Dor secreta
Musa, cerra o teu lábio, e, indiferente e enxuto,
Abre o límpido olhar.
Que essa dor, que te morde o coração em luto
E que o faz sufocar,
Nem de leve contraía o teu plácido rosto.
Cala o acerbo sofrer.
Cala, Musa, esse amargo e profundo desgosto
Pior do que o morrer.
Nem uma queixa, um grito, uma súplica, um canto,
O revele jamais.
O momento chegou de reter o teu pranto
E abafar os teus ais.
CORTINES, Júlia. “Dor secreta”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 149.
À Minha musa
Musa, toda a minha alma a tua alma retrata:
Se rio, o riso entreabre os teus lábios em festa;
Sofro, e sobre o palor da tua face mesta
Tristemente o colar do pranto se desata.
Sonho, e a mundos ideais o enlevo te arrebata...
E o que a minha alma admira, ama, odeia e detesta,
E ilumina-me o olhar e sombreia-me a testa,
O teu gesto traduz e a tua voz relata.
Quer te eleves no voo audaz do pensamento
E vás livre pairar das estrelas em meio,
Quer te embale de leve um brando sentimento,
Quer estejas alegre, atormentada ou calma,
É-me grato sentir que dentro do teu seio
Vibra o meu coração e palpita a minha alma.
CORTINES, Júlia. “À Minha Musa”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 122.