Cantos Populares do Brasil (1883)
D. Carlos de Montealbar
<<Linda cara tem o conde
Para commigo brincar.
-Mais linda tendes, senhora,
Para commigo casar.
Veiu o caçador e disse:
-<< A el-rei irei contar
Que apanhei a Claralinda
Com Dom Carlos a brincar
«Vem cá, meu caçador,
Caçadorzinho real,
Da:rei-te villas de França
Que não possas governar,
Darei-te prima carnal
Para contigo casar.
-<< Não quero villas de França,
Nem sua prima carnal;
Com ella hei-de casar;
A el-rei irei contar,
Mais tem elle que me dar:
Apanhei a Claralinda
Com Dom Carlos a brincar.
De abraços e boquinhas '
Não podiam desgarrar,
Da cintura para baixo
Não tenho que lhe contar.
=Si me dissesses occulto,
Posto te havia de dar,
Como dissestes ao publico,
Vai-te já a degolar.
Ide guardas já prender
Dom Carlos de Montealbar,
De mulas acavalgadas
Qne lhe pesem um quintal ;
Dizei a seu tio bispo
Que o venha confessar.
« Deus vos salve, Clarasinha,
Rainha de Portugal,
Dom Carlos manda dizer
Que o saias a mirar.
Inda que a alma cl'elle pene
A sua não penará.
- Levanta-te, Claralinda,
Rainha de Portugal,
Ide defender Dom Carlos
Para não ir a enforcar.
« Que ganhaste, mexeriqueiro,
A meu pai em ir contar?
-<< Ganhei a forca, senhora,
D'ella me queira livrar.
ROMERO, Sylvio (org.). “D. Carlos de Montealbar”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 13-16
Juliana
-Deus vos salve, Juliana,
No teu estrado assentada.
«Deus vos salve, rei Dom Jóca,
No teu cavallo montado.
Rei Dom Jóca, me contaram
Que tu estavas p'ra casar?
Quem t'o disse, Juliana,
Fez bem em te desenganar.
«Rei Dom Jóca, se casaes
Tornai ao bem querer,
Poderás enviuvar
E tornar ao meu poder.
-Eu ainda que enviuve
E que torne enviuve
Acho mais facil morrer
Do que comtigo casar.
« Espera ahi, meu Dom Jóca,
Deixa subir meu sobrado,
Vou vêr um copo de vinho
Que p'ra ti tenho guardado.
- Juliana, eu te peço
Que não faças falsidade.
Vejaes que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
Que me déste, Juliana,
N'este copinho de vinho,
Que estou com a rédea na mão,
Não conheço o meu caminho?
A minha mãi bem cuidava
Que tinha seu filho vivo.
<<A minha tambem cuidava
Que tu casavas commigo.
- ó meu pai, senhora mãi,
Me bote sua benção,
Abrace bem apertado
O meu maninho João.
Meu pai, senhora mãi,
Me bote a sua benção;
Lembranças á Dona Maria,
Tambem á Dona Cellerencia.
A minha alma entrego a Deus,
O corpo á terra fria,
A fazenda e o dinheiro
Entregue a Dona Maria.
- « Cale a bocca, meu Dom Jóca,
Ponde o coração em Deus,
Que este copo de veneno
Quem te ha de vingar sou eu.
-Já acabou-se, já acabou-se,
ó flôr de Alexandria !
Com quem casará agora
Aquella moça Maria?
Já acabou-se, já acabou-se,
Já acabou-se, já deu fim.
Nossa Senhora da Guia
Queira se lembrar de mim;
ROMERO, Sylvio (org.). “Juliana”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 36-37.
Prima pulga
Prima Pulga está doente,
Muquirana está parida,
Meu compadre percevejo
'Stá de espinhela cahida.
Batata. não tem caroço,
Bananeira não tem nó;
Pae e mãe é muito bom,
Barriga cheia é melhor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Prima pulga”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.208-209.
Xacara de dom Jorge
Dom Jorge se namorava
D'uma mocinha mui bella;
Pois que apanhando servido
Ousou logo de ausentar-se
Em procura d'outra moça
Para com ella casar.
Juliana que d'isto soube,
Pegou logo a chorar,
A mãi lhe perguntou :
-De que choras, minha filha?
«É Dom Jorge, minha mãi,
Que com outra vai casar.
-Bem te disse, Juliana,
Que em homens não te fiasses;
Não era dos primeiros
Que as mulheres enganasse .
- << Deus te salve, Juliana,
No teu sobrado assentada!
«Deus te salve, rei Dom Jorge,
No teu cavallo montado.
Ouvi dizer, rei Dom Jorge,
Que estavas para casar?
-<< É verdade, Juliana,
.Já te vinha desenganar.
« Esperai, rei Dom Jorge,
Deixa eu subir a sobrado;
Deixa buscar um copinho
Que tenho p'ra ti guardado.
-<<Eu lhe peço, Juliana,
Que não haja falsidade ;
Olhe que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
<< Eu lhe juro por minha mãi,
Pelo Deus que nos creou,
Que rei Dom Jorge não logra
Esse seu novo amor.
- << Que me deitas, Juliana,
N'este seu copo de vinho?
Estou com as rédeas nas mãos,
Não enxergo meu rucinbo?
Ai, que é do meu paisinho,
Por elle pergunto eu?
Eu morro, é de veneno
Que Juliana me deu.
-Morra, morra o meu filhinho,
Morra contrito com Deus,
Que a morte que te fizeram
a quem vinga sou eu.
- <<Valha-me Deus do céo,
Que estou com uma grande dôr;
A maior pena que levo
É não vêr meu novo amor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Xacara de dom Jorge”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.38-39.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)