto,
Inda bi de ver a P'atria e Reino amado
O Ceo todo de murens descobeito,
Errar no monte sem pastor o gado:
E sem cultura, e sem limite certo,
Ondear polo campo o trigo loiro,
Imagem di saudosa idade d'oiro

Eu não verei passar tens doces annos
Alma de amor e de piedade cheia :
Esperão-me os desertos Africanos,
Aspera inculta, e; monstruosa arêa;
Ah! tu fazes cessar os tristes damnos
Que eu já na tempestade escura e feia
Mas diviso, e me serve de conforto
A branca ma, que me conduz ao porto
A Não, que torna do Oriente e Gôa
Que as nuvens: no horizonte descobrindo
De famulas se adorna e se coroa,
Vencedora do mar, que lhe faz guerra,
E sauda de longe a amada terra..


GAMA, José Basílio da. “Epitlamio”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.27-31.

 


Marca d'água

Quitubia

Tu, deosa de cem bocas, que nos pintas
As ondas do Mar Negro em sangue tintas,
E o Niester incerto, e irresoluto
Sem saber a quem pague o seu tributo,
Eterno assumpto de doiradas Liras;
Agora que dos Reis dormem as Iras,
Teus olhos sobre a escura África estende;
Depois, alada Deusa, os ares fende,
E entoa, ao som de barbara trombeta,
O forte Capirao da Guera Preta.
Esforçado Quitubia, o Téjo sabe
Quanto valor dentro em teo peito cabe.
Herdaste de teu Pai o nome, e o brio,
Que fol terror do perfido Gentio:
Fez-lhe sentir da nossa espada o pezo;
E levando nas mãos o raio acezo
Queimou a Corte da feroz Rainha
Novo Direito d imortalidade
He teo brazão a tua lealdade.
O titulo, que tens, deo-te a victoría:
C' o teo sangue compraste a tua gloria,
Que ainda que essa côr escura o encobre
Verteste-o por teo Rei; he sangue nobre.
Em vão o Pai te quiz ás letras dado:
Estava o bravo Eucogy acastellado
No fragoso rochedo ao Ceo vizinho;
Qual Aguia pendurada do seo nisho
Quando a córagem, que teu peito encerras
Gritou a teus ouvidos guerra, guerra.
Fugiste a Paz, correste aos inimigos;
Foste buscar a gloria entre os perigos:
Nem tornaste sem ver sobre ruinas
Tremular da alta Pedra as Laisas Quinas
Depois atravessando o negro mundo,
Duas vezes de incognito Balundo
O Sertão penetiaste valoroso :
Lá he que nasce o Gangu tortuoso
Que desce até perder no Cuanza o nome
Aonde o Crocodilho no pretos come.
Tentaste então, em guerra trabalhosa;
A barbara Quiçama sequiosa ;
Terra vil, de tostados horizontes,
A quem negou o Ceo rios, e fontes:
Mas no ventre das arvores sombrias
Resguardao do calor as agoas frias
Da chuva, com que mal se apaga a sede,
que a ti, e aos: teus ir mais avante impede
Apenas da fadiga descansado,
Para diversa empreza nomeado,
A estrada do valor de novo trilhas:
Lá te vejo abrazar as ferteis Ilhas
Que a Cuanza em torno serpeando lava:
Que inda que as defendia gente brava,
Evitar nao poderao a ruina ,
Que a dura Lei da guerra lhes destina.
Já passavas os dias em socego,
Quando os réos Dembos, com orgulho cégo,
Rompem a guerra: a Guarda retrocede;
É socorro, e vingança a hum tempo pede.
O grande General te chama, e ordena
Que os Dembos desleaes paguem a pena,
Tu levantaste a voz, e o braço invieto:
Conhecerão os Povos o teu grito;
Longe de si o vil terror sacodem:
Os Valentes de Ambaça á guerra acodem;
Ambaça, que teu Pai regeo hum dia;
Que rega da Lucalla a enchente fria:
Pelas margens cubertas. de palmeiras
Vem terçando a Azagaya as maos guerreiras.
Arma os Valeutes seus com igual brio
Combambe ao longo do espraiado rio,
Já d'entre tanto arco, e frexa tanta,
O Mancebo Cabôco se adianta;
O valor pelos annos não espera:
He timido inda mais que brava féra
E he seu deito, em que ninguém o iguala,
Ser juem primeiro exponha o peito á bala,
O Bengo, que se humilha ao Gram Tridente,
