Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 


Marca d'água

DEVASTAÇÃO

 


Já foi aqui a civilização.
Brilhou a luz. Cantou a fé. Riu o trabalho,
- Mas no rebanho há-de haver sempre algum tresmalho:
tresmalhou a afeição;
e veio a derrocada.

Seguindo os largos rios nos seus cursos,
nas faldas da cadeia abruta e torturada,
junto ao primeiro roble secular,
muito antes, tinham vindo os homens se agrupar,
na defesa comum contra as renas e os ursos.

- E a esperança brilhou, como sempre, a primeira.

Conseguiram vencer. O último urso brama,
e rebenta-lhe o crânio o machado de pedra...
Já pascem, junto ao lar, domesticadas renas;
o homem pensa em plantar, e o terreno se redra...
Enfim, na encantação de amplas tardes serenas,
- canta no alqueive o rouxinol, a terra cheira -
ao convívio do bem-estar,
o homem pode mirar a companheira
e colocá-la num andor...
E quando, pelas manhãs claras,
avoaçou a calhandra sobre as searas,
houve searas também, plantadas pelo amor.

- E o amor brilhou em cada lar.

Pelo trabalho, pelo engenho o homem procura
fortificar então sua ventura.
É só lançar a mão: e mais, e mais,
grassa na concha dos convales calmos
a poesia alourada dos trigais...
...É só lançar a voz: e sobre o monte,
e sobre o vale, e no horizonte,
e em toda parte lhe respondem outras vozes...
Sobem os fumos pelo céu que ao fogo
já se derretem os metais -
já se não temem animais ferozes;
tudo é progresso!... Então, reunidos no sopé
da cadeia, a cantar, como em glórias e salmos,
soltam aos ares o primeiro rogo...

- E rebrilhou a fé.

Cria-se o livro. Os homens pensam.
Pensam e agitam-se em tumulto.
Por sobre os seus trabalhos paira a benção:
e todos os trabalhos tomam vulto;
O saber suspicaz penetra o alto segredo
da vida. É tudo um labutar de ciência.
O homem afoita-se, descobre, perde o medo...

- E brilha, altiva e forte, a inteligência.

E ele atinge afinal o cume do Jungfrau.
Olha em redor e vê, na campina tamanha,
uma herança que é sua e que se perde além:
e tem um pensamento mau.
Ele atingiu o cume da montanha!
Só ele é grande, mais ninguém!
Cogita, e se entremeia em labirintos
de sofismas agudos; e, infeliz!
diz tudo o que não pensa ou que não sente,
mas o que sente ou pensa nunca diz.
Constrói teorias, alevanta em plintos
novo ideal, que lhe é Deus; e, indiferente
encara o mundo e nada o maravilha...

- E o orgulho máximo e insensato, brilha.

Vem a rivalidade, a traição, a mentira,
o exagero da glória, a negação da falta;
Caim mata de novo Abel, - mas por mais alta
que sobressaia a eterna voz,
aos seus ouvidos não há voz que fira! -
Mesmos os Abéis tornaram-se Cains;
e os homens todos, na avareza atroz,
ganiram, defendendo os bens, como mastins...

A afeição tresmalhou. E no esterco fecundo
de mil invejas e ambições, abrolha
a flor de púrpura da guerra... E o mundo
todo, a tremer nos seus arcanos olha.

Nesse ponto do globo, onde o passado
viu continuar, em surto resplendente,
as civilizações do antigo oriente,
nas águas batismais das energias novas,
tudo é um imenso plaino devastado!

O homem voltou ao seu estado primitivo:
blasfema, odeia, trai, e sepulta-se vivo
em trincheiras, sinistras como covas...

Cruza os espaços, rebentando, atroa
a cólera do obus;
e no arruído, no choque e na fumaça,
a civilização perde a coroa,
e treme, e foge, e tomba e se espedaça,
desertando da grande luz!...
…………………………………………..

Diante de tanto mal e tanta ruína,
de tanta inveja parda e estulta,
diante desse ódio frio e cru,
pálida, imóvel, trágica e divina,
sobre a devastação que cresce e avulta,
surgiu a minha dor, como um mármore nu.

Surgiu, cresceu, e, imensamente branca,
com o branco triste dos enfermos,
na compunção atroz do seu sofrer,
a minha dor sem lágrimas, nos ermos
onde o último eco dos canhões estanca,
gelou o íntimo gesto e nada quis dizer.

Apenas, a sorrir, num sorriso que punge,
pálida, imóvel, trágica e divina,
olha sem ver para a devastação...
A esperança talvez lhe santifica e unge
o olhar, mas o sorriso, o sorriso que a mina,
trai o penoso fel duma desilusão.


ANDRADE, Mário de. “DEVASTAÇÃO”. In: Há uma gota de sangue em cada poema. In: Obra imatura. Organização de Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 51-54.

 


Marca d'água

II

Máquina-de-escrever


B D G Z, Remington.
Pra todas as cartas da gente.
Eco mecânico
De sentimentos rápidos batidos.
Pressa, muita pressa.
Duma feita surripiaram a máquina-de-escrever de meu mano.
Isso também entra na poesia
Porque ele não tinha dinheiro pra comprar outra.

Igualdade maquinal,
Amor ódio tristeza...
E os sorrisos da ironia
Pra todas as cartas da gente...
Os malévolos e os presidentes da República
Escrevendo com a mesma letra...
Igualdade
Liberdade
Fraternité, point.
Unificação de todas as mãos…

Todos os amores
Começando por uns AA que se parecem...
O marido que engana a mulher,
A mulher que engana o marido,
Os amantes os filhos os namorados…

“Pêsames”.
“Situação difícil.
Querido amigo... (E os 50 milréis.)
Subscrevo-me
admor
bgo.”
E a assinatura manuscrita.

