Manoel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)
A gruta americana
N’um vale estreito o patrio rio desce
De altíssimo rochedos despenhado
Com ruído, que as feras ensuderce
Aqui na vasta gruta sossegado
O velho pai das nymphas tutelares
Vi sobre urna musgosa recostado;
Pedaços d'ouro bruto nos altares
Nascem por entre as pedras preciosas,
Que o céu quiz derramar nestes lugares.
Os braços dão as árvores frondosas
Em curvo amphitheatro onde respiram
No ardor da sesta, as dryades formosa
Os faunos petulantes que deliram
Chorando o ingrato amor, que os atormenta
De tronco em tronco n’estes bosques giram.
Mas que soberbo carro se apresenta?
Tigres e antas, fortíssima Amazona
Rege do alto logar em que se assenta.
Prostrado aos pés da intrepida matrona
Verde, escamos, jacaré se humilha,
Amphibio habitador da ardente zona.
Quem és, do claro céo inclita filha?
Vistosas penas de diversas côres
Vertem e adornam tanta maravilha.
Nova grinalda os gênios e os amores
Lhe oferecem e espalham sobre a terra,
Rubins, saphyras, pérolas e flores.
Juntam-se as nymphas que este vale encerra,
A deusa acena e falla: o monstro enorme
Sobre as mãos se levanta, e a áspera serra
Escuta, o rio pára, o vento dorme:
« Brilhante nuvem d'ouro,
Realçada de branco, azul e verde,
Nuncia de fausto agouro,
Veloz sobe, e da terra a vista perde,
Levando vencedor dos mortaes damnos
O grande rei José d'entre os humanos.
<<Quando ao tartareo açoute
Gemem as portas do profundo averno,
Igual á espessa noite
Vôa a infausta discórdia ao ar superno,
E sobre a lusa America se avança
Cercada de terror, ira e vingança;
<< És a guerra terrível
Que abala, atemorisa e turba os povos,
Erguendo escudo horrível,
Mostra Esphinge e Medusa e monstros novos;
Arma de curvo ferro o iniquo braço:
Tem o rosto de bronze, o peito d'aço.
<<Pallida, surda. e forte,
Com vagaroso passo vem soberba
A descarnada morte.
Com a misérrima triste fome acerba;
E a negra peste, que o fatal veneno
Exhala ao longe, e ofusca o ar sereno.
<< Ruge o leão ibero
Desde Europa troando aos nossos mares,
Tal o feroz Cerbero
Latindo assusta o reino dos pezares
E as vagas sombras ao trifauce grito
Deixam medrosas o voraz Cocyto;
<< Os montes escalvados,
Do vasto mar eternas atalaias,
Vacilam assustados
Ao ver tanto inimigo em nossas praias.
E o pó sulphureo, que no bronze soa,
O céo, e a terra, e o mar e o abysmo atroa.
« Os echos pavorosos
Ouviste, ó terra aurífera e fecunda,
E os peitos generosos,
Que no seio da paz a glória inunda,
Armados Correm de uma e d'outra parte
Ao som primeiro do terrível Marte.
« A hirsuta Mantiqueira,
Que os longos campos abrazar presume,
Viu pela vez primeira
Arvoradas as quinas no alto cume,
E marchar as esquadras homicidas
Ao rouco som das caixas nunca ouvida.
<< Mas, rainha augusta,
Digna filha do céo 'justo e piedoso,
Respiro e não me assusta
O estrepito e tumulto bellicoso,
Que tu lanças por terra n'um só dia
A discordia, que os povos oprimia
<<As hórridas phalanges
Já não vivem d' estrago e de ruina
Deixam lanças e alfanjes,
E o elmo triplicado e a malha fina;
Para lavrar a terra o 'ferro torna
Ao vivo fogo e a rigida bigorna.
<< Já cahem sobre os montes
Fecundas gottas de celeste orvalho
Mostram-se os horizontes,
Produz a terra os frutos sem trabalho;
E as nuas graças, e os cúpidos ternos
Cantam a doce paz hymnos eternos
<< Ide, sinceros votos,
Ide, e levai ao throno lusitano
D' estes climas remotos,
Que habita o forte e adusto Americano,
A pura gratidão e a lealdade,
O amor, o sangue e a própria liberdade
Assim falou a América ditosa,
E os mosqueados tigres n'um momento
Me roubaram a scena majestosa.
Ai, Termindo, rebelde o instrumento
Não corresponde á mão, que já com glória
O fez subir ao estrelado acentto.
Sabes do triste Alcindo a longa história,
Não cuides que os meus dias se serenam,
Tu me guiaste ao templo da memória;
Torna-me ás musas, que de lá me acenam.