Da arenora boauda a pram ardente:
Mas angano, que a Lis prumo o Sol recebe,
E que da Cuanza, e na Lucalla bebe;
Todos é causa Publica concorrem ;
E Moxima, e Calumbo ás armas correm,
Já perdilo de vista o patrio Pungo,
Cortavas as campinas de Goingo;
Já longe estara a cente valorosa:
quando instruido em guerra cavilosa,
Com temeragio pé pizando as raias
O Mossuio d'os seus, cobrem as praias;
E a Capital assa tão, pondo logo
Toda a margem do Bengo a ferro e fogo.
O impavido Barão, que tanto póde,
Arma o rosto da gente, e a tudo acóde,
Tu passas sera que a nobre tra se abrande,
O turvo Zenza: o emaranhado Dande;
E vencedor dos asperos caminhos
Lhes vas fazer a guerra nos seus ninhos.
Nem os rebeldes Dembos te esperárão ;
Que as casas com a preza abandonarao.
Hum frio susto o peito lhes congela
Vendo diante a meie, lhes conge dellas
A vida vao salvar nas suas brenhas;
Outros se acolhem ás nativas penhas ;
Cahe a idade inocente, a curva idade
Ah que eu sinto gemer a humanidade!
Põe debalde a razão á ira o freio.
Correndo vai a Mãi c’o Filho ao seio
Os fructiferos troncos escachados;
Os toscos edifícios arrazados;
E em severo castigo de seo erro
Devora a chamma o que escapou ao ferro,
Com o exemplo aterrada a infel gente,
E, Africa assim submissa, e obediente,
Já o illustre Barão, c'o a espada ao lado,
As vélas solta para o Téjo amado.
Tu com elle nas azas vens do vento,
Té ver fugir de instável Elemento
Coma frente torreada a gram Lisboa ,
De quem tão alta fama ao longe sôa.
Que ha muito teu sensivel peito encobre
A ancia que tens, e o pensamento nobre
De ver inda huma vez na Patria bella
A alma grande, que viste longe dela
E que te fez sentir na adversidade
O raro dom do Ceo, doce amizade,
Que une as distancias, e que iguala as sortes,
Mais seguro nos bosques, que nas Cortes.
Nas mãos lhe achas as redeas do Governos
E o mesmo coração, e peito terno
Lágrimas doces, lágrimas saudosas
Viste cahir das faces generosas
De quem olhou constante, e resoluto,
Para a desgraça com o rosto enxuto:
Quando o viste maior foi na desgraça,
Com a poderosa mão te ergue, e te abraça,
E te encaminha aos pés do Thorono Augusto.
Gozaste então entre prazer, e susto,
Quanto a toa alma suspirado tinha,
Tu viste com teus olhos a Rainha
De seus Povos felizes adorada :
Tu puzeste a seus pés a invicta espada :
E cheio do respeito ronis profundo
Beijaste a mão, que faz, feliz o Mundo:
Ouviste o doce som da voz suave,
Que tem dos nossos corações a chave.
Porém leva gravado na memória,
Que ao contar as batalhas, e a victoria ;
Os crucis golpes; as mortaes feridas;
As cabeças dos corpos divididas,
E em sangue, e pó revoltos os cabellos;
Tu viste enternecer seus olhos bellos,
Não pódes desejar honras maiores,
Firmou a Mão Real os teus louvores:
Declarou que se dá por bem servida,.
Único preço, por que arrisca a vida
Nação leal de glória cobiçosa.
Agora torna aos teus: chama-te a esposa,
Que com agudos ais rompe o ar denso,
E estende os olhos pelo espaço immenso,
Contando os longos dias da saudade:
A razão, e o dever to persuade;
Torna aos teus, que te esperão cuidadosos,
Que á guerra te seguirão valorosos;
Mostra-lhe o prêmio, que a virtude anima:
Conta da bella Europa o doce clima;
Os usos, os costumes diferentes
Cheios de inveia os Souvas teus Parentes
Na Corte o ouviráo da Real Tia.
F em quanto a Augusta, a Immortal Maria,
Manda do alto do Throno em paz, em guerra,
Seus raios, e seus dons ao fim da terra;
E com a vermelha Cruz te adorna o peito.
Com este loiro a tua testa enfeiço.


GAMA, José Basílio da. “Quitubia”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.3-8 .

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)