Cantos Populares do Brasil (1883)
A noiva roubada
- Deus vos salve, minha tia,
Na sua roca a fiar !
<<Si tu és o meu sobrinho,
Tres signaes has de me dar.
-Qu'éd'el-o meu cavallo
Qu’eu aqui deixei ficar?
<< O teu cavallo, sobrinho,
Está no campo a pastar.
- Qu'éd'el-a minha espada
Qu’eu aqui deixei ficar?
<< A tua espada, sobrinho
Está na guerra a batalhar.
- Qu'éd'el-a minha noiva
Qu'eu aqui deixei ficar?
«A tua noiva, sobrinho,
Está na igreja a se casar.
-Selle, selle o meu cavalo
Qu’eu quero ir até lá;
Eu andei por muitas terras
Sempre aprendi a fallar.
- Deus vos salve, senhora noiva,
N'este seu rico jantar.
« Si é servido da boda,
Apeie-se e venha manjar.
ROMERO, Sylvio (org.). “A noiva roubada”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 4-5.
Juliana
-Deus vos salve, Juliana,
No teu estrado assentada.
«Deus vos salve, rei Dom Jóca,
No teu cavallo montado.
Rei Dom Jóca, me contaram
Que tu estavas p'ra casar?
Quem t'o disse, Juliana,
Fez bem em te desenganar.
«Rei Dom Jóca, se casaes
Tornai ao bem querer,
Poderás enviuvar
E tornar ao meu poder.
-Eu ainda que enviuve
E que torne enviuve
Acho mais facil morrer
Do que comtigo casar.
« Espera ahi, meu Dom Jóca,
Deixa subir meu sobrado,
Vou vêr um copo de vinho
Que p'ra ti tenho guardado.
- Juliana, eu te peço
Que não faças falsidade.
Vejaes que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
Que me déste, Juliana,
N'este copinho de vinho,
Que estou com a rédea na mão,
Não conheço o meu caminho?
A minha mãi bem cuidava
Que tinha seu filho vivo.
<<A minha tambem cuidava
Que tu casavas commigo.
- ó meu pai, senhora mãi,
Me bote sua benção,
Abrace bem apertado
O meu maninho João.
Meu pai, senhora mãi,
Me bote a sua benção;
Lembranças á Dona Maria,
Tambem á Dona Cellerencia.
A minha alma entrego a Deus,
O corpo á terra fria,
A fazenda e o dinheiro
Entregue a Dona Maria.
- « Cale a bocca, meu Dom Jóca,
Ponde o coração em Deus,
Que este copo de veneno
Quem te ha de vingar sou eu.
-Já acabou-se, já acabou-se,
ó flôr de Alexandria !
Com quem casará agora
Aquella moça Maria?
Já acabou-se, já acabou-se,
Já acabou-se, já deu fim.
Nossa Senhora da Guia
Queira se lembrar de mim;
ROMERO, Sylvio (org.). “Juliana”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 36-37.
Xácara de Dom Jorge
Dom Jorge se namorava
D'uma mocinha mui bella;
Pois que apanhando servido
Ousou logo de ausentar-se
Em procura d'outra moça
Para com ella casar.
Juliana que d'isto soube,
Pegou logo a chorar,
A mãi lhe perguntou :
-De que choras, minha filha?
«É Dom Jorge, minha mãi,
Que com outra vai casar.
-Bem te disse, Juliana,
Que em homens não te fiasses;
Não era dos primeiros
Que as mulheres enganasse .
- << Deus te salve, Juliana,
No teu sobrado assentada!
«Deus te salve, rei Dom Jorge,
No teu cavallo montado.
Ouvi dizer, rei Dom Jorge,
Que estavas para casar?
-<< É verdade, Juliana,
.Já te vinha desenganar.
« Esperai, rei Dom Jorge,
Deixa eu subir a sobrado;
Deixa buscar um copinho
Que tenho p'ra ti guardado.
-<<Eu lhe peço, Juliana,
Que não haja falsidade ;
Olhe que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
<< Eu lhe juro por minha mãi,
Pelo Deus que nos creou,
Que rei Dom Jorge não logra
Esse seu novo amor.
- << Que me deitas, Juliana,
N'este seu copo de vinho?
Estou com as rédeas nas mãos,
Não enxergo meu rucinbo?
Ai, que é do meu paisinho,
Por elle pergunto eu?
Eu morro, é de veneno
Que Juliana me deu.
-Morra, morra o meu filhinho,
Morra contrito com Deus,
Que a morte que te fizeram
EU a quem vinga sou eu.
- <<Valha-me Deus do céo,
Que estou com uma grande dôr;
A maior pena que levo
É não vêr meu novo amor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Xácara de Dom Jorge”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 38-39.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)