Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Marca d'água

Brasil / Tarsila

 

A Aracy Amaral


Tarsila
descendente direta de Brás Cubas
Tarsila
princesa do café na alta de ilusões
Tarsila
engastada na pulseira gótica do colégio de Barcelona
Tarsila
medularmente paulistinha de Capivari reaprendendo
o amarelo vivo
o rosa violáceo
o azul pureza
o verde cantante
desprezados pelo doutor bom gosto oficial.

Tarsila radar tranquilo
captando em traço elíptico
o vazio da rua de Congonhas com um cachorro e uma galinha servindo de multidão
a mudez da rua de São João del Rei com duas meninas no cenário operístico de casas
e igreja
o silêncio do desvio ferroviário
o sono da cidade pequena onde as casas são boizinhos espalhados em presépio.
(Tarsila, Oswald e Mário revelando Minas aos mineiros de Anatole.)
Tarsila acordando para o pesadelo
de assombrações pré-colombianas tão vivas agora como outrora
abaporu das noites na fazenda
bichos que não existem? mas existentes
cactos-animais, pedras-árvores,
monstros a expulsar de nossa mente
ou a recolher para melhor
seguir nosso traçado preternatural.
Tarsila mágica,
meu Deus, tão simples,
alheia às técnicas analíticas de Freud
e desvendando
as grutas, os alçapões, as perambeiras
da consciência rural,
expondo ao sol
a alegria colorida da libertação.

Tarsila relâmpago
de beleza no Grande Hotel de Belo Horizonte em 24
acabando com o mandamento das pintoras feias
Quero ser em arte
a caipirinha de São Bernardo
A mais elegante das caipirinhas
a mais sensível das parisienses
jogada de brincadeira na festa antropofágica.

Tarsila
nome brasil, musa radiante
que não queima, dália sobrevivente
no jardim desfolhado, mas constante
em serena presença nacional
fixada com doçura,
Tarsila
amora amorável d’amaral
prazer dos olhos meus onde te encontres
azul e rosa e verde para sempre.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Brasil / Tarsila”.In: As Impurezas Do Branco. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 489.

 


Marca d'água

Criação

 


A alma dos pobres se vai sem música,
mas a dos grandes é exigente.
A Banda Euterpe, logo chamada
por Monsenhor
para chorar o morto conspícuo
— azar — é nova, sem partitura.
Só se pedir à banda rival...
Henrique Dias (nome da outra)
recusa, egoísta. Defunto à vista
querendo arte. A tarde emurchece
e Monsenhor
espera, aflito, marcha ou o que seja.
Emílio Soares, maestro, fecha-se
no seu quartinho. Dó ré mi sol...
A Musa baixa, ou Santa Cecília,
dita ao maestro o fúnebre arroubo.
Onze da noite. Dormem os fiéis,
não Monsenhor.
Eis, no silêncio, clara, a corneta
do carcereiro chamando os músicos
(são todos guardas municipais)
para ensaiar. A banda valente
acorda o povo, causando pânico
a Monsenhor
e a todo mundo, que novidade
igual nunca houve. Como já sofrem,
amanhecendo, os de Henrique Dias!
Às nove, enterro. À frente, a batina
de Monsenhor.
Lá vai seguido da Banda Euterpe
que toca exausta, com sentimento,
luto orgulhoso, o Líbera-Mé,
favo da noite, glória de Emílio,
dádiva ao morto, que o céu inspira,
por Monsenhor.
Jamais um grande se foi sem música
e jamais teve outra, ungindo os ares,
como esta, grave, de Emílio Soares.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Criação”.In: A Falta Que Ama. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 556.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)