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “A gruta americana”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 147- 151.
Canção
EGREGIA for da Lusitana Gente,
Nobre inveja da estranha,
D'antigos Reis preclaro descendente,
Luiz, a quem se humilha quanto banha
Do grão tridente o largo senhorio,
Desd’o Amazonio, até o argento rio
Em quanto concedeis repouso breve
A's redeas do Governo,
Ouvi a Musa, que a levar se atreve ,
Ao som da Lyra de ouro, em canto eterno,
vosso a ser brilhante Estrella,
Onde habita immortal a Gloria bella.
Só às Filhas do Ceo foi concedido
Do Lethes frio, e lasso
Os Heroes libertar; calça atrevido
Tempo devorador, com lento passo,
Tudo quanto os mortaes edificárão;
Nem deiaxa os, écos das acções, que obrárão.
Receba o vasto Mar no curvo seio
Os marmores talhados;
O amoroso Delfim, o Trisião feio
Respeitem temerosos, e admirados
A Muralha, onde Theris québra a furia;
Do maritimo Jove eterna injúria.
Ao ar se eleve Torre magestosa,
T'hesouro amplo, e profundo
Das riquezas, que envia a populosa
Europa, e Asia grande ao Novo Mundo;
Por quem soberbo, ó Rio, ao mar te assomas,
Tu, que do Mez primeiro o nome tomas.
Lago triste , mortal, no abysmo esconda
Pestiferos venenos ;
E o leito, onde dormia a esteril onda,
Produza os Bosques, e os Jardins amenos,
Que adornando os fresquissimos lugares,
Dem sombra a terra, e dem perfume aos ares
O vosso invicto Braço os bons proteja,
E os soberbos opprima:
Modêlo sempre illustre em Vós se veja
De alma grande, a quem bella gloria anima; .
Regendo o Sceptro respeitado, e brando;
Digno da Mão, que Vos confia o Mando.
Os justos premios de emula Virtude
Da vossa não excitem
Ao nobre, ao generoso, ao fraco, e rude:
As Artes venturosas resuscitem ;
E achando em Vós hum inclito Mecenas,
Nada invejei de Roma, nem de Athenas.
A Paz, a doce Paz contemple alegre
As Marciaes bandeiras:
Prudente a justo o vosso arbitrio regre,
E firme a sorte das nações inteiras
Derramando por tautos meios novos
A ditosa abundancia sobre os Póvos.
Cresça a próspera Industria, que alimenta
Os solidos thesouros:
O Ocia torpeo e a ambição violenta
Fujão com funestissimos agouros;
Fuja a céga Impiedade; e por castigo
Negue-lhe o Mar, negue-lhe a Terra abrigo,
Acções famosas de louvor mais dignas,
Que as de Cesar, e Mario!
Vós não sereis ludibrio das malignas
Revoluções do Tempo iniquo, e vario:
Ja vos case o apolíneo templo
Lá se erge mais solida calumna,
Que o marmore de Paros ;
E longe dos teus golpes, o fortuna,
la vive a imagem dos Heroes preclaros;
Assim respeita o tempo os nomes bellos
De Scipiões, de Emilios, de Marcellos,
Entre estes vejo o Achilles Lusitano,
Que prodigo da vida.
Foi o açoute do barbaro Africano
'E exemplo raro d'alma esclarecida,
De que são testemunhas nunca mortas
D'Ourique o campo, de Lisboa as portas.
O grande Vasconcellos vejo armado,
Que arranca, despedaça
O alheio ferreo jugo ensanguentado;
E os soberbos Leões forte ameaça:
Da guerra o raio foi, da paz a leme
America inda o chora, Espanha o teme.
Quem he o que entre todos se assinála
No próvido conselho ?
E no valor, e na prudencia iguala
Da antiga Pylos o famoso velho?
He Pedro, que com hombros de diamante
Foi d'hum, e d'outro Ceo robusto Atlante.
Mas que lugar glorioso Vos espera
Inclyto heroe, na scintillame esfera?
Eu vejo o Busto, que entre resplendores
As Virtudes, e as Musas vos levantão
Ao som dos lymoos, que alteroadas cantto
Luiz, Luiz a abobeda deleste
Por toda a parte soa ;
E tu, ó Clio, tu que lhe teceste
Co’ a propria mão a nitida coroa,
A voz levantas, entornando as Graças
O nectar generoso em aureas taças.
Delicia dos humanos, clara fonte
De Justiça, e Piedade,
Não sentiras do. pallido Acheronte
Ferreo somno, nem densa escuridade.
