Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Manuel Bandeira (1886-1968)

 


Marca d'água

Poemeto irônico

 


O que tu chamas tua paixão,
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade…

Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.

Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.

Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios…

Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento…

E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.

E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.


BANDEIRA, Manuel. “Poemeto irônico”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 56-58.

 


Marca d'água

Arlequinada

 


Que idade tens, Colombina?
Será a idade que pareces?...
Tivesses a que tivesses!
Tu para mim és menina.

Que exíguo o teu talhe! E penso:
Cambraia pouca precisa:
Pode ser toda num lenço
Cortada a tua camisa…

Teus seios têm treze anos.
Dão os dois uma mancheia...
E essa inocência incendeia,
Faz cinza de desenganos…

O teu pequenino queixo
— Símbolo do teu capricho —
É dele que mais me queixo,
Que por ele assim me espicho!

Tua cabeleira rara
Também ela é de criança:
Dará uma escassa trança,
Onde eu mal me estrangulara!

E que direi do franzino,
Do breve pé de menina?...
Seria o mais pequenino
No jogo da pompolina…

Infantil é o teu sorriso.
A cabeça, essa é de vento:
Não sabe o que é pensamento
E jamais terá juízo…

Crês tu que os recém-nascidos
São achados entre as couves?...
Mas vejo que os teus ouvidos
Ardem... Finges que não ouves…

Perdão, perdão, Colombina!
Perdão, que me deu na telha
Cantar em medida velha
Teus encantos de menina...


Juiz de Fora, 1918


BANDEIRA, Manuel. “Arlequinada”. In: Carnaval. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 88-89.

 


Marca d'água

Poemeto erótico

 


Teu corpo claro e perfeito,
— Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado…

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume…

Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes…

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama…

Volúpia de água e da chama…

A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo…

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


BANDEIRA, Manuel. “Poemeto erótico”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 60.

 


Marca d'água

Ingênuo enleio

 


Ingênuo enleio de surpresa,
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.

Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.

Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.

Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.


BANDEIRA, Manuel. “Ingênuo enleio”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 65.

 


Marca d'água

Ternura

 


Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...


BANDEIRA, Manuel. “Ternura”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 66.

 


Marca d'água

Boda espiritual

 


Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua…

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso…

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo…

E te amo como se ama um passarinho morto.


BANDEIRA, Manuel. “Boda espiritual”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 66-67.

 


Marca d'água

Ao crepúsculo

 


O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,
Fitando no horizonte a linha da montanha.

A montanha é tranquila, forte, e grande e boa.
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.

Embalada na voz do grande solitário,
Tu mortificarás teu casto coração
Na dor de revocar o noivado precário.
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?
Por que me desvendaste a tua sedução?)

Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga.
A lembrança é no amor a cadeia mais pura.
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:
O mar segredará tudo quanto eu te diga,
E a montanha dir-me-á tua imensa ternura.


BANDEIRA, Manuel. “Ao crepúsculo”. In: A Cinza das horas. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 26, 1993, p. 68.

 


Marca d'água

Rimancete

 


À dona de seu encanto,
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela;
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor…
— Ái não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor...
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida...
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?...
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo... Não atino o quê...
Dava-te quanto podia...
Que queres mais que te dê?

Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não... não posso dar-te...
Que há muito tempo ele é teu…


BANDEIRA, Manuel. “Rimancete”. In: Carnaval. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 96-97.

 


Marca d'água

Sonho de uma terça-feira gorda

 


Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas
[máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria…


BANDEIRA, Manuel. “Sonho de uma terça-feira gorda”. In: Carnaval. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 99-100.

 


Marca d'água

Balada de Santa Maria Egipcíaca

 


Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir…

Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.

Santa Maria Egipcíaca rogou:
— Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.

O homem duro fitou-a sem dó.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir…

— Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.

O homem duro escarneceu: — Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.

E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.


BANDEIRA, Manuel. “Balada de Santa Maria Egipcíaca”. In: O ritmo dissoluto. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 106.