Trique... Estrago!
É na letra O.
Privação de espantos
Pras almas especulas diante da vida!
Todas as ânsias perturbadas!
Não poder contar meu êxtase
Diante dos teus cabelos fogaréu!

A interjeição saiu com o ponto fora de lugar!
Minha comoção
Se esqueceu de bater o retrocesso.
Ficou um fio
Tal e qual uma lágrima que cai
E o ponto final depois da lágrima.

Porém não tive lágrimas, fiz “Oh!”
Diante dos teus cabelos fogaréu.
A máquina mentiu!
Sabes que sou muito alegre
E gosto de beijar teus olhos matinais.
Até quarta, heim, ll.

Bato dois LL minúsculos.
E a assinatura manuscrita.


ANDRADE, Mário de. “ II Máquina-de-escrever”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 137-138.

 


Marca d'água

Maria

 


Passa pura neste mundo,
Sendo chique e sendo rica,
Tem marido, quatro filhos,
Sabe rir, sabe gozar,
O nome dela é Maria.

Faz pouco telefonou
Falando que não iria
No chá da casa da amiga.
De vez em quando ela falta
Às festas de sociedade,
Arranja dor-de-cabeça
E outras desculpas assim.

Agora está no jardim
Toda de branco vestida.

O sol é um pintor das dúzias!
Diz-que pretende dourar
Aqueles cabelos curtos...
Não vê! só faz relumear
O preto daquele preto,
Que não tem nada mais preto
Que os cabelos de Maria!

Como é bonita! Seus olhos
São que nem jabuticabas.
E mesmo que o perfil dela
Seja um pouco duro, a gente
Assuntando aquele rosto
Que o rouge aviva mansinho,
A gente sente um sossego
De peito de passarinho.

A gente sente... meu Deus!
De deveras, um amor...
Que não é amor, é amorzinho
Feito de admiração.
Encanto de dia-santo!
Gosto que não dá desgosto!
Amor não! Veneração!

Se eu falasse que Maria
Traz um halo na cabeça,
Halo de santa moderna
Que maxixa e fala o inglês,
Muita gente se riria...
Pois se riam à vontade!
Maria traz na cabeça
O halo de Santa Maria!

É Shelley que está na moda,
E as mãos dela sobre a capa
Da edição de Oxford, orvalham
O couro negro macio
Com as gotas secas do brilho
Das unhas manicuradas.
Não quis mais ler porque livros
Não lhe dão a gostosura
Que tem vendo as travessuras
Dos filhinhos em redor.

Um fala que tem de ser
Chofer duma lincoln verde;
O outro inda não sabe, hesita
Entre médico e aviador;
O caçula... lá se amola
Em saber o que será!
É pecurrucho, não pensa,
Tem a instintiva sabença
De andorinha taperá:
Aonde faz quente, ele vai.
Gatinhando emigra bambo
Do colo da mãe pro pai,
Do colo do pai pra cama.

Agora dorme na grama
Sobre o pleide branco e preto.
Troca a noite pelo dia...
Junto dele a ama cochila,
No branco e preto de estilo.
... Que a champanha dos jantares,
Tal-e-qual a cobra preta,
Vem de-noite e chupa o leite
Da sem-seios da Maria…

E Maria, a outra filhinha,
Maria filha de Maria,
Parecida com Maria,
Essa emburrou porque o mano
Mais velho diz que não quer
Que ela beije a cara dele.
Há-de ser chofer da lincoln
E há-de viver toda a vida
Sem boquinha de mulher!

Maria se ri tranquila.
São anjos, não são? São anjos
Que não têm asas por baixo
Dos suéteres de listrão.
Já falam seu alemão
Com a governanta comprida,
Mas que são anjos? são anjos
Da boniteza da vida!
... Que anjos são estes
Que estão me arrodeando,
De-noite e de-dia...

Padre Nosso...
Ave, Maria!


ANDRADE, Mário de. “Maria”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 337-340.

 


Marca d'água

Dez quadrinhas

 


Alma que passas ao lado,
Peito tão triste como eu,
Não bate em ti, ansiado,
O amor que responde ao meu?...

Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre a cantar,
Eu que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.

O amor deixa n’alma louca
Uma lembrança amargosa;
Caju, que é fruta gostosa
Deixa um aperto na boca.

Eu peno todas as dores
Com este amor que Deus me deu;
Quem achou os seus amores
A si mesmo se perdeu.

Amor é barquinho esguio
Surcando as águas do mar,
– O mar não é como o rio
Que é fácil de atravessar.

Fossem todas as desgraças,
Dessas que acabam com prantos,
E oh vida que vais tão lenta,
Serias cheia de encantos.

Todos olhava em solteira,
Em noiva, só o escolhido;
Hoje, casada e caseira,
Não olha nem o marido.

Menina de fita e renda
Na janela a namorar,
Não é casa posta à venda,
É casa por alugar.

Tantas dores me dominam,
Tantas mágoas tenho tido,
Que até meus risos terminam
Numa espécie de gemido.

Por trás da cerca uma estrada,
Por trás da estrada um ipê,
Por trás do ipê outra cerca,
Por trás da cerca... você.


ANDRADE, Mário de. “Dez quadrinhas”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 102-103.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)