Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)


Marca d'água

A Perdição de Josefina

 


Eu vi o lírio debruçado sobre a escura terra.
Eu vi o lírio manchado e murcho.
Eu vi o lírio perdido para mim e perdido para os tempos!
E senti no coração as mágoas das grandes culpas.

Por que não salvamos Josefina, Senhor?
Por que deixamos a perdida filha da noite
Abandonada às míseras prisões cotidianas?
Por que não salvamos aquela que era a Graça e cantava?
Por que não a violentamos com o nosso ímpeto,
E por que a deixamos brincando na sua inconsciência?

Josefina, será a presa das coisas baças e melancólicas
No entanto, foi um sorriso, foi um instante de frescura
[e repouso,

Uma sombra de velhas árvores
Um inquieto regato.
Hoje está no triste caminho das renúncias
- — E foi o Sonho, e tinha as mãos frias e os pés pequenos
[e leves

Era uma Graça morena, era a presença do Amor. eia a
[rosa mal-nascida.

Um dia nos convidou para a fuga,
E sentimos que os ventos da noite falavam pela sua voz
[ inocente,

Sentíamos que era a própria fantasia que palpitava
Nos seus seios virginais!

Ah! perdida - Josefina!
Senhor! tudo isso não é mais;
Tudo isso está escondido, e mal podemos lembrar o que
[foi um dia

Hoje nós poderemos debruçar sobre a que foi Josefina!
Seu destino foi mais triste que o das flores que a tempes-
[tade sufocou.

Seu destino foi mais triste que o dos passarinhos mortos
[ainda implumes!

Josefina, Senhor, é a serva das coisas mais pobres e feias!


SCHMIDT, Augusto Frederico. “A perdição de Josefina” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 42.

 


Marca d'água

Josefina no coração das fogueiras

 


Junho virá de novo!
Sentiremos as úmidas estrelas
Nos mesmos céus de outrora.

Junho virá de novo!
E de novo fixada no tempo,
Livre, pura e alta,

Surgirá a eterna Josefina,
Morena e simples, com a fonte límpida.
As flores inocentes nos cabelos,

Tal como o Amor a configurou
Tal como se revelou à poesia,
Na sua humilde hora de glória.

Junho virá de novo!
Fogueiras ardendo, vozes macias!
Veremos de novo, nos céus em flor, a fuga das estrelas.

Teremos de novo nas nossas mãos
As frias e delicadas mãos de Josefina
Tal como aconteceu no tempo morto.

Teremos de novo pousada em nosso peito
A cabeça gentil de Josefina,
Num gesto manso de abandono.

Num gesto de pássaro cansado,
A cabeça gentil de Josefina pousará de novo
Junto ao nosso coração pacificado,

Tal como aconteceu na hora perdida,
Na hora em que a dança envolveu o tempo morto.
Junho virá de novo!

Josefina voltará com os primeiros frios de Junho!
No coração das fogueiras a fisionomia de Josefina nos
[ sorrirá.

Ela não será efêmera como as flores e a pobre mocidade.
Josefina virá de novo, na hora de liberdade e trans-
[ figuração.

O Sonho a trará adormecida nos seus longos braços,
Com as sandálias balançando nos pequenos pés morenos,

Com as flores simples nos cabelos,
Tal como o Amor a fixou para sempre.
Junho trará de novo Josefina!


SCHMIDT, Augusto Frederico. “Josefina no coração das fogueiras” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 40.

 


Marca d'água

Lamentação sobre Josefina

 


Vamos, amigo, vamos, companheiro,
Vamos chorar a leve Josefina.
Vamos amigo meu, chora aquela
Que foi a ingénua nuvem branca
Em escuros céus!
Vamos, amigo, vamos lavá-la
Em nossas lágrimas!

Era branca, era pura, era alegre!
Um dia, sorriu-nos
Lembras-te? Era no inverno.
Ouvíamos os ventos que brigavam
Nas escuras florestas.
Sentíamos em nós os grandes esquecimentos.
Éramos seres abandonados da alegria!
Os nossos olhares não tinham mais o brilho dos que
[esperam.

Estávamos perdidos no tédio.
Trazíamos conosco o peso das nossas longas mocidades.
Foi então que Josefina surgiu!
Era a pequena flor, era a pequena alegria, era a vida que
[nos era de súbito restituída!
Ouvíamos o ,som da sua humilde música, da jovem
[música de Josefina!

Josefina não se lembra mais de si mesma!
Seu corpo é uma pobre casa perdida e escura.
Chorar Josefina é chorar sobre nós mesmos
E sentir a dura existência,
Inflexível aos nossos anseios e aos nossos sonhos!


SCHMIDT, Augusto Frederico. “Lamentação sobre Josefina” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 38.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)