José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838)
Ode aos gregos
O Musa do Brasil, tempera a Lyra
Dirige o canto meu, vem inspirar-me::
Accende-me na mente estro divino
De heroico assumpto digno!
Se com migo choraste os negros males,
Que a saudosa cara Patria opprimem,
Da Grecia renascida altas façanhas
As lagrimas te séquem.
Se ao curvo alfange se ao pelouro ardente
Politica malvada a Grecia vende;
As bandeiras da Cruz, da Liberdade,
Farpadas inda ondeão.
As baionetas, que os servis amestrão,
Carnagem, fogo, não assustem peitos,
Que amao a Liberdade, amao a patria,
E da Helenos se prosão
Como as gotas Da chuva o sangue ensopa
Arido pó de campos devastados:
Como do funeral lungabre sino,
Gemidos mil retumbão.
Creancinhas, matronas, virgens puras
Que á apostasia vota, que á deshonra vota
O feroz Molenmim, filho do inferno
Come martires morrem
E consentis, oh Deos! Que tristes filhos
Da redemptora Cruz, Arabes, Turcos,
Exterminem do sólo antigo e Santo
Da abandonada Grecia?
Contra Algozes os miseros combatem ;
Contra barbaros Cruz, honra e justiça -
A Europa geme: só tyrannos frios
Com taes horrores folgão.
Rivalidades, ambição, temores,
Sujo interesse a inerte espada prendem;
E o sangue de Christaos, que lagos forma,
Hum ai lhes não arranca!
Perecerás, ó Grecia, mas com tigo
Murcharão de Albion honra e renome :
O sordido egoismo, que a devóra
He já do mundo espanto?
Não desmaies porém, a Divindade
Roborará teu braço; e na memoria
Gravará para exemplo os altos feitos
Dos illustres passados.
Eis os mirrados ossos já se animão
De Mélciades; já da campa fria
Ergue a cabeça, e grito dá tremendo
Para acordar os netos.
Helenos, brada, ó vós, prole divina
Basta de escravidão; não mais pprobrios!
He tempo de quebrar erillao pesado,
E de vingar infamias.
Se arrazastes de Troia os altos muros
Para o crime punir, que amor causara,
Então porque sofreis há largos annos
Estupros e adulterios?
Forão assento e berço ás doutas Musas
O sagrado Helicón, Parnazo e Pindo:
Moral, Sabedoria, Humanidade
Fez vecejar a Lyra.
Ante Helenicas proas se acamava
Euxino, Egéo, - e mil colonias hião
Levar Artes e leis as rudes plagas
E da Libya, e da Europa.
Hum punhado de Heroes então podia
T'ingir de sangue Persa o vasto Ponto; —
Montões de corpos inda palpitantes
Estrumavao os campos.
Ah! porque não sereis o que ja fostes?
Mudou-se o vosso Ceo, e o vosso sólo:
E nao são inda os mesmos estes montes ,
Estes mares e portos?
Se Esparta ambiciosa, Athenas, thebas
O fratricida braço não tivesses
Em seu sangue banhado, nunca a Grecia
Curvára o collo Roma
E se de Constantino a Klame próle
Do fanatismo cégo não houvera
Aguçado o punhal! ah! Nunca as Luas
Tremularao ufanas.
Depois que foste, ó Grecia miseranda,
De despotas brutaes brutal escrava.
— Em a esquerda o Koram, na dextra a espada
Barbarie prega o turco
Assaz sorveste já milhões de insultos:
Já longa escravidão pagou teus crimes;
O Ceo tom perdoado. - Eia, ja cumpre;
Ser Helenos, ser homens.
Eia, Gregos, jurai, mostrai ao mundo
Que sois dignos de ser quaes fostes d'antes
Eia, morrei de todo, ou sêde livres; —
Assim faltou, - callou-se.
E qual ligeira nevoa sacudida
Pelo tufão do Morte, a sombra augusta
Desapparece A Grecia inteira brada:
Ou Liberdade, ou Morte.
SILVA, José Bonifácio de A. e. “Ode aos gregos”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.22-24.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)