Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

José Basílio da Gama (1740-1795)


Marca d'água

A declamação trágica

 


TU, que os costumes nossos melhor que ninguém pintas
Ensina-me o segredo, com que dás alma ás tintas.
Empresta-me as imagens, a quem dão vida as cores,
Quadros, que a tua mão quiz semear de flores.
deixaste as leis dos numeros diversos,
Tu nos deixastes as leis dos numeros diversos,
Despreaux, eu canto a Arte de recitar os versos.
A Dama, qu' em teos muros, magnifica Lisboa,
Esperar ornar a frente co' trágica coroa,
Se quer qu' seos louvores o povo se disvele
Estude o que he Theatro, antes de dar-se á elle.
Aprenda a magoar os insensiveis peitos,
E saiba da sua arte as regras o os preceitos.
Dege pensar, sentir, ou a, balança justa
Do povo ha d’ensinar-lhe hum dia á sua cesta
A Corte De promette conquistas de mil almas,
E para a nobre testa pronta lhe off’rece as palmas.
Do publico o bom gosto segura-lhe a victoria
E abre-lhe hum caminho mais facil para a glória.
Dê nos [ilegível] olhos do seo triumpho efeitos
Tem no Teatro Hum thorono, reta nos nossos peitos.

Vós, que buscaes a gloria, não procureis atalhos,
O placido descanso he filho de trabalhos;
Pizai o ocio vil, que flores tem por leito,
Exercitai a voz, e cultivai o peito.
Lede no coração, sondai a natureza,
Sabei as doces frases da Lingua Portugueza.
Luzir não púde a Dama, que a sua Lingua ignora
A' pezar dos thesoiros, que espallia quem a adóra.
O povo assim que a vê começa a assobiar :
Para fallas em verso, eonvem saber fallar.

Julgai a sangue frio, e examinai por gosto
Que paixões, que caracter exprime o vosso rosto.
N’elle hão de respirar as iras, o furor,
E por seo turno a raiva, o odio, a ambição, o amor
Talvez á enternecer-nos vosso dezejo aspira ?
Fazei com esses olhos, qu' eu na feliz zaira
Veja a cruel batalha de hum peito generoso,
Que perde as esperanças de vir a ser ditoso:
Quando banhando as mãos do pae a quem adora
Prefere ao sco amante hum Deos, que ainda ignoras

Nos papeis furiosos quereis levar a palma:
Pinte o terror dos olhos toda a desordem d'alma
Seja funesta a voz, horrendo e incerto o passo:
vosso rosto o povo leia no breve espaço
Projectos horrorosos, que fórma hu alma impia;
E apenas vos sahis, em vós veja Atalia
Que sobre si ja sente a mao, que chore os raios
Cercada de remórsos entre crueis desmaios.
Uni, se he que quereis arrebatar-nos logo,
A' hum medonho aspecto, hum coração de fogo.
O publico, embebido co a tragica grandeza
Otha pra o vosso estado, nao otha p’ra belleza.

Estatoas, sobre tudo, Melpomene aborrece,
Em cujos trios rostos paixao não apparece.
Cheias d'affectaçao seos insensiveis peitos
Com arte dão suspiros, chorando fazem geitos
A Dama presumida, estuda o dia ínteiro
Hum brando moter d'olhos ao vidro lizongeiro.
Vai hum por hum dispondo, por symnetria os passos
E aplaude o movimento dos ragarosos braços.
Do vidro, que ti engana , não siges o conselho,
Busca, que dentro d’alma, tens o melhor espelhos
Defronte dos cristaes, que adulão a vaidade
Não, à razão não juiza: quem julga he a bondade

Porque feições albeas, por obra do arteficio,
Vos formão da belleza magico edificio ;
Co' a roupa fluctuante azul, e cor de rosa,
Cuidaes que fingis Verus, ou Pallas magestosa?
Não vedes que a soberba vos allucina e céga?
Voss' alma por ventura toda jamais se entrega?
Os vossos olhos mortos nunca dicerão nada?
Moveis-me ao pranto ainda de lagrimas banhada?
Mas vós continuaes com hum doce sorrizo !
Assim assim na fonte se contemplou Narcizo.

Dentro do vosso peito he que podeis achar
A arte d' internecer, e o modo de agradar.