 


Marca d'água

O espelho

 


Ardo em desejo na tarde que arde!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim da tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde!

Num espelho sobrenatural,
No infinito (e esse espelho é o infinito?...)
Vejo-te nua, como num rito,
À luz também sobrenatural,
Dentro de mim, nua no infinito!

De novo em posse da virgindade,
— Virgem, mas sabendo toda a vida —
No ambiente da minha soledade,
De pé, toda nua, na virgindade
Da revelação primeira da vida!


BANDEIRA, Manuel. “O espelho”. In: O ritmo dissoluto. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 107.

 


Marca d'água

Carinho triste

 


A tua boca ingênua e triste
E voluptuosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua e triste
É dele quando ele bem quer.

Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência,
Teus seios, que são como os seios intatos das virgens,
São dele quando ele bem quer.

O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha de mar e céu ao pôr do sol,

É dele quando ele bem quer.

Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza, ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.

1913


BANDEIRA, Manuel. “Carinho triste”. In: O ritmo dissoluto. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 110.

 


Marca d'água

A vigília de Hero

 


Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida. E no entretanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie…

Não sei por que te falo assim de coisas que não são
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me!

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos,
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!

Mas sofrer... inquieta...
Ah, com que poderei contentá-la jamais?
Quisera calmá-la na música... Ouvir, muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!
Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável! Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa... Ah, se eu ouvisse a tua voz!


BANDEIRA, Manuel. “A vigília de Hero”.In: O ritmo dissoluto. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 111-112.

 


Marca d'água

Belém do Pará

 


Bembelelém
Viva Belém!

Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem

Bembelelém
Viva Belém!

Cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinquente:
O apedrejador de mangueiras.)

Bembelelém
Viva Belém!

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré

Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de todas as cidades do
[Brasil

Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro

Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.

Terra da castanha
Terra da borracha
Terra de biribá bacuri sapoti
Terra de fala cheia de nome indígena
Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de plumagem bonita.

Nortista gostosa
Eu te quero bem.

Me obrigarás a novas saudades
Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé
Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas
E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão bonitinhos

Nunca mais me esquecerei
Das velas encarnadas
Verdes
Azuis
Da doca de Ver-o-Peso
Nunca mais

E foi pra me consolar mais tarde
Que inventei esta cantiga:

Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.

Belém, 1928


BANDEIRA, Manuel. “Belém do Pará”. In: Libertinagem. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 132-133.

 


Marca d'água

Vou-me embora pra Pasárgada

 


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqiente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


BANDEIRA, Manuel. “Vou-me embora pra Pasárgada”. In: Libertinagem. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 143-144.

 


Marca d'água

Balada das três mulheres do sabonete araxá

 


As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.

Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vêm saindo cor de prata
Ou celestes africanas:

Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais
[telefonava.

Mas se a terceira morresse... Oh, então, nunca mais a minha vida outrora
[teria sido um festim!

Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no
[Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulhe-
[res do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Teresópolis, 1931


BANDEIRA, Manuel. “Balada das três mulheres do sabonete araxá”. In: Estrela da manhã. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p.150-151.

 


Marca d'água

Nu

 


Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus seios exíguos
— Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos —

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto,
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...


BANDEIRA, Manuel. “Nu”. In: Estrela da tarde. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 243-244.

 


Marca d'água

Segunda canção do beco

 


Teu corpo moreno
É da cor da praia.
Deve ter o cheiro
Da areia da praia.
Deve ter o cheiro
Que tem ao mormaço
À areia da praia.

Teu corpo moreno
Deve ter o gosto
De fruta de praia.
Deve ter o travo
Deve ter a cica
Dos cajus da praia.

Não sei, não sei, mas
Uma coisa me diz
Que o teu corpo magro
Nunca foi feliz.


BANDEIRA, Manuel. “Segunda canção do beco”. In: Estrela da tarde. In: Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, ed. 23, 1993, p. 254.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)