Manuel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)
O templo de neptuno
A deos termindo, adeos angustos lares,
Da formosa Lisboa; o leve pinho
Já solta a branca véla aos frescos ares.
Amor, o puro amor do patrio ninho
Ha muito que eu me acena, e roga ao fado
Que eu sulque o campo azul do Deos marinho
Eis a não que já d’hum, já d’outro lado
Se deita, e se levanta; foge a terra,
E me foges também termindo amado.
Da alegre Cintra a desejada serra
Mal apparece, e o valle, que ditoso
De liia, e Jonia a voz, e a lira encerra.
Ainda me parece que saudoso
Te vejo estar da praia derradeira.
Caçando a vista pelo mar undoso.
Já não distingues a Real bandeira
Despregada da pepa, que voando
Deixa no mar inquieto larga esteira.
Sei que te hão de assustar de quando em quando
O vento, os varios climas, e o perigo
De quem tão longos mares vai cortando
O lenho voador leva consigo,
E te arranca dos braços n’hum só dia
O suspirado irmão, e o caro amigo.
Rijo norte nas cordas assobia,
Quatro vezes do sol os raios puros
Voltárão, e só mar, e Ceo se vira:
Quando a esteril Selvage [a] os verdes-escuros
Hombros ergueu do sal, que se quebrava
Nas pontas dos rochedos duros.
Eu vi Trintão mancebo, que animava
O retoreido buzio, e dilligente
De todo o mar a corte se ajuntava.
Bete as azas hum Genio, e vêm contente,
N’huma mão a coroa, n’outra taça,
Deo-me do nectar, e cingio-me a frente.
Termindo, pois de Febo a mão escassa
Nega seos dons aos rudes, e aos profanos,
Guarda meos versos dessa tosca raça.
Embora os leião peitos sobre-humanos
Que no cume do monte bipartido
Virão das santas musas os arcanos.
Entrei no templo de cristal polido,
Do grçao Neptuno amplissima morada,
E o vi n’hum throno de safra erguido.
De fronte está de ninfas rodeada
A branca thetis, as enormes Phocas
E os amantes Delfins guardão a entrada.
Os grandes rios, que por largas bocas
Entrão no vasto mar com fama e gloria,
C’o as urnas vêm desde as nativas rocas
Vejo a paz, a fortuna, e a victoria,
O deos da Arcadia, e o inventor da lira,
Venus, Amor, e as filhas da memoria
Principe amado, por ti suave gira
Nas cordas d’oiro o delicado plectro
Apollo o move, e Clio assim respira.
Em alto nopcial, festivo metro
Do lucido Titan a bella esposa,
De cor de rosa o aureo coche adorna;
E alegre torna a nos mostrar seu rosto,
Cheio de gloria, de prazer, de gosto.
As brancas azas sobre o novo leito
Aos Ceos acceito o casto amor estende,
A pira accende, e inda estreitar procura
O mais ditoso laço a fé mais pura
Concordia, tu lhe tens recida,
De quantos ida em margens deleitosas
Cria intactos jasmins e frescas rosas,
Persisco ornato a fertil copia ajunta;
E de Amatunta a Deosa delicada
Vem rodeada dos cupidos bellos,
Huns voão, outros lhe pendem dos cabellos
Casta lucina, o teu formoso aspecto
Com doce affecto inclina, e nos dê prova
A prole nova que he de amor tributo,
E seja de taes ramos digno gructo;
Se fundarão por seculos inteiros,
A vós guerreiros, de Lisboa os muros,
Netos futuros entre gloria immensa
Nascei, he vossa a justa recompensa.
Cercão o thorouo a candida verdade,
E em terna idade a rara fé nobreza,
Graça, belleza, e quanto o Ceo fecundo
Por honra da virtude envia ao mundo.
O jubilo nos povos se derrama,
Alegre a fama vai de agoiros cheia,
E a nuvem, feia que a tristeza envolve
Espalha o vento, e em átomos dissolve.
Do grande Avô o espirito disperso
Pelo Universo vûa, aos seus vindouros
prepara os loiros; vejo a murta, e as palmas,
Dignas coroas de tão grandes almas.
Possa da Angusta Filha o forte braço
Por longo espaço sustentar o escudo,.
