Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

José Basílio da Gama (1740-1795)


Marca d'água

Epitlamio

Nimpha d'esta aspereza ao Ceo visinha,
Cingi-me a fronte de arrojado, loiro
Torne a correr a mão cansada minha
Com plectro de marfim as cordas d’oiro;
Ouça dos sete montes a Rainha
Amor na minha Cythara se esconda
E Amalia, Amalia o ecco me responda.

Vejo Cisnes de pennas prateadas
Trazer do Ceo sobre o fecundo,
Fitas de roza no pescoço atadas;
Estrellas d'oiro no encrespado peito.
Ja dão caminho as, nuvens enroladas
Ja sente a terra o amoroso efeito:
Deixa rastros de luz no ar; que trilha.
A bella Deosa das escumas filha

Vem,ó Santo Hymineo, desce dos ares
Coroado de Lirios e de rosas,
Rodêem teos purissimos altares
Do Tejo as mansas águas vagarosas,
D'estes bosques os Deoses tutelares
Ornando as tranças negras e, formosas,
Hirao co' as nuas graças e os amores
Pelo chão espalhando as brancas flores:

Esposo afortunado, em quem tem posto
A Patria as suas doces esperanças,
No meio dos aplausos e do gosto
Ah! conhece o que logras e o que alcanças.
A fortuna, que á tantos vira o rosto
Te poem na mao fugitivas trancas ,
Premio do teo amor, a Deosa cega
Quanto te pode dar tudo. te entrega.

Estas faces mimosas e serenas,
A boca onde se forma o doce encanto,
Causa de tanto susto e tantas penas,
Os olhos que enche o vergonhoso pranto,
A garganta de neve e de assucenas
Tão desejada e suspirada tanto:
Olha os signaes da doce magua sua,
Alma feliz, esta belleza he tua.

Entra, Esposa immortal, de amor no Templo
Dá á Patria que te ama, e se disvéla
Doces fructos de amor, eu os contemplo
Sucessão numerosa illustre e bella;
Que siga os parsos, e o paterno exemplo
E se deixe guiar da sua estrella,
Que de fortes Leoens Lenens gerão ;
Nem os filhos das Aguias degenerão.

Se ameaçando a Europa injusto e irado
Vai Fiederico da victoria certo,
Vês o Heroe do teo sangue em campo armado
De pó, de fumo, e de suor cuberto;
Rotas as plumas do chapeo bordado,
A banda solta, o peito d'aço forte,
Livrando Austria do jugo e vituperio
Suster nos hombros o cadente Imperio.

Hum dos dous Tios do seo Rei ao lado
Com o semblante placido e jucundo,
Governa ao longe o Imperio dilatado
Que separa de nos o mar profundo:
Outro gloria da Igreja e do Senado,
A' quem a grande Capital do mundo,
Ha muito que magnifica prepára
A purpura, e lhe accena co a Theara.

Nao ihe mostres Patria a estranha terra,
Os antigos ilustres que passarão ,
Mostra-lhe o grande Avô em quem se encerra
Quanto os Heroes da aniguidade obrarao;
E basta lhe na paz e em dura guerra
Que se lembrem hum dia, que beijarão
A mão, seguro arrimo da Coroa
A mão que da ruina ergueo Lisboa.

Quando dos Alpes ao famoso estreito.
A discordia cruel com vario e-tudo :
Fez armar tanto braço e tanto peito,
Esta mão nos servio de amparo e escudo;
Sentio ao longe o lacrimoso efeito
Da quarta parte novo o povo rude,.
E a foz do rio, e o tunido caminho
Cedeu com tanto cedro, e tanto pinho.

O monstro horrendo do maior delicto,
Que abortou do seo seio a noite escura,
Por obra d'esta nao no alto conflito.
Manchou de negro sangue a terra impura.
Range debalde aos pés do Throno invicto
A soberha, e debalde erguer procura
A atterrada cabeça, em que descança
O duro conto da pesada lança.

Quiz erguer à ambição com surdas guerras:
Fantastico edificio, aerias traves,
Porém gene debaixo d'altas serras
E tem sobre o seo peito os montes graves:.
La vão passando o mar á estranhas terras
Os negros bandos das nocturnas aves,
Com a inveja, ignorancia, e hypocrisia,
Que nem se atrevem a encarar o dia.

Ja tirar-rnos tac pode a sorte e o fado
Esses alegres dias, que estão perto,
Inda bi de ver a P'atria e Reino amado
O Ceo todo de murens descobeito,
Errar no monte sem pastor o gado:
E sem cultura, e sem limite certo,
Ondear polo campo o trigo loiro,
Imagem di saudosa idade d'oiro

Eu não verei passar tens doces annos
Alma de amor e de piedade cheia :
Esperão-me os desertos Africanos,
Aspera inculta, e; monstruosa arêa;
Ah! tu fazes cessar os tristes damnos
Que eu já na tempestade escura e feia
Mas diviso, e me serve de conforto
A branca ma, que me conduz ao porto
A Não, que torna do Oriente e Gôa
Que as nuvens: no horizonte descobrindo
De famulas se adorna e se coroa,
Vencedora do mar, que lhe faz guerra,
E sauda de longe a amada terra..


GAMA, José Basílio da. “Epitlamio”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.27-31.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)