Depois de hum longo estudo de hum dia e de outro dia,
Sahi, o vosso genio vos servirá guia.
Já o casquilho louco, que he de si mesmo amante
Chega, desaparece, torna no mesmo instante ;
Inficionando o ar co' almiscar qy’ em si deita
O sério Magistrado s’inteza e s’indireita,
O grosso negociante, que o ler tem por desdoiro,
Todos os desejos comprando a peça d'oiro
Pende de vossa boca no curvo amphiteatro:
Fica a platea attenta co' os olhos: no theatro ,
Por vós e que s'espera: está tudo em segredo;
Olhai p'ra a multidão sem enfiar de medo,

Mas nunca os vossos olhos doces e encantadores
Parecao que mendigao do publico os louvores.
Desdenha esse arteficio o publico arrogante,
Zomba da namorada, honra a representante.
Offreça aos nossos olhos hum ar imperioso.
Conforme a agitação seja tambem diverso:
Rapido ou vagaroso, como o pedir o verso.

Que sern affectação na encantadora sala,
Imitem as acções tudo o que a lingua falla,
Cuidai em reprimir-lhe o excesso
Que sirvão as paixões de interprete eloquente,

Não posso ver as maos, que do seo sitio sahem,
Erguem-se por engonços, e por engonços cahem
Por isso as Scenas mudas querem estudo a parte

Então he que o talento chega á maior altura
A gloria das acções be toda da figura.
As vossas narrações mostrem o interno fogo
O publico impaciente quer tudo saber logo

Perca-se embora o verso, mas vagaroso e lento
Da timida Platea não canse o soffrimento.
Quem quer que hum doce engano cause o maior deleite,
Ao severo - Costume — convem que se sujeite.
Rio-me da figura, qu' indigna do seo posto,
sacóde o jugo, e traja, como lhe pede o gosto,
E que he tão atrevida, que por empreza toma
Varrer com hum —donaire — o pó d'antiga Roma.

Fora do seo lugar não affccteis riqueza :
Olhai para o papel, segui a natureza.
Representaes Electra nos criminosos Lares?
Lembrai-vos que he cativa, vive entre pezares.
Nao brihe a sua testa, no resplatdença manto,
Não sofre alegres cores rosto, que offusca o pranto.
O povo que vos julga, e que examina os erros,
Não quer de vos rubins, quer tão sómente ferror.

Abrir a antiga histona, ali vereis dispersas
Pelos diversos Climas truta nações diversas
Examinai-lhe os gostos, à inclinação, os nunes,
Quaes erao seos vestidos, as artes, e os costumes.
A Fabula engenhosa, que uteis enganos tece,
Todos os seos thesoiros liberalmente ofrece.
Ali le que a Verdade, que oruatos sãos repróva
Sendo no fundo a mesma, sempre parece nova.

Aqui encontraes Dido, que a pena não resiste ;
Seo rosto descorado sobre huma nuvem triste.
Forceja o rôto peito luctando com a morte:
Levanta-se trez vezes, e cahe da mesma sórte.
Seos olhos, que expirando guardão de Amor a chamma,
Parece qu'inda pedem aos Ceos o Heroe qu'ell'ama
Chóra de dor e d'ira só com suspiros falla,
Procura a luz do dia; geme depois de achal-a,

Niobe mais alem, mulher soberba e ousada,
A Mãi mais atrevida, e a Mãi mais desgraçada,
Os filhos huns sobr’outros, os filhos seos amados,
Que vista dolorosa! de settas traspassados,
A' força de sentir, parece que não sente,
O rosto descolido, olhando fixamente;
Muda ficou; as mogoas p'ella poderão tanto,
Que se secou nos olhos a fonte do seo pranto.
Aquelle seo silencio nenhuma voe iguala,
A voz da natureza no seo silencio falla.
Quereis que huma Rainha, que tem com sigo guerra,
Que traz no rosto os crimes, que vô rasgar-se a terra,

Que a roupa e todo chão vê do seo sangue asperso,
No ultímo suspiro dê a pancada ao verso?

Quereis que huma Donzella, que creo em fé perjura,
Afflicta abandonada no horror da noite escura,
Gritando se resolva ao temerario effeito,
Que se lembre da Arte, quando traspassa o peito ?
Rainha, que o Theatro por breve tempo adóra,
Esse orgulhoso fasto não conserveis cá fora.
Deixai na Scena o Sceptro, a raça illustre e nobre,
E a pomba, que meos olhos vos rouba e vos encobre
Tirou, dentre ruinas, Ferreira á Apollo acceito hum punhal no peito.
Os velhos seos altares, junto do Tejo erguidos,
Cobrio arêa e herca. Ainda mal cingidos
(Seculos infelices, e tanto em fim podestes?)
Murchãrão sobre a frente os funebres ciprestes.

