Júlia Cortines (1868-1948)
I
Entrei. Era silenciosa e quente
A sala; o cravo rúbido se abria
Na jarra; e um anjo plácido sorria
Sob o cristal de um quadro transparente.
E, como a flor que se enervardo havia
Naquele triste e cálido ambiente,
Espalhava-se um quê de rubro e ardente,
E de suave a lânguida poesia.
Uma criança trêfega falava,
Quando senti que alguém se aproximava;
Sem mesmo erguer o olhar e sem sorrir,
Lhe dei a mão com tímido receio...
Mão que apertou de leve, e que me veio
Sobre o regaço, trêmula, cair.
Julho.
CORTINES, Júlia. “I”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 90.
Desiludida
A negra nuvem da melancolia
Te ofusca a fronte... Peregrina e bela,
De teu olhar a luz, glauca e sombria,
Lembra as ondas que o vento encarapela.
Que importa que teu lábio nos sorria,
Se em teu sorriso a mágoa se revela,
E se traduz a fúnebre elegia
Do sofrimento que teu peito encela?
Quem te levou, ó mísera criança,
De um céu azul, de sonhos irisado,
À noite umbrosa da desesperança?
Que mão foi essa, desumana e fera,
Que ante o teu doce olhar enamorado
Dilacerou a teia da quimera?
CORTINES, Júlia. “Desiludida”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 156.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)