Cantou a Musa: a Inveja. se devora,
E o Tempo quebra a fouce cortadora.
Então, d'entre segredos tenebrosos
Erguendo o braço augusto,
Que vio nascer os Orbes luminosos,
Dá vida a Eternidade ao novo. Busto.
Hum chuveiro de luz sobre elle desce,
E nova Estrella aos homens apparece.
Astro benigno! Eu te offereço a Lyra
De louros epramada
Recebe…ella ja voa, e sóbe, e gira,
Rompendo os ares de esplendor cercada;
Já Satellite adorna o Firmamento,
E te acompanha la no Ethereo Assento,
Canção, quanto te invejo!
Vai, e ao feliz habitador do Téjo
Conta que a nova Estrella,
Banbada em luzes da Rainha Augusta,
Reflecte ao Novo Mundo a Imagem delta
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “Canção”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 52-54.
Quintilhas
MUSA, não sabes louvar,
E por isso neste dia,
Entre as vozes d'alegria,
Nao pertendo misturar
Tua rustica armonia.
Tens razao, mas não escuto
Os teus argumentos bellos:
Por mostrar novos disvellos
Demos o annual tributo
Ao illustre Vasconcellos.
Vamos pois a prepararg
Que eu te darei as licões:
Folheando no Camões,
Bem podemos remendar
Odes, Sonetos, Canções.
Poremos fingir hum sonho
Por methodo tal e qual,
Se o furto for natural,
Eu delle não me envergonho,
Todos furian, bem ou mal
Ve se lhe podes grudar
Que muila gente barbada
Aplaude sem lhe importar
A razão, por que lhe agrada.
Feita assim a introducção
Passemos ao elogio,
Não te escape o patrio Rio
Sahindo nesta ocasião
Lá de aigum lugar sombrio.
Coroado de mil flores
Venha a torto e a direito ;
E se fizer hum tregeito,
Clamarão logo os leitores:
Viva, bravo, isto be bem feito
Co' as virtudes, co as acções
Do nosso Heroe não te mates.
Bastar que a obra dilates,
Dividida em pelotoes ,
Por sonoros disparates,
Quero ver a mão robusta
D’Alcidis, encaixe, ou não
E alguma comparação.
Ainda que seia á costa
D’ Anibal, ou scipião.
Hao de vir de Jove as filhas,
Marte horrendo furibundo,
E com saber mais profundo,
Traze as sete matavilhas,
Que ninguem achou no mundo.
Se acaso a Ode te agrada,
Para atterrar teus rivaes,
Tece em versos desiguaes,
Crespa frase entortilhada
Palavras sesquipedaes.
Crepitantes, denodadas,
Enchem ber de hum verso as linhas,
E eu me lembro que já tinhas
N'outro tempo bem guardadas,
Muitas destas palavrinhas.
Se de Soneto és amante,
Seja sempre pastoril,
Que sem cajado e rabil,
O Soneto mais galante
Não tem valor de hum ceitil.
Venha sempre o adejar,
Que he verbinho, de que gosto,
E já me sinto disposto
Para o querer engastar
N'hum Idilio de bom gosto.
E pois que aqui nos achamos,
Tão longe de humano trato,
Que inda o velho Perpalo
Por toda a parte encontramos,
Com respeito, e apparato
Dois trocadilhos formemos
Sobre o nome de Luiz,
Seja luiz, ou seja Liz,
O epigramma feito temos,
E só lhe falta o nariz.
Acrosticos isso he flor
'hum engenho singular;
Quem os soubera formar,
Que certo tinha o penhor
Para a muitos agradar!
Agudissimos Poetas,
Gento bem aventurada,
Que estudando pouco, ou nada,
Tem na cabeça essas petas,
E outra muita farfalhada!
Mas, oh Musa, o meo desgoste
tal que já tenho pejo
De ti mesma quando vejo
O teu animo indisposto
Para cumprir meu dezejo.
Não tive dias bastantes..
Basta, basta, isso he enganos
Sobeja o tempo de hum anno,
E he muito seis estudantes
Para hun só Quintilianno.
Sei que ha nesta occasião
Poetas, filhos, e Paes:
Porem sejão taes ou quaes?
Compre tua obrigação,
Deixa cumprir os demais.
Vinte quintithas ja sao,
Nos annos nao se fallou,
Mas á margem sendo estou
Ler no Livro da razao.
- Foi omisso, nao pagou.
Eis aqui como se ganha
O labéo de caloteiro,
Mas eu não sou o primeiro
Que tive esta boa manha,
Nem serei o derradeiro.
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “Quintilhas”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 65-69.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
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