Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cecília Meireles (1901-1964)


Marca d'água

Lustre

 


Quando o lustre se acendeu,
ninguém pôde falar:
— abriu-se na noite um mundo de cristal,
cantaram pássaros de repente,
azuis e brancos.
Todos pareciam perdidos e pequenos,
sob o jorro de luz sobrenatural.

lodos levantaram os olhos, calados e humildes,
na meia-noite iluminada:
— houve um céu novo, ramagens de jardins,
praias com sereias, conchas, peixes e barcos…

Deuses antigos se levantaram,
orvalhados de ouro e de mar…

Todos ficaram felizes, sob o lustre,
e cada um contemplava suas aparições.

Se o vento batesse, porém,
tudo se tornaria simples areia voante:
— que a aérea festa colorida e luminosa
era apenas de vidro e imaginação.

O lustre de angústia e júbilo,
inesperada primavera, ardente fábula...


MEIRELES, Cecília. “Lustre”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 99.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)