Manoel Tavares de Siqueira e Sá (17?- )
Prefação
As armas e os brasões santificado,
Que da cereal da província transtagana.
Passaram, pelos mares empolados,
A ilustrar a região Americana:
Merecendo fieis, regios agrados,
No governo, por graça soberana,
Moderando as brazilicas comarcas,
No reinado feliz de dois monarcas.
E também os poemas elegantes
Dos alumnos de ApoIo, que discretos,
Nos que exprimem conceitos relevante,
O carácter se imprimem de Selectos:
Epigramas subtis e altissonantes,
Com oitavas, romances e sonetos:
Recitará fiel, com desempenho,
Se o puder conseguir, meu tardo engenho.
Cala, ó deusa loquaz, dos Singulares
O valor e o primor dos Generosos,
Ainda que em conceitos não vulgares
Se fize.. em no orbe tão fama os:
Porque agora acharás, se bem notare,
ada avultam seu metros numeroso,
Quando brilha feliz com energia,
Dos selectos a douta Academia.
E vós, Naiades bellas, se criado
Tendes em mim tão prompto e reverente,
Que não sabe faltar, lo vosso agrado,
Aos obséquios no culto mais decente:
Permite que recite hoje entoado
Os poemas, com alma tão valente,
Que pareçam manar, com gentil troca,
Do Aganippe os crystaes da Carioca.
Dai-me uma voz tão doce, que suave
Possa ao Thracio cantor meter inveja
Que excedido Amphião de mim se agrave
E que admirado Arion jamais não seja:
Que no meu canto unindo o agudo e grave,
ovo e segundo Apollo em mim se veja,
E o novo heroi se veja sem segundo,
Celebrado no antigo e Nova-Mundo.
E vós, ó inclyto Freire, excelso Andrada,
Honra e glória imortal de Bobadella,
Cuja pena subtil, aguda espada
Da Cefarea contemplo paralela:
Com as quaes urna e outra mão armada,
Sois do Brasil firmissima tutela,
Mandado pelo rei a governal-o,
Para glória do rei, bem do vassallo;
Vós, generoso ramo descendente
Do illustre antigo tronco denodado,
Que do Agareno barbaro insolente
Soube triumphar catholico esforçado :
Como no vosso escudo claramente
Ainda agora se lê bem decifrado,
Na que recita letra em voz suave
Paranympho celeste, á celea ave;
Vós, general invicto, a cujo imperio
Obedece feliz este aureo empório
Do Brasílico Estado, o ministério
Com agrado cumprindo assáz notório:
E, qua1 Febo, girando o globo ethereo,
Ilustrais este e aquelle promontório,
Já no sertão ao bárbara gentio,
Ou já ao civil Aulico, no Rio:
Suspendei os desvelos por agora,
Em que Numa abstraído vos contemplo,
Construindo, da Mística Doutora,
As mais puras Vestaes o melhor templo:
Porque lá do Carmelo, sem demora,
Esta cópia nos sirva cá de exemplo,
Venturosos logrando aqui, sem erro,
Das virtudes a patria no desterro.
E atendei aos applausos generosos
Dos alumnos de Apollo, que as camenas
Lhes influem, Senhor, que harmoniosos
Vos invoquem por inclyto Mecenas:
E ainda que em seus metros numerosos
Vossos méritos cabem mal e apenas,
A recitar seus versos oportunos
Me estimulam de Apolo estes alumnos.
Pois correndo a cortina ao planisfério
Da historia do valor e do discurso,
Bem na vossa ascendencia o magistério
Vem das armas e letras em concurso:
E sem temer que o cynico critério
Da Aganippe lhes turbe o claro curso,
Para cantar em vós tem felizmente
As armas e o varão mais excelentes.
Das acções vo·. as, que de Marte exemplo,
E de Minerva são norma invejada,
Humana musa indigna assáz contemplo,
Que a divina só é proporcionada:
Mas, da Fama, qualquer no Augusto Templo
Vos augura (Senhor) segura a entrada
Por invicto, por forte e por valente,
Por zeloso, por sábio e por prudente
Todos estes honrosos caracteres
E outros muito, vereis verificado.
Em vós hoje, Senhor, se agora deres
Atenção a discursos bem fundados:
Mas por mais que, ó modestia, aqui te esmeres,
Não poderás sufocar os cultos brados,
Com que (novo Feijó) mostrar intento,
Que há poemas cabaes sem fingimento.
Neste Rio, o Meandro ou o Caystro,
Por tal cópia de cysnes estou vendo,
Que outros tantos e iguaes, do Tejo ao Istro,
Lynce ApoIo não vê, segundo entendo:
Eu, á sua harmonia, emfim ministro,
Imitar em meu canto só pretendo,
Mas temo que o respeito e o fluxo um pouco
A voz trêmula e o canto rouco.
Na leitura se fôr balbuciante,
Dissimular deveis qualquer tropeço,
Que qual Tulio, confesso ingenuamente
De dizer nos principias me estremeço:
Mas só para cantar-vos eloquente,
(Bem que tanta ventura não mereço)
Desejara hoje ter, com phrase grata,
Boca de ouro, Senhor, língua de prata.
Porém, destes metaes tão cobiçados,
Que a Fortuna avarenta a tantos nega,
Por mais que a isso aplico alguns cuidados
Tudo é nada, por fim nada me chega:
Mas os meu' pensamentos desvelados
Em tal caso a prudência me sossega;
Pois me habilito pobre, neste caso,
Por cidadão da côrte do Parnaso.
Nesta côrte hoje intento exercitar-me,
E nas suas intrigas in truir-me,
Ás etiquetas suas aplicar-me,
Porque culto poeta me confirme:
Desta arte pretendo habilitar-me
Para os vossos encomios sempre firme;
Mas em quanto eu só canto a voz de Pegas,
Ouvi vós a dos cysnes meus colegas.
Pois como deles pende o desempenho
Dos assumptos, que estão determinados,
Hoje os méritos vossos com engenho
Altamen te ouvireis bem decantados:
E como a publicar só aqui venho
Seus poemas sublimes e elevados,
A recitar-vos já tanto elogio
O Proemio acabando, principio.
SÁ, Manoel Tavares de Siqueira e. “Prefação”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 108-114.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)