Appareceo C***, a voz, que move e encanta,
O corpo sobre o braço Melpomene levanta,
A ignorância, a inveja, chorem de dor e d'ira;
He ella, eu ouço, eu vejo a tímida Palmira
Que aos pés do velho Pae, inda constante e forte,
De hum crime involuntário pede em castigo a morte.
Ah! Quando ao ver o Irmão nos últimos desmaios,
Lança do peito fogo, lança dos olhos raios,
O' alma grande e rara, eu mesmo, eu mesmo o vi
O Genio de Voltaire erra ao redor de ti.

Mas eu dou-yos lições inuteis, e infeis,
E a minha Musa irada arroja seos pinceis;
Se elles vos-não infundem soberba, que se estima,
Soberba creadora, fogo que nos-anima
Não, não temais a afronta de publico insolente;
Abrio, abrio os olhos a Lusitana gente.
Se já vos-chamou vis, chora de telo feito;
Não, não despreza as artes, que adora no seo peito.

Eu sei que hum Sabio illustre, a quem venera a Fama,
Hum que aborrece o mundo todo ama, verdade nua,
Troveja sobre vós dom a eloquência sua :
E no seu ocio triste, cercado de desgostos
Quiz corromper com fel todos os nossos gostos.
Eu tremo, e a minha Musa por mais que se disvele
Respeita este Demosthenes., inda queixosa d'elle,
Mas contra as suas iras vos-devo consolar;
Hum Sabio em fim he homem, podia se engana

Se elle de todo o mundo forma huma imagem feia,
Nós porque não faremos huma formosa ideia?
Dos credulos humanos, Censores rigorosos
Para que he ter inveja do que nos faz ditosos?
Deixa-nos esta ao menos fantastica belezza:
Hum engenhoso engano adorna a natureza.
Roubar-nos dos talentos os dons encantadores,
He despojar a terra de fructos e de flores.
Sabei pois rechaçar seos frivolos intentos:
Lá vão os seos quixumes levados pelos ventos
Elle assim mesmo austero, bem pode ser vencido,
Fazei-vos estumar, e tendes respondido.

Lá n'huma região á nós desconhecida,
Sobre huma nuvem alta de purpura vestida
Levanta aos Ceos hum Templo a soberba faxada
Com temerosa mão prohibe o genio a entrada
A' criticos pedantes, estupidos Autores,
Que em vão forçar pretendem do seculo os louvores
Mostra-se ali sem veo a candida verdade,
N'este Palacio habita a imortalidade.
A preccupação, a quem o vulgo incensa,
Sem máscara, bramindo lhe foge da presença.
As palmas, que das artes são prêmios verdadeiros,
S'enlação orgulhosas có as palmas dos guerreiros.
Neste lugar Virgilio passêa igual á Augusto,
Homero ao pé de Achilles, não sente horror nem susto.

Mistura a terna Sapho ornada de mil flores,
As murtas amorosas aos loiros vencedores.
Ovidio alli parece que Julia a amar ensine,
Chapenele inda chora nos braços de Racine.
A irada de Conoreur desgrenha a trança bella,
Pára Corneillo attento, e fixa os olhos n’ella
Vós outras, a, quem cinge Melpomene de flores,
Tendes asseio do pé dos immortaes Autores;
Da horrivel Dumesnil o tempo não consome
Junto ao de Crébillon. com sangue escrito o nome
Cluiroz, a quem nenhuma se póde comparar;
Por junto de Fulluire a Glorio o seo lugar,
Preparão lá triumplos para C*** bella
Assim não só resolver a recebê-los ella.
Que magoas causaria o caso seo fatal!
Perdião muito os homens se a vissem immortal


GAMA, José Basílio da. “A declamação trágica”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.3-8.

 


Marca d'água

A ilustre O’ Neille pergunta que cousa sejão saudades.

 


Musa, basta de silencio,
Quer linda O'Neille escutar-nos,
á sua amável grandeza,
Seria crime escusar-nos.

Limpo as ferrugentas cordas ;
Mas desmaia o coração ;
E ao pensar no excelso Nome,
Me cahe a lira da mão.

