Gesto e palavra
Tomar banho, pentear-se
calçar botina apertada
ir à missa, que preguiça.
A manhã imensa escurecendo
no banco de igreja
duro ajoelhar
imunda reflexão dos mesmos pecados
de sempre.
Manhã que prometia caramujos
músicos
mágicos
maduros sabores
de tato, barco de leituras
secretas sereias...
apodrecida.
Não vai? Pois não vai à missa?
Ele precisa é de couro.
Ó Coronel, vem bater,
vem ensinar a viver
a exata forma de vida.
No rosto não!
Ah, no rosto não!
Que mão se ergue em defesa
da sagrada parte do ser?
Vai reagir, tem coragem
de atacar o pátrio poder?
Nunca se viu coisa igual
no mundo, na Rua Municipal.
— Parricida! Parricida!
alguém exclama entre os dois.
Abaixa-se a mão erguida
e fica o nome no ar.
Por que se inventam palavras
que furam como punhal?
Parricida! Parricida!
Com essa te vais matar
por todo o resto da vida.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Gesto e palavra”.In: BOITEMPO I. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 585.