Que ampara todo o que o seu Reino encerra,
É encher de astros o Çeo, de heros a terra:
Cantou a Musa, e sobre todos chova
Celeste ambrosia; alado mensageiro
Leva as noticias ao supremo Jove.
Ouvio então do mar o reino inteiro
A fatidica voz, e o nobre canto
De Proitheo, que os lituros vio primeiro.
Cantava como ainda... mas o espanto
Dos olhos me roubou tudo o que eu via,
Que os timidos mortais não podem tanto.
Cheia de limo, e de ostras, dividia
A ja cansada proa os mares grossos,
Até que amanheceo o novo dia.
Se em fim respiro os puros climas nossos
No teo seio fecuido, ó patria amada,
Em paz descuncem os meus frios ossos.
Vive Termido, e na insconstante estrada
Piza a cervis da indomira fortuna,
Tendo a volubil roda encadeada
Aos pés do throno en solida columnas
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “O templo de neptuno”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829.
p. 9-13.
ODE
Longe, longe daqui, vulgo protapo,
Que das Musas ignoras os segredos.
Eu vi sobre rochedos,
Onde nunca tocou vestigio humano,
Alta Deosa descer com fausto agoiro
Em branca nuvem realçada d'oiro.
Ah ! vem, formosa candida Verdade,
Noa versos meos a tua luz derrama;
Por elles nome e fama
Terei com gloria na futura idade:
Premio, que me não rouba a mão escasso.
Do tempo injusto, que voando passa.
A perfida lisonja, pregoeiralmen
De palmas e tropheos nao merecidos ,
Aos éccos repetidos b Prett
Da minha Lyra foge mais ligeira,
Do que cruza os limites do Hemisferio
O leve fusilar do fogo ethereo.
Levante embora os façanhosos Templos
Barbaro habitador do cego Egypto,
Onde de infame rito
Deixe aos mortaes tristissimos exemplos,
Louca vaidade, e orgulho, que, nutrirão,
E inda agora as Piramides respirão.
De Nações, que assolou com guerra dura,
Obeliscos transporta a antiga Roma:
Nos curvos hombros toma
O vasto pezo, que elevar procura;
E a molle immensa, que o Averno opprime
Fere co'a ponta aguda o Ceo sublime.
De que servem á fraca humanidade
Esses de falsa gloria monumentos?
Insultados dos ventos
Estereis passarão de idade á idade,
Qual Gelboe, que o Ceo nao abengoa,
E sô d'aridas pedras se povôa.
Tu sim, com gloria ao Mundo e aos Ceos acceito,
Te elevas', firme asilo da inocência;
Tua magnificencia
Co'as virtudes se abraça em laço estreito;
Estes não são os muros, onde dorme
A vãa superstição, e o Vicio enorme
Eu t'admiro qual arvore frondosa,
Que, novos fructos produzindo, cresce:
Por ti risonha desce
Suave Primavera deleitosa.
Nem temas que te roube Astro maligno
O oryalho creador do Ceo benigno.
Em vao gelado Inverno extenda as azas
Sobre o carro de Bóreas proceloso;
Em vão o Cão raivoso
Chammas espalhe nas Celestes cazas :
Sempre illesa serás, segura, eterna ;
Quanto se deve mão, que nos governa.
O' generosa mao, que não desmaias
No meio das fadigas! Ou dos montes
Desção as puras fontes,
Ou fuja o nar infesto as nossas
Ou a peste horrorosa, magia, e escura
Ache no antigo lago à sepultura.
As artes se levanta apressadas,
E alegres, á colher a flor o fructo:
E as musas por tributo,
Enlaçando Coroas engraçadas,
Mandao nas ázas do ligeiro vento
Hymnos de paz ao claro firmamento.
Doce Faz, ah!não fujas! Longos annos
Na Guerra n'outros campos homicida,
Semeie enfurecida
Co'a mão ensanguentada os mortaes danos;
E em tanto no seo bosque alto, e sombrio
Descanse em urua d'oiro o Patrio bio.
Mas que trovoes? Que nuvem sobre os ares
Vôa açoitada do soberbo Noto?
Vem, O' sabio Piloto
A furia contrastar dos negros mares,
E a vencedora não possa contente
Lançar na curva praia o ferreo dente.