He esta a que em berço augusto
Graças, e Musas dotarão,
E á quem Artes, e Sciencias,
A docil razão guiarão.

He esta a Britana Sapho,
A quem rendem vassalage,
Com Dacier erudita,
A suave du Bocage:

Qu'estuda o Homem com Pope»
Com Robertson dê-o Mundo,
Ri com Swift engraçado,
E segue a Newton profundo.

Co's ouvidos costumados
A'meigas rozes sonoras,
Porque tem seu lugar proprio
Putre as Aonias cantoras

Como poderá ouvir
Os meos roucos gritos vãos,
Sem tapar sabios ouvidos,
Com as jasminadas mãos?

Não he do Tamisa hum Cisne,
Que vai soltar doce canto;
Brasileiro Papagaio
De arremedo a voz levanto.

Tinha razão de callar-me,
Deveria emmudecer,
Mas se O'Neille quer q'eu falle;
He virtude obedecer.

Em fim, Musa, obedeçamos
Basta já de dar disculpa,
Porq' o muito disculpar,
Tambem ás vezes he culpa.

Pois saber o que he saudade,
Gentil D' Neille, careces,
Vou talvez dizer-te hum mal,
Que sofres, e não conheces.

Dirao huns q' he sentimento,
Que só Portuguezes tem ;
E q’ importa falte aos outros,
Vozes qu’ o expliquem bem?

Mas eu, Senhora; não quero
Iludir vossa grandeza:
Saudade, he nome qu’ explica
Triste mal da Natureza.

Filha da cruel ausência
He essa terna paixão,
Que se nutre de esperanças
No sensível coração.

De lembranças, e desejos,
Tristemente acompanhada,
Punge, e fere huma alma terna,
Do amado bem separada;

Por exemplo dividida
Da tua cara metade,
Toda essa falta que sentes,
Isso, O' Neille, he qu' he saudade.

Em meio de mil prazeres
Sempre esta paixão he triste,
E á seu intimo tormento,
Nenhuma cousa resiste:

Obriga á lagrimas tristes,
Obriga á sentidos ais,
Nem só humanos obriga,
Inda á brutos animais.

Ouve o saudoso gorgeio
Da amorosa Philomela
Quantas. vezes te interneces
Co' a triste saudade della ?

O aureo collo entumecendo
Arrulando o pombo aflito,
Tenra esposa que lhe falta
Chama em seo saudoso gritos

Bravo sanhudo Leão,
A madeicha sacudindo,
Se a cara Leôa prendem,
Os campos corre bramindo.

Traz estes males Amor ;
Porém a doce Amizade
Não deixa de ter também
A doença da saudade.

Tu, que a memoria tens chêa
De mil sucessos antigos,
Escusas qu' eu te reconte,
Tristes saudosos amigos,

Do teu Augusto Ricardo.
Te lembre a celebre historia,
E vê do amigo saudoso,
Qual seja a honrada memória

Tambem de fido animal,
Que seo on senhor perdeo,
Se conta que de saudades,
Junto ao sepulcro morreo.

He de temer este mal,
O tempo o torna mais forte,
E em lhe faltando a esperança,
Bem depressa he mal de morte.

Basta, Senhora: ja sabes,
Q' em fim saudade' só he
Q sentimento q hum soffre,
Quando o que estimá não vé

Tu qu' onde quer qu' appareces,
Causas Amor, e Amizade,
Terás dado (eu não duvido)
Motivo é muita saudade.


GAMA, José Basílio da. “A ilustre O’ Neille pergunta que cousa sejão saudades.”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 38-41.

 


Marca d'água

Soneto

 


FUNDOU co a forte espada a Monarquia
Hum Affonço, e outro Affonço Heroe valentes;
Coroou Ceres de Diniz a frente
Das Musas na agradável companhia

Pedro adorou da amada, a cinza fria;
João quebrou do Leão ra garra e o dente
Manoel forçou as portas do Oriente
Por ver o berço aonde masee o dia;

Pagou tributo de manchadas pélles
A quarta parte nova ao Quinto Augusto
Mas tu foste maior que todos elles,

Que lês por baixo do dourado Busto :-
Amou os pozos, foi amado d'elles,
José, o Pai da Patria, o Grandes, o Justo.


GAMA, José Basílio da. “Soneto.”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 68.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)