Se a Discordia com éccos furibundos
Sacóde a negra facha accesa em ira :
Se o furor, que respira,
Turba os vastos confins d'ambos os Mund
Tu abrirás no campo da victoria
Novos caminhos para nova gloria.
Qual o Leão feroz, que generoso,
Brando, e grave, na paz encobre a furia,
Mas que depois da injuria
Encrespa a grenha, e firme, e valeroso
Arrostra o inimigo, e nao descança
Sem tomar no seo sangue alia vingança:
Tal espero ver-te, O’novo marte,
Por entre estragos, mortes, e ruinas,
As Lusitanas Quinas
Levando vencedor por toda a parte,
E igual aos teos Maiores sobre a terra
Grande sempre na Paz, grande na guerra.
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “ODE”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 18-21.
ODE
A Fastosa indolencia,
Tarda preguiça, e mólle occiosidade,
Tiveste por Sciencia,
Infeliz Lusitana Mocidade.
Viste passar, cahindo de erro em erro,
Barbaros dias, seculos de ferro.
Parece não tocada
A arêa, que já foi por tantas vezes
Com o suor regada
Dos sabios, dos antigos Portuguezes,
Que em premio das fadigas alcançarão
Os verdes loiros, de que a frente ornarão.
Longe de seus altares
Jaz a Deosa, que horror! posta em desprezo.
Cobre de sombra os ares
Deos do trovão, hun raio d'ira acceso
Vinge a Filha do ceo. Os mundos tremem,
O Sol desmaia, o vento e os mares gemem.
A face descorada
No manto azul co' a propria mao esconde ,
Por não ver coroada
A ignorancia, qu' insulta e que responde,
Que em seus annaes escreve por façanha
Ter subjugado a generosa Hespanha.
Mas ella vệ por terra
Todo o seu culto á cinzas reduzido.
Faz-lhe improvisa guerra
Raio consumidor do Ceo cahido; muros d'aço,
Tudo cede do poder do Augusto braço.
Aos cegos Africanos
Voa a superstição buscando asilo.
Fanaticos enganos,
Tornai as margens do encantado Nilo,
E o segro monstro, que se expoem sereno
Ao ferro, ao fogo, ao laço, e ao veneno.
A perfida impostura
Nem sempre ha de reinar; hum claro dia
Aparta a nevca escura
Do tu Templo, immortal Sabedoria :
Gemem das aureas portas os ferrolhos,
È a desuzada luz offende os olhos,
Aquella mão robusta,
Dos Hercoleos traballos não cançada ,
Não treme, não se assusta
Quando de leva aos Astros, adornada
Do nativo esplendor,e magestade,
Qual já te vio de Roma a bella idade
Assim depois que dura
Seculos mil essa ave portentosa
Da mesma sepultura
Resu c a mais bella e mais formosa,
Para admirar de nova gloria chea
Os aridos desertos da Sabéa.
D' candida Verdade,
Filha da immensa luz, que o Sol conserva,
Illustra em toda. a idade
E-te sagrado Templo de Minerva.
Digna-te ser, pois vens do assento ethereo ,
A Deosa tutelar do nosso Imperio.
E vós, ou vos criasse
A nobre Lysia no fecundo seio,
Ou já nos convidasse
Amor das Lettras no regaço alheia,
Cortando os mares, desde as praias, onde
O oiro nasce, e o Sol o carro esconde:
Pisai cheios de gosto
Da bella gioria os asperos caminhos,
Em quanto volta o rosto
O fraco, a inerte á vista dos espinhos,
E fazei que por vós inda se veja
O Imperio furecente, e firme a Igreja.
Longe do féro estrago.
Os pomas d'oiro colhereis sem susto.
O sibilante Drago
Cahio sem vida aos pés do Throno Augusto;
le ainda tem sobre a testa forinidavel
Do grando Heroe a langa inevitável
Enchei os ternos votos
Da nascente esperança Portugueza ;
Por caminhos remotos
Guia a virtude ao Templo da Grandeza :
Hid e , correi, voai, que por vós chama
O rei, a Pátria, o Mundo , a Glória, a Fama
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “ODE”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 28-31.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)